Os parques temáticos norte-americanos do grupo SeaWorld anunciaram esta quinta-feira que vão acabar com todos os programas de reprodução de orcas em cativeiro. Num vídeo institucional, a empresa afirma ter ouvido os apelos de quem se manifesta contra este tipo de exibição e que está a preparar novos programas educativos e mais apoio a conservação da vida marinha.

“O SeaWorld apresentou as orcas a mais de 400 milhões de visitantes e estamos orgulhosos por termos contribuído para a compreensão destes animais”, disse, em comunicado, Joel Manby, presidente e diretor executivo da empresa SeaWorld Entertainment. “Ajudámos a tornar as orcas um dos mamíferos marinhos mais amados do planeta. À medida que a perceção da sociedade em relação às orcas vai mudando, a SeaWorld vai mudando com isso.”

Esta estratégia não passará de uma manobra de diversão, segundo Ric O’Barry, um ativista contra a manutenção de mamíferos marinhos em cativeiro e diretor do grupo DolphinProject.net, citado pelo The Japan Times. O macho que mais crias originou, Tilikum, está gravemente doente e não poderá voltar a gerar descendência. “Com que então dizem que o vosso programa de reprodução acabou? Bem, sabem que mais? O vosso programa de reprodução está acabado de qualquer forma.”

O mesmo macho, Tilikum, foi o protagonista do documentário “Blackfish“, de 2013. Esta é a maior orca em cativeiro, com 5,6 toneladas e seis metros de comprimento, e terá estado envolvida na morte de três treinadores do parque. O documentário mostra as más condições em que alegadamente os animais vivem: os tanques pequenos, os treinos duros e os inúmeros espetáculos por ano. Depois do documentário as ações da empresa e o número de visitantes caíram em flecha.

A SeaWorld comprou a sua primeira orca em 1965, afirma o USAToday, quando as orcas eram temidas e vulgarmente chamadas de baleias-assassinas. As orcas, apesar de terem um tamanho que mais se aproxima das baleias, são um parente próximo dos golfinhos e, tal como estes, alimentam-se de outros animais, tais como focas.

Neste momento a SeaWorld ainda tem 29 orcas, a mais nova com um ano e a mais velha com 51, daí que alguns defensores dos direitos dos animais, apesar de aplaudirem este gesto, continuem a apelar à entrega dos animais a santuários de vida selvagem. “A SeaWorld deveria abrir os seus tanques para os oceanos para permitir às orcas que agora são mantidas em cativeiro tivessem uma ideia de como é que é a vida fora daqueles tanques que as aprisionam”, disse Mimi Bekhechi, diretora da associação defensora dos animais PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), citada pelo The Guardian.

A empresa garante que há quase 40 anos que não vai buscar animais à natureza. A maior parte das orcas apresentadas nos espetáculos nasceram em cativeiro e, como nunca conheceram a vida selvagem, não teriam condições para serem introduzidas na natureza, defende a SeaWorld. E dá o exemplo de Keiko.

Keiko, a orca macho que protagonizou o filme “Free Willy”, em 1993, foi libertada, mas sem sucesso. Willy era uma orca de um parque temático com quem uma criança problemática acabou por criar uma relação. A cena mais importante do filme é quando a criança liberta a orca. Depois do filme criou-se um movimento para libertar Keiko.

Esta orca tinha sido capturada perto da Islândia por volta de 1980 quando tinha cerca de dois anos, conta o site Orca Network. Depois de uma curta temporada num aquário islandês foi para o parque temático Marineland no Ontário (Canadá) e, em 1985, para o Reino Aventura na Cidade do México. O movimento de apoio à libertação de Keiko fez com que a partir do ano 2000 a orca fosse preparada para a libertação, que aconteceu pouco tempo depois.

Mas depois de mais de 20 anos em cativeiro, o animal não conseguia socializar-se com os outros animais da sua espécie, continuava a procurar a companhia de humanos e tinha dificuldade em alimentar-se. Morreu em 2003 de pneumonia e os especialistas consideraram a libertação da orca um fracasso.

A pergunta que agora se impõe é: qual será a estratégia deste parque temático que desde o início construiu a marca com base nos espetáculos com orcas? Aguardemos para ver.