Não é costume entabular um artigo deste género com um relato na primeira pessoa. Mas a ocasião — e a falta de alternativas melhores, para ser honesto — impõe-no. Sempre que se fala em abstinência carnívora por causa da Sexta-Feira Santa recordo um episódio ocorrido entre amigos, há uns dez anos, mais ano menos ano, precisamente nesta época.

Passou-se num restaurante simples, de cariz familiar, cujo nome me escapa e a localização precisa também. Sei que ficava (ou fica, espero) algures no Alentejo litoral, talvez em Sines, quiçá em Porto Covo. Não é importante. A caminho de gozar uns dias de férias mais a sul, na Costa Vicentina, interrompeu-se a viagem para almoçar no dito estabelecimento. Sentámo-nos numa mesa corrida na esplanada, pedimos cervejas e encetámos uns pães até surgir a pergunta da praxe:

O que vai ser então, os meninos já sabem?”

Sabíamos, pois. Entrecosto, entremeada, secretos, resumindo: um autêntico banquete de carne de porco, não obstante a data ou a montra bem recheada de peixe fresco, graças à proximidade marítima. O pedido foi aceite e registado por quem de direito, sem discussão.

Quando a comida chegou à mesa, veio pelas mãos calejadas de um senhor com uma idade e bigode respeitável, que ainda não tínhamos visto até aí. Trouxe duas travessas, primeiro, depois mais duas. Finda a terceira viagem desde a cozinha, e perante a dificuldade em arranjar espaço na mesa para pousar o resto dos grelhados, decide desabafar, com um esgar que ainda hoje não percebo se era galhofeiro, irónico ou reprovador:

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— Tanta carne na mesa, canalhada! Não sabem que dia é hoje? Ai que vai tudo para o inferno. Eh Eh!”

Um dos meus amigos, chamemos-lhe Zé, que tem tão pouca memória para datas que só se apercebe que muda o ano por causa do fogo de artifício — é possível que haja algum exagero nesta consideração –, pergunta de chofre:

Como assim, que dia é hoje? Por que razão havemos de ir para o inferno?”

A mesa responde-lhe quase em uníssono:

Hoje é Sexta-Feira Santa, pá.”

O Zé ficou em silêncio, visivelmente desconfortável. Servi-me de entremeadas e disse ao senhor que nos veríamos, então, no inferno, o que até era bom, porque lá seria fácil voltarmos a comer carne na brasa todos juntos. Inferno, brasa, só faltou um rimshot ou, melhor ainda, o Fernando Mendes a dizer espectáááculo. A mesa riu-se, o senhor nem por isso, e o Zé continuou em silêncio, agarrado a uma ementa que tinha ficado perdida. Até que diz.

Desculpe, traga-me lá uma dose de chocos grelhados, então. É que estamos todos aqui a brincar mas isto nunca se sabe. Com tinta, se faz favor.”

Consta que os chocos — com tinta, se faz favor — estavam muito melhores que as entremeadas, demasiado queimadas pela grelha. Deus não perdoa, pensarão os crentes. O que interessa reter é que a partir desse dia “estamos todos aqui a brincar mas isto nunca se sabe” tornou-se uma expressão recorrente entre o grupo de amigos em questão. E um lema de vida para alguns.

Assim, e porque estamos todos aqui a brincar mas isto nunca se sabe, na fotogaleria, em cima, estão uma uma série de sugestões — bitoques, croquetes, pregos e companhia limitada — que normalmente são de carne mas que, afinal, também podem ser de outra coisa qualquer. Para que todos os que queiram respeitar a abstinência e a santidade da sexta-feira o possam fazer de forma mais criativa que o habitual. E para o Zé, no caso improvável de ele se lembrar da data.