Os apelidos repetem-se: el-Bakraoui e el-Bakraoui, Abdeslam e Abdeslam, Kouachi e Kouachi – e por aí adiante. São irmãos e terroristas, a quem o El Mundo chama os “irmãos do mal”. As explosões de segunda-feira em Bruxelas foram levadas a cabo pelos irmãos el-Bakraoui (e por um terceiro homem). Khalid, de 27 anos, fez-se explodir na estação de metro de Maelbeek e Ibrahim, de 30 anos, no aeroporto de Zaventem.

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Khalid el-Bakraoui, à esquerda, e Ibrahim el-Bakraoui, à direita

É a última dupla de uma série de irmãos que cruzam os laços de sangue com as ligações ao radicalismo islâmico. Em novembro de 2015, as autoridades identificaram os irmãos Abdeslam: Ibrahim, de 32 anos, e Saleh, de 26. Ambos participaram nos ataques a Paris que mataram 130 pessoas. A detenção de Saleh Abdeslam aconteceu na passada sexta-feira, 18 de março. O terrorista estava a monte desde os acontecimentos de Paris, a 13 de novembro.

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Saleh Abdeslam, à esquerda, e Ibrahim Abdeslam, à direita

Antes, em janeiro de 2015, o jornal satírico Charlie Hebdo fora o alvo escolhido pelos irmãos Kouachi: Cherif, de 32 anos, e Saïd, de 34, ambos franceses de origem tunisina. Os jovens pertenciam a uma rede de recrutamento de jihadistas para a Síria e o Iraque, conhecida como “Buttes Chaumont”, que se refere a um parque de Paris. Os dois irmãos eram discípulos do emir Amir Farid Benyettou, suspeito de recrutar e enviar fiéis para o Iraque.

Cherif Kouachi, à esquerda, e Saïd Kouachi, à direita

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Dois anos antes, nos Estados Unidos, outro par de irmãos entrou na cronologia do terrorismo islâmico. Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, de 19 e 26 anos, assassinaram três pessoas e feriram 176 na maratona de Boston. Os dois irmãos aparentavam ser jovens com menor probabilidade de se radicalizarem, pois viviam nos Estados Unidos há vários anos e pareciam bem integrados. Dzhokhar Tsarnaev, que gritou uma frase em árabe antes de detonar os explosivos, era estudante na Universidade de Cambridge e Tamerlan Tsarnaev era engenheiro e ambicionava tornar-se praticante de boxe profissional.

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Dzhokhar Tsarnaev, à esquerda, e Tamerlan Tsarnaev, à direita

Em 2012, os irmãos Merah, franceses de origem argelina, aterrorizaram a cidade francesa de Toulouse. Mohamed, de 23 anos, matou sete pessoas ao longo de vários dias, até ser abatido pela polícia francesa. Um dia depois, as autoridades detiveram Abdelkader, o seu irmão mais velho, considerado cúmplice nos assassinatos.

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Abdelkader Merah, à esquerda, e Mohamed Merah, à direita

O fenómeno da multiplicação de pessoas da mesma família em organizações ligadas ao extremismo islâmico não difere muito de outras realidades sociais, em que membros de uma família ou grupo de amigos pertencem a um gangue, por exemplo. A proximidade do relacionamento familiar faz com que a probabilidade de as pessoas partilharem os mesmos valores, língua e modos de ver o mundo seja superior, analisa o The Guardian.

Num relatório elaborado após os ataques de Paris, Rik Coolsaet, professor de Relações Internacionais da Universidade de Ghent (Bélgica), especialista na radicalização de jovens belgas, escreveu que “os indivíduos não se radicalizam sozinhos, a radicalização acontece em pequenos grupos, na dinâmica com irmãos ou amigos.”

Normalmente, esse processo acontece entre jovens com ligações fortes entre si, mas não necessariamente profundamente ligados à religião islâmica. Muitos dos jovens que levaram a cabo atentados já haviam estado no passado ligados de alguma forma a comportamentos delinquentes. A transição para a radicalização, acontece muitas vezes na sequência de “uma mudança para uma outra forma de comportamento desviante”, que transforma “delinquentes sem futuro em mujahideen com uma causa, pelo menos na sua forma de ver”, diz Rik Coolsaet.

Marc Sageman, ex-agente da CIA, considera este fenómeno “natural”. “A identidade social é desenvolvida através das pessoas mais próximas, que são, acima de tudo, os irmãos e amigos de infância. É uma questão de proximidade. Por isso é que em grupos jihadistas há tantos irmãos, irmãs, amigos. Crescem todos juntos e criam para si uma identidade coletiva que defende um tipo de Islão agressivo, com atentados contra mulheres e crianças. Radicalizam-se e compreendem-se mutuamente”, explicou Marc Sageman à agência France Presse, citado pelo El Mundo.

Qualquer tipo de atividade ilegal ou clandestina beneficia de laços de fortes de confiança e de lealdade e, no caso dos irmãos, partilham também uma história comum. Segundo o estudo “O Estado islâmico no Ocidente”, do think tank New America, publicado pouco depois dos ataques de Paris, dois terços dos terroristas que operam no Ocidente têm um membro da família que já participou na jihad na Síria ou no Iraque, refere o jornal britânico.

Mas existem também razões operacionais: quanto mais pequenas são as células terroristas, mais flexível e simples é a organização necessária para levar a cabo os atentados — como mostram as histórias dos irmãos el-Bakraoui, Abdeslam e Kouachi.