“O Twitter trouxe tanta coisa à minha vida que nem dá para explicar. Acho que vou agradecer a esta rede social para sempre.” A rede social do passarinho azul celebra dez anos esta segunda-feira e não param de chegar homenagens com a etiqueta #LoveTwitter, com um coração e um pássaro ao lado. Esta é a de Thiego Novais, um jornalista brasileiro que, com os seus 25 anos, pertence à Geração Y.

A Geração Y define-se na sociologia como o conjunto de indivíduos que parecem ter nascido com o manual de instruções dos computadores nas mãos. Assume-se que todos os nascidos desde os anos 80 até meados dos anos 90 pertençam à “geração da Internet”: são os millennials, uma expressão estrangeira que se tornou mundialmente conhecida. Para os mais velhos, é fácil identificá-los: são aqueles indivíduos com a cabeça sempre cabisbaixa, constantemente a produzir um “toc toc” com os dedos a carregar no ecrã a velocidade alucinante. Estão normalmente calados, mas sempre com algo a dizer na Internet. O que os mais velhos não sabem é que foi na geração anterior a muitos deles que os princípios do Twitter foram aplicados pela primeira vez.

Em 1972 e com 54 anos de idade, Robert Shields não sabia que se estava a tornar no inventor do microblogging. Shields era um ministro cristão e professor de Inglês numa escola secundária norte-americana que em 1972 começou a registar qualquer informação que lhe viesse à cabeça de cinco em cinco minutos, como se de uma “atualização de estado” se tratasse. Era como se um passarinho azul se sentasse no ombro do professor e perguntasse “o que está a acontecer?”, a cada 300 segundos.

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Robert Shields com a máquina de escrever IBM. Créditos: Tom Slatin

Decidiu fazê-lo sem motivo aparente, mas prosseguiu o hábito durante 25 anos: não tinha um limite de 140 caracteres e, na verdade, muitas das entradas no seu diário eram bem menores que isso. Certo é que, na altura em que a falta de saúde o impediu de escrever na máquina de escrever IBM (em 1997), Richard Shields já tinha escrito 37.5 milhões de palavras distribuídas em 91 caixas, guardadas na Universidade do Estado de Washington.

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Uma das páginas do diário de Robert Shields, escrito a 20 de dezembro de 1995. Imagem: Universidade do Estado de Washington.

O ministro e professor norte-americano morreu em 2007 com 89 anos, mas deixou mais do que um relatório ancestral de uma aplicação que veio revolucionar o mundo da Internet, 34 anos depois de ele ter inventado algo parecido. Além das entradas humorísticas que escrevia, Richard Shields veio a admitir ser o escritor fantasma de um romance erótico – “Jasmine Nights” – e ter escrito mais de 1200 poemas “dos quais pelo menos cinco são bons”, disse o próprio à Associated Press.

Não poderemos abrir nenhuma das caixas onde estão guardadas estas palavras até 2057 para proteger os direitos de autor, embora a universidade tenha cedido algumas páginas ao público. Mas Richard Shields disse ao The New York Times que “talvez ao olhar para a vida de alguém com esta profundidade, para todos os minutos da sua vida, encontrarão algo sobre todas as pessoas”.