Parece que tem pézinhos de lã, bem leves. Como quem está trancado na sala onde a avó faz uma sesta e o chão está coberto de vidro estilhaçado. Tem o peito sempre feito, a coluna direita e a cabeça levantada no ar. Dá a impressão que nem olha para a bola, confiante de que os pés tratam dela sozinhos, preocupando-se mais em ver quantos adversários o rodeiam e de que lado eles veem. Na cara reage pouco às coisas: não berra com faltas sofridas, não finge a dor que não sente. E depois joga, joga e joga e faz os que tem à volta com a mesma camisola jogarem também.

É assim que J. Dário se porta até ao intervalo. Está como sempre à direita, como um médio mascarado de extremo, que começa colado à linha a atacar e corre para dentro quando tem a bola ou é preciso fechar a defender. Bolas perdidas são mentira porque a verdade é que o português tem calma e compostura de sobra. É ele quem mais pede a bola, a toca rápido, a vai buscar à frente, a desvia de pés rivais e a faz passear entre os leões. Faz dois golos porque tenta o que não costuma tentar — rematar. Tanto com a força de quem bate na bola à bruta (19’) como com o jeito de quem parece ter uma almofada no pé, para dar o efeito certo que corta a bola em direção ao poste direito (33’).

Passam 14 minutos entre o 2-0 e o 3-0 que lhe saem do pé direito. As costas da camisola que veste identifica-o como J. Dário, pela mesma razão que, antes e depois dos golos, haver um Guterres que também bisa. Os golos que marca são quase irmãos gémeos porque o parto de ambos é praticamente igual: um canhoto bate um canto à esquerda, a bola cai perto da marca de penálti, uma cabeça desvia a bola em direção ao segundo poste e lá está a perna de um colombiano a desviá-la para a baliza. O quarto (15’) e o quinto golo (45’) do avançado que estava à beira de ser o patinho feio de Alvalade — os adeptos tinham-no assobiado, nos últimos jogos — ajudavam a resolver o jogo antes do intervalo.

J. Dário e Guterres resolviam porque o Sporting resolveu, durante a primeira parte, fazer uma campanha contra a falsificação de camisolas de futebol e trocar os nomes dos jogadores. João Mário jogava muito e Téo Gutiérrez não tanto, mas ambos marcavam dois golos cada para traduzirem em números o muito que os leões faziam no campo. O Arouca até começara bem, a conseguir chegar à área do Sporting, tão bem que até aos 14’ nada entrou na sua baliza e tornou-se na equipa que mais tempo seguido passou sem sofrer golos neste campeonato (539 minutos).

Sporting vs Arouca

Ainda mais estranho foi, portanto, ver o Arouca que não perdia há sete jogos tornar-se no Arouca que, há três anos, se estreava na primeira liga em Alvalade. A equipa de Lito Vidigal, mesmo depois sair da sua área com a bola na relva e de lançar Walter González e Ivo Rodrigues nas costas de defesa que o Sporting mantinha colada à linha do meio campo, começou a tremer. E foi tremendo sempre mais à medida que os leões se mantinham juntos a atacar para, quando perdiam a bola, pressionarem rápido os adversários, perto da área. Os passes errados, escorregadelas e desarmes nessa zona sucediam-se e perdia-se a conta às jogadas que o Sporting conseguia fazer à entrada da área do Arouca.

Uma lançou Téo pela esquerda, onde o colombiano bailou ante um adversário antes de passar rasteiro para a entrada da área. Outra deixou Adrien receber a bola à direita, virar-se, tabelar com Slimani para um toca-e-foge, ultrapassar dois e depois dar um pequeno passe para a esquerda, na área. Assim surgiram os golos de João Mário que, com os de Gutiérrez, deram o 4-0 que matou o jogo ali e fez da segunda parte um passeio.

O Arouca ainda conseguiu arrancar melhor, de novo, mas nem com um contra-ataque de quatro para um (56’) conseguiu marcar cedo um golo que ressuscitasse a partida. Que, minutos depois, morreu mais um pouco quando João Mário teve a calma na área de tocar a bola para Slimani e ver o argelino passá-la, rasteira, para Bryan Ruiz, que perto da marca de penálti a rematou para a gaveta do canto superior esquerdo. Um alívio para o costa-riquenho, que se andava a lamentar desde que falhou um golo cantado no dérbi contra o Benfica. Os leões abrandaram muito com a manita e abriram de vez a mão que até se fechava muito para pressionar os adversários.

Mas, até ao fim, o Arouca só teve uma bomba disparada por Ivo Rodrigues num livre à esquerda da área que Rui Patrício parou. E teve o golo que não terá consolado por aí além a equipa — Gegé marcou de cabeça, aos 67’ — e que deu à equipa uma derrota pelos mesmos números que teve na tal estreia na primeira liga, há três épocas. E ainda se viu Islam Slimani fazer birra quando Jorge Jesus o tirou a ele e a Adrien do campo por serem os que não podiam ver um cartão amarelo. O Sporting volta a ser líder do campeonato até que o Benfica entre em campo, no domingo (às 18h15, em casa do Boavista). Mais uma semana de perseguição dos “leões” aos “encarnados”. Só mudaram os nomes nas camisolas.

Falta de respeito? Normal. Nenhum jogador quer sair. Ainda sonha ser o goleador do campeonato. Aquilo que o Slimani pensa e diz vale zero. No Sporting, quem manda sou eu. Portanto, vai obedecer sempre às minhas decisões, com ou sem azia. No dia que for com azia compro-lhe kompensans. São situações que sei que são normais nos jogadores e sei como hei de trabalhar em cima destas questões. O Slimani vai continuar a jogar e no dia em que o quiser tirar aos dois minutos, tiro, ponto de final. E ele aguenta-se, porque quem manda aqui sou eu” — Jorge Jesus, sobre o avançado argelino.