Um aviso, para evitar surpresas: se o novo disco de Tiago Sousa for motivo de inquietação, se gerar aquela pequena-grande sensação de angústia, que diz que algo está mal sem nunca se perceber muito bem o quê, então é porque está a tudo bem. “Um Piano nas Barricadas” é música de luta, é um enorme protesto, elegante mas contundente. E quando dizemos “protesto” não estamos a limitar o conceito ao seu sentido mais óbvio. Outra vez o título, que explica muito e explica-o bem: “Um Piano nas Barricadas”. Está à procura da mudança, social e política, claro que sim, mas também é uma obra de transformação pessoal. Tiago Sousa, o artista que o fez, é um homem utópico, e é-o em grande, a querer o inatingível para ele e para todos. Ambição danada, a dele. Sorte danada, a nossa.

Tiago Sousa fugiu de quase tudo para compor a música para este seu piano barricado. Não é uma fórmula nova, nem sequer para o próprio compositor, mas o resultado é sempre diferente e aí é que está o encanto deste processo. “Foi importante rodear-me da minha intimidade e tirar ideias a partir desse processo”, diz-nos em entrevista. “Porque nos outros campos estava tudo demasiado emotivo e complexo. Tentei entender-me melhor a mim próprio.” Ou seja, fez aquilo que todos queremos fazer e que quase nenhum de nós consegue ou tem coragem para concretizar. Valente Tiago, que nos discos anteriores (“Insónia”, “Walden Pond’s Monk” ou “Samsara”) já lutava consigo mesmo e sempre ganhou as batalhas — ou seja, resolveu uns problemas e criou outros, tudo o que é preciso para manter o fluxo criativo bem desperto. “Há sempre questões que debato comigo mesmo. Dar-lhes um ponto final ou uma visibilidade, fazer com que essas ideias perdurem no tempo, esse exercício leva-me à necessidade de registar os discos.”

[veja Tiago Sousa a interpretar “Pêndulo”, do novo disco]

Mas ao fugir não se esconde do que acontece, da atualidade, das notícias, dos problemas, da política, das transformações sociais, das necessidades e das suas imposições. Tiago Sousa intervém, acredita no associativismo. No seu Barreiro — que alimenta de iniciativa, terra à qual se entrega — em Lisboa e no país. Está atento, vive as tragédias de gente que perde tudo na vida, emociona-se quando na televisão parece haver terrorismo em direto. E a música que escreve e grava não consegue escapar a esse desencanto. Apesar de tudo, acredita na mudança. Nas palavras do próprio: “As músicas atravessam um período da minha vida em que a sociedade voltou a ganhar preponderância. Começou a ocupar muito espaço nas minhas ideias e isso levou-me a envolver-me num meio social ativista.” Levar a sua obra aos outros é comunicar, criar comunidade, acreditar na força das ideias. Afinal, foi ele que fez “Coro das Vontades”, música que o Teatro Maria Matos encomendou em 2012 e que o compositor escreveu a partir dos anseios escritos por gente que, em tempos de indefinição económica e social, só queria a mudança.

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Como é que se constrói música assim? Que linguagem é a de Tiago Sousa? Perguntamos ao próprio e ele diz-nos “não sei bem como catalogar o que faço”. Na verdade nunca soube, porque é que isso haveria de mudar agora? Ainda assim, apesar desta indefinição, o artista dá-nos umas quantas dicas: “A minha música é instrumental, mas não se liga aos cânones da música erudita. Também não é jazz, nem é música contemporânea.” Acrescentamos nós que tem um pouco de tudo isso, mas com uma enorme falta de respeito sobre regras, limites, fronteiras e conceitos. “É um corpo estranho”, diz-nos Tiago. Boa, ainda bem que assim é porque é isso que encanta. A música de Tiago Sousa é esforçada, exigente e cuidada ao detalhe. Mas parece sempre acabada de nascer, cheia de técnica e matemática, mas, ao mesmo tempo, subtil. É um dilema constante e é disso mesmo que se alimenta a cada compasso.

piano nas barricadas

A capa do novo disco de Tiago Sousa, “Um Piano nas Barricadas”

Neste jogo sem fim, “Um Piano nas Barricadas” é ambicioso. Mistura todos estes improvisos com mais instrumentos e mais ideias. Porque Tiago Sousa não está sozinho. Este piano vai à luta em companhia. Há sopros e percussões (com Ricardo Ribeiro e Baltazar Molina, os mesmos que também vão estar no palco da ZDB, esta quinta-feira), há guitarras com Tó Trips e harpa com Rebecca Roth ( concerto estará Angélica Salvi). E há um Tiago Sousa no meio disto. Dizemos-lhe a verdade: sempre o tivemos como solitário. Ele dá-nos o troco certo: “também eu”. Então, se assim, é, o que vem a ser isto de ter gente no estúdio e gente em palco? Faz tudo parte de um plano maior. Tiago explica: “Os processos coletivos são complexos, estão relacionados com muitas pessoas e as respetivas ideias e vontades. Foi precisamente nesse choque que o meu trabalho se foi desenvolvendo.” Gerar um caos controlado para depois conseguir retirar trabalho e criatividade. Um golpe de génio, foi o que foi.

Tudo para criar uma música que — como dizíamos — nasce da angústia mas deixa passar toda a luz que encontra pelo caminho. “Um Piano nas Barricadas” é mais um fruto do único espaço onde Tiago Sousa consegue trabalhar o seu “idealismo utópico”: “A criação musical é um corpo imaterial que está ligado às ideias. É, em si mesmo, um exercício utópico porque vai ser sempre efémero, porque nunca vai ser palpável. É a relação perfeita e importa sempre explorá-la.” E para este Tiago é natural que tudo aconteça assim.

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Foto: Vera Marmelo

No caminho para a preparação deste concerto que apresenta o novo disco, Tiago Sousa passou pelo Facebook para deixar uma foto: ele próprio ao piano, uma mão nas teclas, outra na pauta e uma legenda que dizia “muito trabalho”: “Quando lançamos um disco normalmente isso quer dizer que nos metemos num grande sarilho. E é passando de sarilho em sarilho, de erro em erro, que avançamos.” Há mais de dez anos que o músico está nesta viagem de perceber para onde vai com a sua criação musical. E se pode parecer muito tempo, a verdade é que não é assim tanto para quem tem dilemas constantes, sobretudo na origem: o piano. “Estou numa fase de transição entre o que fazia na execução, no lado mais técnico da interpretação”, conta-nos. “Tinha muita incompreensão em relação ao piano e isso agora está a dissipar-se.” Porque Tiago estuda, investiga, duvida, questiona-se e resolve. Apenas para voltar ao início do processo e passar por tudo outra vez. Quando estiver no palco da ZDB vai mostrar-nos esse caminho ao vivo e sem rede. Em podendo é presenciá-lo. E depois agradecer.

Tiago Sousa apresenta “Um Piano nas Barricadas” esta quinta-feira, dia 24, na Galeria Zé dos Bois, às 22h. Bilhetes a 8 euros.