A montra do número 63 da Rua do Almada, na Baixa do Porto, pede que se cometa o pecado da gula. Os grandes coelhos de chocolate, os ovos embrulhados como presentes e as amêndoas de diferentes tipos lembram quem ali passa que está a chegar a Páscoa, época que funciona como a melhor desculpa do ano, a seguir ao Natal, para devorar doces. Mas quem vê esta montra da Arcádia dificilmente imagina que tudo aquilo foi feito à mão nas traseiras desta pequena loja.

“Há uma curiosidade enorme em saber como se faz tudo isto”, conta Margarida Bastos. É ela quem administra, juntamente com o irmão, João Bastos, o negócio que o avô fundou, em 1933. Na semana da Páscoa, quem quiser pode assistir ao processo artesanal de confeção das amêndoas que todos querem comer. Basta ir à loja que as portas estarão abertas a olhares curiosos.

Mas decidimos ser ainda mais curiosos: entrámos nesta fábrica artesanal, normalmente fechada a visitantes, e contamos agora tudo o que vimos. E o que ouvimos. Como, por exemplo, que apesar de Margarida ser neta do fundador da Arcádia, não aproveitou para mergulhar em nenhuma panela de chocolate para satisfazer a gula infantil. “Como nasci um bocado aqui no meio disto, para mim não era nenhuma mais valia. Na altura a Arcádia também não era assim tão conhecida quanto é agora. Mas sim, chocolates sempre comi. E pastéis. E bolinhos”, diz a rir-se.

Bastos e a fábrica de chocolate

Nas traseiras e por cima da loja da Rua do Almada trabalham cerca de 30 pessoas, número que sobe em épocas de elevada procura, como é o caso da Páscoa, o segundo momento mais importante para o negócio, a seguir ao Natal: 35% da faturação anual faz-se nesta altura. Ao todo vão vender 40 toneladas de amêndoas e 20 toneladas de drageias de licor Bonjour.

A fábrica prolonga-se até à Rua Conde de Vizela e comporta o aumento de produção que foi necessário fazer para abastecer as novas lojas. O que não estica é a Rua do Almada, estreita e onde é impossível pararem carrinhas — muito menos camiões — a toda a hora para carregarem os bombons, drageias, amêndoas e chocolates que ali são feitos diariamente. Para solucionar esse problema foi criado um centro de distribuição em Grijó, onde também se faz o embalamento do que ali é preparado.

Para conhecer estas divisões escondidas é preciso ir para lá das portas fechadas de madeira que se veem ao fundo da loja. Ao entrar, damos com uma sala com caixas registadoras antigas e os armários onde eram guardados todos os produtos que depois eram ali embalados e vendidos no passado. Um dia, Margarida e João gostavam de fazer um museu com estes objetos e tantos outros que estão guardados em caixotes, para contar a história deste negócio familiar.

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Os ovos são mergulhados nas têmperas, ficam a ganhar uma camada espessa e depois o excesso é devolvido ao recipiente. © Sara Santos Silva / Observador

Mais à frente chega-se a uma divisão chamada “secção do chocolate”, música para os ouvidos de qualquer guloso. É ali que as funcionárias — todas mulheres — fazem os bombons, os ovos, as línguas-de-gato e os coelhos de chocolate. A única coisa automatizada são as têmperas que mexem e mantêm o chocolate à temperatura ideal. Cada coelho de Páscoa que está neste momento espalhado pelas 24 lojas do país foi feito à mão por uma destas funcionárias, que encheu o molde de chocolate, esperou uns minutos para que se formasse uma camada, deitou o excesso de volta na têmpera, arrefeceu-o para que ganhasse o brilho e a consistência certos e, no final, ainda o colocou durante cerca de 40 minutos a repousar no frigorífico. Há coelhos verdadeiros com menos acompanhamento.

Noutro tabuleiro repousam os bombons de vinho do Porto, ordenados como se estivessem já dentro da caixa, ao contrário das tarteletes com amêndoa ralada, amontoadas anarquicamente. Os bombons de vinho do Porto são um sucesso de vendas. O recheio foi criado por um enólogo, que escolheu Porto Cálem 10 anos. Também há bombons de uísque, com Balvenie, e de aguardente, feitos com Adega Velha, da Casa d’Avelleda. Cada escolha revela exigência e cuidado com a região onde a marca nasceu. Para celebrar os 250 anos da construção da Torre dos Clérigos, a Arcádia desenvolveu uns bombons de canela e gengibre cuja capa é a Torre a azul e branco, desenvolvida por alunos da Faculdade de Belas-Artes do Porto.

Se no andar de baixo só encontramos senhoras, no andar de cima junto aos três grandes tachos de cobre só estão homens. É necessária força de braços para mexer constantemente, durante 15 a 20 minutos, as amêndoas que ali se torram e caramelizam desde janeiro, para que esteja tudo pronto a tempo da Páscoa. A forma artesanal sempre ditou que os tachos fossem de cobre, embora “seja cada vez mais difícil arranjar quem saiba reparar isto”, desabafa Margarida Bastos.

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Na secção onde se torram e caramelizam as amêndoas só há homens. É um trabalho de força feito sob temperaturas elevadas. © Sara Santos Silva / Observador

É hora de regressar a uma ala inteiramente feminina: a das delicadas e coloridas drageias Bonjour. Ao ver ali como cada drageia é feita, parece humanamente impossível atingir as 20 toneladas vendidas anualmente. “Já estamos a começar a preparar a Páscoa do próximo ano“, explica Margarida. O processo é moroso. Primeiro, o amido de milho fica a repousar num tabuleiro da estufa da fábrica. Depois, é preciso rechear com licor — que, ao contrário do que muita gente pensa, não tem álcool, apenas açúcar com aroma — e corar. O que se passa a seguir é arte. Numa sala que parece um atelier de trabalhos manuais artísticos, algumas mulheres decoram uma a uma cada drageia através de um cartucho de papel, para fazer delas bebés, pombas, morangos, cenouras e muito mais. É o “bordar” da amêndoa, diz a administradora.

A técnica trouxe-a Manuel Pereira Bastos de Paris, assim como a um amendoeiro português que ensinasse na fábrica esta arte, que outros também já fizeram no país no passado. “De momento somos os únicos a fazer isto em Portugal. E lá fora também nunca encontrei. O bordar da amêndoa é de tal forma trabalhoso que…” Não compensa financeiramente, admite.

Ana Paula fica nervosa com os olhares curiosos, mas orgulha-se de em 20 minutos conseguir terminar de pintar um tabuleiro inteiro. É experiente, embora menos que as colegas no que toca a longevidade. Ludovina, que está a embrulhar os ovos de Páscoa um a um e a colocar-lhes o laço final, faz parte da família Arcádia há 46 anos. Começou ali aos 13, mal acabou a escola. Há tanto tempo que ainda participou nos serviços de catering que a empresa fez até ao 25 de abril de 1974, época pós-revolucionária em que os grandes banquetes diminuíram no país e a administração decidiu acabar com o serviço. “Conheço muito bem o Palácio da Bolsa por causa disso”, diz. “E eu a Câmara do Porto”, completa Amélia, que ali trabalha há 48 anos. A Arcádia não é apenas familiar na administração e é por isso que não se veem funcionários jovens na fábrica: todos estão ali há vários anos.

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Para fazer as drageias em forma de bebé, Ana Paula começa por pintar a cara. Depois é preciso deixar secar para prosseguir um trabalho que é moroso e que, por isso, é difícil ser lucrativo, admite a administradora. © Sara Santos Silva / Observador

Uma marca com 83 anos

A Arcádia nasceu na Praça da Liberdade a 21 de dezembro de 1933, pela mão de Manuel Pereira Bastos. No Livro de Ouro do Comércio e Indústria do Porto, escrito por Carlos Bastos em 1943, ficamos a saber que a cidade tinha “uma das mais modernas pastelarias, digna de qualquer capital europeia“, onde “se reúne a melhor frequência do norte do país e as famílias mais distintas do Porto“.

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A Arcádia tinha a “melhor frequência do norte do país e as famílias mais distintas do Porto”, conta-se no “Livro de Ouro do Comércio e Indústria do Porto”, de 1943. © Arcádia

Oitenta e três anos depois, muita coisa mudou. O estabelecimento-mãe, na Praça da Liberdade, encerrou na viragem do milénio “porque nessa altura houve uma desertificação da Baixa do Porto, as pessoas começaram a deslocar-se para os centros comerciais”, recorda Margarida Bastos. Os clientes começaram a escassear e a concorrência a aumentar. Deixou de ser rentável manter os dois pasteleiros, os ajudantes e toda a estrutura montada na Rua do Almada só para abastecer aquela confeitaria histórica.

Foi mais ou menos nessa altura que Margarida e João Bastos deixaram as suas profissões para pegar no negócio da família. E fizeram-no prosperar mais do que nunca. “O meu pai faleceu em 2001 e, com ele ainda vivo, nós começámos a pensar em expandir.” O primeiro passo foi criar a loja que ainda hoje se mantém no número 63, em cujo espaço chegou a funcionar a confeitaria Arca Doce, no anos 1940, mas que por não ser rentável a família encerrou, mantendo só a da Praça da Liberdade. Ainda hoje na arcada se pode ler “Arca Doce” quando se entra. “Como tínhamos aqui parte da decoração, os candeeiros, os azulejos nas paredes, os móveis dos anos 40 de quando encerrámos o outro estabelecimento, resolvemos recuperar este pequeno espaço e experimentar vender chocolates e amêndoas.”

“Entretanto, pensámos um bocadinho e resolvemos ir atrás dos clientes.” E se eles estavam todos nos centros comerciais, a Arcádia resolveu experimentar abrir, em 2002, um quiosque sazonal no Norteshopping para ver como saíam os chocolates e as amêndoas. Saíram tão bem que, por um lado, a empresa ganhou estímulo para expandir. Por outro lado, provou que as muitas notícias que se publicaram no início do século XXI sobre o fim da Arcádia eram manifestamente exageradas. “Mostrámos que estávamos vivos e de boa saúde“, diz Margarida, orgulhosa.

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Margarida Bastos gere atualmente um negócio maior do que alguma vez o avô, Manuel Pereira Bastos, sonhou conquistar. © Sara Santos Silva / Observador

Abriram no mesmo ano uma loja no mesmo centro comercial, que ainda hoje se mantém. Logo a seguir, instalaram-se no Dolce Vita Porto. Seguiu-se a Casa do Chocolate na Avenida da Boavista, um espaço amplo de salão de chá. E tantas outras aberturas que, hoje, a Arcádia conta com 27 lojas espalhadas pelo Porto, Lisboa, Cascais, Estoril, Aveiro, Coimbra, Viseu, Braga e Guimarães. Margarida adianta que está a estudar mais localizações.

A maioria dos clientes são portugueses. “O turismo ainda não conseguimos agarrar muito bem“, confessa Margarida Bastos. No Chiado, por exemplo, ponto por onde passa qualquer turista que se encontre a visitar Lisboa, a loja não está a vender aquilo que se poderia supor. “Sabe que o chocolate vai um bocadinho em contraciclo com o volume de turistas, que vêm sobretudo no verão e não vão andar com uma caixa de chocolate atrás porque derrete”, lembra Margarida. Ainda que haja chocolates criados a pensar no turista, como os bombons de vinho do Porto.

Exportar em larga escala não está por agora nos planos. Os administradores chegaram a participar em algumas feiras no passado e quem provava “gostava imenso”. Mas quando diziam que o negócio era de Portugal, e não de um país mais conhecido pelos chocolates como a Bélgica ou a Suíça, o entusiasmo do potencial cliente esmorecia. Por outro lado, com a exportação é mais difícil controlar as condições de conservação do produto, uma preocupação que já se verifica dentro de fronteiras e que faz com que Margarida Bastos esteja constantemente a dizer que não aos muitos pedidos de revenda. “Temos muito cuidado com a preservação da marca porque, se alguma coisa corre mal, é o nome da Arcádia que fica em cheque”. Por isso é difícil encontrar estes produtos fora da rede de lojas Arcádia, a não ser em épocas festivas nos hipermercados (e são poucos os produtos que lá chegam). Se for para se estabelecer no estrangeiro, a Arcádia prefere abrir uma loja própria, hipótese que está por explorar mais a sério, adianta Margarida.

Clientes fiéis e muita tradição

Antes, quando a loja da Rua do Almada era a única Arcádia do país, os produtos saíam diretamente dos tabuleiros para a montra. Agora, é preciso levar tudo para o centro de operações em Grijó e, uma vez embalados, ovos, bombons e amêndoas regressam à loja mãe. Comprar ali é uma tradição e os clientes que ali entram parecem manter-se fiéis há muitos anos. “É frequente senhores de idade dizerem que conquistaram a mulher com uma caixa dos nossos bombons“, conta Margarida. “Há muita gente da província que vem aqui fazer as compras de Natal e de Páscoa.” Até há clientes da Boavista que, mesmo com uma loja à porta, preferem ir ali.

Para esta Páscoa, as novidades são amêndoas dos três maiores clubes de futebol portugueses, Benfica, Porto e Sporting, a 5€ cada. Outra das novidades é a possibilidade de comprar todos estes produtos na loja online, algo que até há bem pouco tempo era impossível. Bom, quase todos, porque as amêndoas dos clubes de futebol ficam de fora. Na loja do Porto, não há muito quem entre para ver inovações. Isso é em Lisboa, onde os clientes arriscam mais, perguntam o que há de novo para experimentar. No número 63, impera a tradição.

E no futuro, manter-se-á a tradição de manter o negócio na família? Margarida Bastos não tem filhos mas o irmão, João, tem três. Se serão eles a quarta geração de proprietários ainda é cedo para dizer. Mas sorri quando reconhece incerteza do futuro. “Um está a estudar e os outros têm as suas carreiras, mas nunca se sabe. Eu também era farmacêutica”, recorda. O irmão também trabalhava na Sonae. Na viragem do milénio, os dois assumiram as rédeas. Margarida diz não ter saudades da área da farmácia. Prefere estar rodeada destes ‘medicamentos’ doces que não curam doenças, é certo, mas fazem muita gente feliz.