Destacar obras portuguesas na exposição permanente do Museu Berardo “seria paroquial e teria pouco significado”, entende o diretor artístico, Pedro Lapa. Porém, destacar portugueses numa exposição temporária não só faz sentido como é a razão de ser de O Enigma – Arte Portuguesa na Coleção Berardo, a inaugurar esta quarta-feira, dia 23, às 19h00, e que se manterá até 25 de setembro.

“A nossa coleção tem uma dimensão internacionalista e a apresentação das obras e dos artistas está disseminada por todo o espaço”, contextualiza Pedro Lapa. “Mas também sentimos necessidade de trabalhar a coleção ciclicamente, por vezes concentrando a atenção nas obras de arte portuguesas que a constituem. É uma responsabilidade que o museu assume de bom grado.”

O Enigma… apresenta seis objetos de escultura, fotografia, instalação e vídeo, todas de grandes dimensões, sendo a mais antiga de 1972 e a mais recente de 2008. Os autores são Ana Vieira, Rui Chafes, a dupla João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder e João Tabarra.

Trata-se da primeira de duas exposições portuguesas que o Museu Berardo apresentará este ano. A segunda parte surge em setembro e por enquanto Pedro Lapa prefere guardar segredo sobre o título e o conteúdo.

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Pensar o trabalho artístico no contexto do mundo de hoje é um dos objetivos de O Enigma… O título remete para as teorias do filósofo alemão Theodor Adorno, segundo o qual, resume o diretor, “todo o objeto artístico é essencialmente um objeto que lida com a noção de enigma.”

“Num mundo com uma linguagem profundamente instrumentalizada, como o de hoje”, prossegue o mesmo responsável, “o trabalho artístico retira-se dessa relação direta com o mundo e convoca para si uma margem profunda de liberdade criativa, que não é uma liberdade absoluta, porque o artista está no mundo e isso condiciona-o”.

É essa incerteza, esse diálogo com o real e com a criatividade, que pode tornar as obras de arte enigmáticas. Veja-se o caso de Tornado, vídeo de João Tabarra incluído nesta mostra. Além do conceitos utilizados pelo autor, as imagens podem ser interpretadas à luz dos acontecimentos de cada momento.

O vídeo remete para a impossibilidade de um homem aceder a uma sala ventosa onde vários mapas andam pelos ares, como se fosse impedido de chegar ao seu destino – o que hoje será comparável à situação dos refugiados que tentam entrar na Europa. “Estas obras, de certo modo, interrogam os nossos problemas atuais”, sublinha Pedro Lapa.

O diretor do museu fez um percurso pela exposição com o Observador e partilhou a interpretação de cada um dos objetos.

Ana Vieira, "Ambiente" (1972)

Ana Vieira – Ambiente (1972)
Estrutura tubular, redes, cadeiras, plinto e reprodução de Vénus de Milo; 250 x 300 x 300 cm

“O termo instalação começa a instituir-se na segunda metade dos anos 70. Na época em que esta peça foi concebida designava-se ‘ambiente’. É uma possível imagem do passado da arte e uma reflexão sobre aquilo de que a arte se libertou. Ao centro, uma reprodução da Vénus de Milo, encerrada numa rede preta. Numa segunda zona, que é o lugar do público, temos 12 cadeiras, também encerradas atrás de uma rede branca. Não podemos entrar. A contemplação das obras, numa fase anterior da arte, era como um ritual e a obra aparecia como sucedâneo do ícone religioso. Contemplar arte era uma forma de vaga de culto laico. Daí a Vénus de Milo, exemplo característico da arte de museu do passado, o cânone da obra para contemplação. Quando isso é vedado, como nesta instalação, é porque passámos a um entendimento diferente da obra de arte. Ana Vieira, em 1972, estaria certamente preocupada com a posição demasiado fixa da obra e do espetador. Ela propõe que o espetador se torna participante e interaja com a obra.”

Rui Chafes_Menos Arte_2005 (1334x2000)Rui Chafes – Menos Arte (2005)
ferro pintado, 280 x 247 x 304 cm

“A estrutura revela-nos uma espécie de carapaça, que pode também ser uma vela. Ao centro, encontramos um lugar para alguém se sentar, o que dá a ideia de estarmos perante um dispositivo. Se a pessoa se sentar, fica com a cabeça imersa neste espaço de metal, um espaço dado a uma certa meditação, que remete para um estado de interioridade. É uma escultura sobre a relação do observador com o mundo. Ao mesmo tempo que dá a ver espaço, a peça estreita o campo de visão de quem por hipótese se sentasse ao centro. É uma sugestão, apenas, porque Rui Chafes não trabalha com elementos interativos literais. Muitas obras de arte abrem a visão do espetador, esta estreita e aprofunda a visão.”

Pedro Paiva e João Maria Gusmão_Horizonte de Acontecimentos, 2008_Foto de David RatoPedro Paiva e João Maria Gusmão – Horizonte de Acontecimentos (2008)
Instalação com elementos escultóricos, pedra, ferro, câmara obscura e projeção de filme de 16mm.

“É uma instalação que convoca conceitos de astrofísica. Estamos num espaço negro e obscuro no qual podemos ver tudo o que aqui está, ou seja, a obscuridade torna-se condição para a visibilidade. No grande dispositivo [o que vemos na imagem acima], temos o mecanismo da câmara obscura, ou seja, o mecanismo que mostra o funcionamento mecânico do próprio olho. Os artistas jogam com um grande paradoxo: podemos ver uma coisa e ver outra. Vemos o objeto e a produção do objeto na retina. Uma pedra invertida com uma corda, que aparece invertida através de uma projeção. Se interligarmos este dispositivo com outros elementos da mesma instalação, podemos concluir que a vida advém do nada e ao nada retorna. A visualidade advém da obscuridade. Aqui, tudo está dependente da noção de transitoriedade.”

PedroCabritaReis_Os Observadores Atlas Coelestis VI_1994_Foto de David Rato (1385x2000)Pedro Cabrita Reis – Os Observadores / Atlas Coelestis VI (1994)
técnica mista

“Como o próprio título indica, isto é um atlas do céu. Encontramos no chão placas espelhadas e opacas, voltadas para o céu. São elas que nos permitem ver o cosmos, o infinito. Todas as placas estão ligadas por tubos, como se fizessem parte de um sistema. Estes tubos podem transportar um líquido que vem das profundidades e que é extraído pelo engenho que vemos ao centro. São duas dimensões extremas: o absoluto do cosmos e a profundidade máxima. Ao mesmo tempo, o engenho central convoca o vento. O vento é casual, é um ausente nesta peça, e contraria qualquer sistema, gera um cruzamento, quebra o determinismo.”

JorgeMolder_ Série Nox, 1999_Foto de DavidRatoJorge Molder – Nox (1999)
36 fotografias, gelatina, sal de prata vintage e espelho; 102 x 102 cm cada foto

“É uma série que o Jorge Molder realizou para a sua representação na Bienal de Veneza. Nesta ocasião, não estão expostas todas as fotografias da série, faltam nove, mas conseguimos entender as ideias axiais da série. É um jogo de duplos, de desdobramentos. Convoca O Duplo, uma novela de Dostoievsky, e dá-nos a ver um jornal que não tem letras, a queda e a vertigem, o sonho e o acordar. Esta forma de produzir o outro é uma reflexão sobre si mesmo, um trabalho sobre o corpo como alteridade, um jogo de espelhos. Trata-se de um trabalho de autorretrato que ganha autonomias e constrói possibilidades ficcionais.”

JoãoTabarra_Tornado, 2007_ProjeçãoJoão Tabarra – Tornado (2007)
Vídeo HD, cor, em loop

“Temos uma situação mínima, extremamente tensa e aflitiva, com o artista a dar corpo a uma personagem que tenta entrar numa sala. É impossível. Há um vendaval, enunciado no próprio título da obra. Não é uma sala qualquer, é uma sala de mapas. Há momentos em que os vemos. De certo modo, é uma sala de lugares, de destinos, de possibilidades, uma concentração do mundo. Mas esse mundo está profundamente vedado a esta figura que mimetiza o cinema mudo. Ele está prestes a chegar ao mundo, mas o vento veda a entrada. É como se nos dissesse que a globalidade do mundo nos exclui, deixa-nos à soleira, perante a sua tempestuosidade impenetrável.”