Isabel foi enterrada no adro da igreja junto ao “freixieiro” (um freixo-comum, Fraxinus angustifolia). O freixo, que tem mais de 30 metros, é tão largo que são precisas duas pessoas para o abraçar, mas o mais impressionante sobre esta árvore é que já estava naquele local a 26 de outubro de 1647. Assim o atesta o assento de óbito de Isabel.

Esta é apenas uma das histórias que chegou a Raquel Lopes, a professora que agora se encontra a fazer doutoramento em divulgação de ciência. Como contou ao Observador, o que deseja é criar uma série de atividades para comunicar a importância das árvores, em especial as árvores monumentais e históricas, a vários tipos de público.

Pelo caminho, a doutoranda da Universidade de Aveiro vai ajudando quem quer ver árvores monumentais serem classificadas no Registo Nacional de Árvores de Interesse Público, como um conjunto de oliveiras na zona de Mourão. A iniciativa partiu de uma cidadã, mas o município também já está interessado. É como ter um momento reconhecido a nível nacional, mas este é natural.

A própria Raquel Lopes tem uma árvore especial que gostava de ver classificada: o pinheiro do penedo de João Pires. Este pinheiro cresceu no topo de um penedo em (des)equilíbrio na freguesia da Mesquitela, concelho de Celorico da Beira. Raquel conhece bem o local ou não fosse a terra natal dos seus pais, mas gostava que mais pessoas o conhecessem. Quem sabe um dia não cria um roteiro botânico para as árvores do concelho.

“[As árvore monumentais] distinguem-se das outras pelo tamanho desmesurado, pela idade centenária ou até pelas formas bizarras que adquiriram ao longo dos tempos. Umas viram os romanos chegarem, outras assistiram às invasões napoleónicas, outras ao casamento da Rainha D. Maria II. Algumas são mesmo personagens de lendas e mitos”, lê-se no site da Universidade de Aveiro.

Um roteiro com as árvores mais emblemáticas do concelho é o que a professora espera conseguir em Figueiró dos Vinhos. Sem conhecer bem a zona, Raquel Lopes conseguiu uma ajuda de peso: os alunos da universidade sénior da região. São os alunos, com 60 ou 70 anos, que conhecem bem as árvores da zona e que irão identificar as árvores mais emblemáticas, fotografá-las no âmbito da disciplina de Fotografia e recolher as estórias que sobre elas existam na disciplina de História.

As fotografias dos alunos serão exibidas na Casa da Cultura e o material recolhido por estes servirá de base a um folheto para um roteiro na região, que Raquel Lopes espera poder mostrar a várias famílias no verão. Mas o mais importante é mobilizar as pessoas da região para preservarem este património natural e submeterem os pedidos de classificação ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Figueiró dos Vinhos é um dos projetos-piloto no âmbito do doutoramento. O outro é Alcobaça. São duas realidades completamente diferentes, conta Raquel Lopes. Quando fala de árvores às crianças: as de Alcobaça pensam nos pinheiros, as das zonas mais urbanas de Figueiró dos Vinhos lembram-se dos eucaliptos, mas são as crianças das zonas mais rurais que identificam as árvores nativas, como os castanheiros. E é isto que a professora quer mudar. Quer que as pessoas conheçam o património natural nacional e que o valorizem.

Educação ambiental - Comunicação da importância das árvores monumentais a escolas do concelho de Alcobaça O maior Carvalho-português classificado de Interesse Público (Quercus faginea) de Portugal 32 metros de diâmetro da copa Árvore classificada de interesse público desde 2001 Alcobaça

Uma das atividades de educação ambiental no concelho de Alcobaça, junto ao maior carvalho-português conhecido em Portugal – Daniel Pinheiro

Em Alcobaça, Raquel Lopes conta com o apoio da Câmara Municipal e de Sofia Quaresma, a bióloga do município. A professora enaltece o trabalho que já tem sido feito nesta região, como a sementeira de bolotas e a reflorestação da Serra de Aire e Candeeiros, feita com os alunos das escolas. O concelho tem o maior agrupamento de escolas do país, o que potencia, e muito, o objetivo que tem para o doutoramento: pôr os alunos em contacto com as árvores monumentais.

No projeto-piloto com o município de Alcobaça, Raquel Lopes vai ter também uma exposição com as árvores monumentais do concelho e para isso conta com o apoio do fotógrafo de natureza Daniel Pinheiro. O fotógrafo contou ao Observador que espera que as pessoas tenham orgulho nestas árvores especiais e que as protejam. “Há árvores que já viveram toda a história de Portugal e ainda mais. Não existem animais que tenham vivido tanto.”

O primeiro levantamento de Raquel Oliveira no registo recolhido pelo ICNF entre 1939 e 2012, mostra que, dos 278 municípios do continente, 130 não tinham, em 2012, nenhuma árvore classificada. Nas ilhas existe um sistema independente de classificação. A professora lembra que qualquer pessoa pode propor uma árvore para classificação (o formulário pode ser encontrado aqui) e que encontra disponível para ajudar quem precisar de ajuda (raquelopes15 @ gmail.com).