Entra, recebe a chave, deixa o smarthpone num cacifo. E prepara a mente e o corpo para um detox digital. Acha impossível pôr o mundo em pausa? Bárbara Miranda, 34 anos, e Rita Gomes, 36, arriscaram. E é na praia da Arrifana, em plena costa vicentina, no Algarve, que querem pôr as notificações do Facebook, do WhatsApp e dos jornais à prova. (Quanto tempo aguenta sem pôr uma foto das férias no Instagram?)

Na casa Offline, em Aljezur, entregam-se os gadgets à porta e recebe-se surf, yoga e música. E uma nova forma de estar com os outros, explicam as fundadoras do projeto. “Queremos criar uma comunidade cara a cara”, dizem. Talvez não se desapareça totalmente, como canta Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, em “How to disappear completely”, mas à velocidade que a tecnologia comanda rotinas e a comunicação, desligar a internet durante dois ou três dias pode ser o equivalente a uma mini-hibernação.

A Offline é uma marca que pretende reinventar a amizade e a forma como nos socializamos, como nos relacionamos com os outros, connosco e com os objetos. Quer ser uma pausa para quem está muito dependente desta bengala [tecnologia] e pretendemos expandir este conceito para outro tipo de eventos e regiões”, explica Rita Gomes ao Observador.

Ambas de Lisboa, foi em Londres que se conheceram – antes de Bárbara, arquiteta, ter viajado sozinha, durante seis meses, para o sudeste asiático e de Rita, psicóloga clínica, ter participado em projetos de voluntariado e ensinado inglês na Tailândia. Tinham saído as duas de Portugal em 2010, quase por aventura (Rita pediu uma licença sem vencimento, Bárbara despediu-se) e cruzaram-se na capital britânica através de amigos em comum.

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Antes de se mudarem para Portugal, Bárbara Miranda e Rita Gomes estiveram durante seis anos em Londres

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A ideia de se desligarem da tecnologia surgiu entre apps. Entre todas as apps que utilizavam para conhecer e encontrarem-se com pessoas novas na capital britânica. “Londres é uma cidade muito solitária, muito grande. As pessoas já não falam ao telefone, não falam com desconhecidos. E nós sentíamos isso na pele. Era difícil conhecer pessoas, elas não interagiam, a não ser que se conhecessem de alguma app. O online é o primeiro contacto. E foi essa a base do conceito: queríamos conseguir estar e fazer tudo o que se faz com a tecnologia, mas sem ela”, explica Bárbara.

A ideia de uma desintoxicação digital nasceu em Londres e o espaço Offline era para ter sido aberto lá. Mas caiu por terra e aterrou numa casa em Aljezur. Agora, querem criar mais eventos associados à marca – entrar na indústria dos eventos e espetáculos. Foi recentemente a um concerto e deu conta do número de ecrãs que lhe impedem a visão para o palco em prol de um vídeo ou fotografia? Agora, imagine que pode ir a um concerto offline, onde os smartphones ficam à porta. É esse o próximo passo da marca.

A ideia é sempre a de que é “possível socializar sem ter um telemóvel na mão”, mas sem “qualquer tipo de crítica às pessoas que efetivamente os utilizam.

“A forma como as pessoas estão dependentes da tecnologia faz com que, gradualmente, sem se apercebem, deixem de se sentir confortáveis com elas próprias quando há um momento de silêncio e não têm um telemóvel na mão. Queremos que as pessoas voltem a sentir-se confortáveis com elas próprias, mesmo quando não têm um ecrã para onde olhar”, explica Rita Gomes.

Quando as pessoas chegam à Offline, deixam computadores, tablets e smartphones num cacifo, mas ficam com a chave, caso precisem de fazer um telefonema. “O detox do mundo digital tem de ser feito de forma gradual, porque a maior parte das pessoas vai sentir-se insegura. E esta dependência é igual a uma outra dependência qualquer”; acrescenta.

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A casa Offline, perto da praia da Arrifana, em Aljezur

O projeto de Bárbara e de Rita foi um dos vencedores do concurso VEM, promovido pelo Alto Comissariado para as Migrações para apoiar a estruturação e implementação de soluções empreendedoras por parte de portugueses e lusodescendentes que vivem além-fronteiras, mas queiram regressar. Era o caso das fundadoras do Offline. Aos 20.000 euros que receberam, são precisos mais 16.000 de investimento inicial.

Para o fim de semana da Páscoa, que marca a inauguração da casa, há oferta promocional – três noites de Digital Detox com três aulas de yoga, pequeno-almoço, duas aulas de surf, workshop de surf e skate, festa ao pôr do sol e utilização gratuita da piscina, jogos e instrumentos musicais -, que pode custar entre 179,10 euros e 404,10 euros por pessoa, dependendo do tipo de reserva que se quer fazer.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.