As escutas de Lula da Silva na Operação Lava Jato reveladas pela comunicação social brasileira contêm uma segunda conversa com a presidente Dilma Rousseff no dia em que Lula foi detido para interrogatório pela Polícia Federal. E não é uma conversa qualquer, já que configura um claro desejo de guerra entre o poder político e o poder judicial brasileiro e a utilização do Partido dos Trabalhadores para proteger o seu líder histórico.

Oiça aqui a conversa entre Lula e Dilma escutada pelo Ministério Público Federal:

Num contexto em que revela os pormenores do interrogatório a que foi sujeito e das buscas que foram realizadas à sua casa, à dos seus filhos e dos seus principais aliados no dia 4 de março, Lula não tem meias medidas e diz que acabaram-se as tréguas, numa conversa que indicia que sabe que está a ser escutado:

Eu, estou dizendo aqui pró PT, Dilma que não tem mais trégua, não tem que ficar acreditando na luta jurídica, nós temos que aproveitar a nossa militância e ir prá rua. Eu sinceramente, que tôquerendo me aposentar, eu vou antecipar minha campanha pra 2018, eu vou acertar de viajar esse país a partir da semana que vem, sabe?! E quero ver o que vai acontecer. É, lamentavelmente, vai ser isso, querida. Eu não vou ficar em casa parado.”

Além de querer antecipar a sua campanha para as presidenciais de 2018, Lula da Silva queria falar com Dilma Rousseff a sós com um objetivo claro: mudar o país e impedir aquilo que entende ser uma excessiva influência do sistema judicial no Brasil:

Então é o seguinte, “ô, ô”, uma hora gostaria de conversar pessoalmente porque eu acho que nós precisamos mudar alguma coisa nesse País”, diz Lula para Dilma.

Os “canalhas”

Já se tinham passado três dias depois de ter sido detido por suspeitas de branqueamento de capitais mas a fúria de Lula da Silva contra a Justiça e o juiz Sérgio Moro, que lidera a instrução e os julgamentos da Operação Lava Jato, não tinha diminuído.

A conversa ocorreu às 13h02m do dia 4 de março e o ex-presidente começou por contar a Dilma o que tinha acontecido durante o interrogatório a que foi sujeito pelas autoridades judiciais:

Eu tô bem, eu falei com a Marisa agora, eles já foram embora de casa, já foram embora da casa do Fábio [filho mais velho de Lula e Marisa], já foram embora da casa do Sandro [segundo filho de Lula e Marisa], eu só não consegui falar com Marcos [filho de Lula do primeiro casamento]. As perguntas, se os canalhas tivessem mandado um ofício, teria ido prestar depoimento, como eu já fui 3 vezes a Brasília prestar depoimento. Eu acho que o [juiz Sérgio] Moro quis fazer um espetáculo (…) A tese deles é de que tudo que ta acontecendo foi uma quadrilha montada em 2003 e que portanto, sabe, ela perdura até hoje, sabe? E dentro do Palácio [Palácio do Planalto, sede da Presidência da República do Brasil], é a tese deles, é a tese deles. Então eles não precisam de explicação, como a teoria do domínio do fato não precisava de explicação, o crime estava dado, agora é o seguinte a imprensa diz que é criminoso e eles colocam em prática”.

Nesta conversa com a presidente Dilma Rousseff, Lula da Silva não tem dúvidas de que a Operação Lava Jato é um ataque ao Governo de Dilma e ao ‘seu’ Partido dos Trabalhadores e ataca o perigo de o Brasil se transformar numa República de Juízes.

Eles [o poder judicial] estão convencidos de que com a imprensa chefiando qualquer processo investigatório eles conseguem refundar a República”

Perante o entusiasmo de Dilma (“É isso aí”!), Lula da Silva continua:

Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Supremo Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT [Partido dos Trabalhadores] e o PC do B [Partido Comunista do Brasil] é que acordaram e começaram a brigar. Nós temos um Presidente da Câmara [Presidente do Congresso Nacional, o equivalente à Assembleia da República] fodido, um Presidente do Senado [a Câmara Alta do poder legislativo] fodido, não sei quanto parlamentares ameaçados, e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e que vai todo mundo se salvar. Eu, sinceramente, tô assustado com a República de Curitiba [capital do Estado do Paraná onde trabalha o juiz Sérgio Moro e onde decorrem as principais investigações da Operação Lava Jato]. Porque a partir de um juiz de 1ª Instância, tudo pode acontecer nesse país”, afirma Lula.

Para enfatizar o perigo de uma ‘República de Juízes’, e sem falar das suspeitas que são levantadas na Operação Lava Jato, Lula da Silva até pergunta a Dilma Rousseff, referindo-se a suspeitas que tinham levantadas contra um nome de um político que Dilma queria nomear para o seu governo:

Como é que pode um delegado da Polícia Federal [o principal órgão de investigação criminal brasileiro] fazer uma declaração contra a mudança de Ministro?”. Ao que Dilma responde: “Eu nunca vi isso, eu também nunca vi isso!”

Daí o pedido para uma conversa a sós que Lula (que é tratado por Dilma como “senhor”, sendo que Lula trata a sua sucessora por “querida”), solicita à presidente do Brasil:

(…) uma hora gostaria de conversar pessoalmente porque eu acho que nós
precisamos mudar alguma coisa nesse País. (…) a única pessoa que está precisando de autonomia nesse país é a Dilma, que foi a única eleita, e que não consegue governar por causa do Congresso, não consegue governar por causa do Tribunal de Contas, não consegue governar por causa do Ministério Público, porra! Somente quem está precisando de autonomia é a Presidência da República, o resto tudo tem”.

Dilma mostra ter a mesma opinião e pergunta:

E quando é que a gente pode conversar?”, ao que Lula responde: “Querida, eu tô, eu tô, o nosso companheiro tinha visto a possibilidade de você convocar um conversa… quando você quiser, meu amor, só não pode ser amanhã, porque amanhã tá muito em cima”.

O encontro privado entre os dois ficou marcado para o dia 7 de março.

Escuta integral da conversa entre Lula e Dilma

Leia a conversa entre Lula e Dilma, revelada pelo jornal “Estado de São Paulo”.

DILMA: Alô, alô. Oi LULA!

LULA: Tudo bem?

DILMA: Não, não tô achando tudo bem não.

LULA: Faz parte…

DILMA: Ah, faz parte? Então ta bom. E como é que você tá?

LULA: Eu tô bem…

DILMA: tá?

LULA: eu tô bem, eu falei com a Marisa agora, eles já foram embora de casa, já foram embora da casa do Fábio, já foram embora da casa do Sandro, eu só não conseguir falar com Marcos. As perguntas, se os canalhas tivessem mandado um ofício, teria ido prestar depoimento, como eu já fui 3 vezes a Brasília prestar depoimento. Eu acho que o Moro quis fazer um espetáculo, antes da decisão daquele negócio que tá no Supremo pra decidir, a gente não sabe se é contra ou a favor, mas ele precisava fazer um espetáculo de pirotecnia. As perguntas foram as mesmas que eu já respondi ao Ministério Público e a dois Delegados da Polícia Federal. Dos meus filhos, eles levaram os mesmos documentos que já tinha levado quando tinham levado na “invasão” na casa do meu filho. Ah, o único lugar que houve um pouco…foram na casa do Paulo Okamotto, foram na casa da Clara Ant, sabe? A Clara tava dormindo sozinha quando entrou 5 homens lá dentro, ela pensou que era presente de Deus, era a Polícia Federal, sabe? então…(risos)

DILMA: (risos) Ela pensou que era um presente de Deus? (risos)

LULA: Então é isso Dilma, eu acho que foi um espetáculo de pirotecnia. A tese deles é de que tudo que ta acontecendo foi uma quadrilha montada em 2003 e que portanto, sabe, ela perdura até hoje, sabe? E dentro do Palácio, é a tese deles, é a tese deles. Então eles não precisam de explicação, como a teoria do domínio do fato não precisava de explicação, o crime estava dado, agora é o seguinte a Imprensa diz que é criminoso e eles colocam em prática. Eu, estou dizendo aqui pró PT, DILMA que não tem mais trégua, não tem que ficar acreditando na luta jurídica, nós temos que aproveitar a nossa militância e ir pra rua. Eu sinceramente, que tô querendo me aposentar, eu vou antecipar minha campanha pra 2018, eu vou acertar de viajar esse país a partir da semana que vem, sabe?! E quero ver o que vai acontecer. É, lamentavelmente, vai ser isso, querida. Eu não vou ficar em casa parado.

DILMA: O senhor não acha estranho a aquela história de quinta-feira? A isto é antecipar… (interrompida)

LULA: Eu acho estranho a liberação…a liberação do Delcídio, a declaração do Delcídio, a isto é antecipar, eu acho Dilma.

DILMA: E logo no seguinte, na sexta-feira, o senhor ser chamado.

LULA: É um espetáculo de pirotecnia sem precedentes, querida. Eles estão convencidos de que com a imprensa chefiando qualquer processo investigatório eles conseguem refundar a República.

DILMA: É isso aí!!

LULA: Nós temos uma SUPREMA CORTE totalmente acovardada, nós temos uma SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA totalmente acovardado, um PARLAMENTO totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT e o PC do B é que acordaram e começaram a brigar. Nós temos um PRESIDENTE DA CÂMARA fodido, um PRESIDENTE do SENADO fodido, não sei quanto parlamentares ameaçados, e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e que vai todo mundo se salvar. Eu, sinceramente, tô assustado com a “REPÚBLICA DE CURITIBA”. Porque a partir de um juiz de 1ª Instância, tudo pode acontecer nesse país.

DILMA: Então era tudo igual o que sempre foi, é?

LULA: Era, a mesma coisa…. Hoje eles fizeram uma coisa coletiva. Foram na casa do PAULO OKAMOTTO em Atibaia, eu nem conversei com PAULO ainda, foram na casa da CLARA. Eu tô pensando em pegar todo o acervo, eu vou tomar a decisão, e levar, jogar na frente do MINISTÉRIO PÚBLICO. Eles que enfiem no cu e tomem conta disso.

DILMA: O acervo, de que?

LULA: Dilma, é um monte de container de tranqueira que eu ganhei quando eu tava na Presidência.

DILMA: Ah, dá pra eles! Eu vou fazer a mesma coisa com os meus viu?!

LULA: Então é o seguinte, “ô, ô”, uma hora gostaria de conversar pessoalmente porque eu acho que nós precisamos mudar alguma coisa nesse País.

DILMA: Você pode? Quando é que você vai? (interrompida)

LULA: Ontem eu disse o seguinte, a única pessoa… Como é que pode um delegado da Polícia Federal dá uma declaração contra a mudança de Ministro?

DILMA: Eu nunca vi isso, eu também nunca vi isso!

LULA: Como é que pode? Ou seja, eu disse pra eles a única pessoa que está precisando de autonomia nesse país é a DILMA, que foi a única eleita, e que não consegue governar por causa do Congresso, não consegue governar por causa do Tribunal de Contas, não consegue governar por causa do Ministério Público, porra! Somente quem está precisando de autonomia é a Presidência da República, o resto tudo tem.

DILMA: E quando é que a gente pode conversar?

LULA: Querida, eu tô, eu tô, o nosso companheiro tinha visto a possibilidade de você convocar um conversa… quando você quiser, meu amor, só não pode ser amanhã, porque amanhã tá muito em cima.

DILMA: Tá bom.

LULA: Mas quando você quiser, eu me disponho

DILMA: Segunda! Segunda! Segunda! Tá?

LULA: Tá, depois eu acerto com o “galego”, pra mim pode ser.