Esta será uma crónica diferente do habitual. Uma crónica numerada ao minuto. Já vai perceber a razão.

Ora diga lá à primeira: Vladislav Boykov Stoyanov. Não, não é tarefa fácil pronunciar-lhe o nome. Stoyanov é guarda-redes do Ludogorets Razgrad. Um guarda-redes daqueles matulões — e com barriguinha. Nunca ouviu falar dele? Nem nós. Nem Cristiano Ronaldo. Nani tão pouco. Ninguém. Mas tão cedo o nome de Stoyanov não nos sairá da memória. É que o guarda-redes búlgaro defendeu tudo o que havia para defender na noite de Leiria, ora por demérito dos nossos avançados, ora por mérito dele.

1′

E começou cedo a mostrar-se, Stoyanov. Cristiano Ronaldo vinha prontinho do balneário para molhar a sopa. Vieirinha cruzou desde a direita para o primeiro poste, o central Milanov cortou atabalhoadamente para trás, o lateral Strahil Popov não fez melhor e também errou no corte ao segundo poste, e a bola foi ter com Ronaldo. Parou-a no pé direito, mirou a baliza, fintou Popov e rematou de seguida. Stoyanov defendeu.

3′

E continuou Portugal a insistir. E Stoyanov a resistir. Lá de trás, Pepe lançou a bola o ataque, longa, um passe que encontrou Nani nas costas dos centrais búlgaros. Hoje ponta-de-lança — ou quase; ora era ele, ora era Ronaldo, baralhando as marcações aos búlgaros –, Nani recebeu a bola com a canhota e rematou-a, sem que esta tocasse sequer na relva, de pé direito. Stoyanov defendeu por reflexo, uma defesa prática mas vistosa, com o guarda-redes da Bulgária todo no ar. Que defesa!

6′

A Bulgária estava nas cordas. Literalmente. Se recuasse mais, via o jogo do topo norte do estádio Dr. Magalhães Pessoa. Ronaldo desmarcou-se na esquerda, avançou veloz para a área, deixou os rins do lateral Strahil Popov feitos num oito com um par de fintas como só ele sabe, e rematou. O guarda-redes Vladislav Stoyanov estava bem posicionado, ao centro da baliza, e encaixou a bola junto à relva, a custo.

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A Bulgária só rematou por duas vezes na direção da baliza de Anthony Lopes. E fê-lo de seguida, tudo na primeira parte. Aos 18′, o livre era frontal, ligeiramente descaído para a direita. Quem lá se chegou para o marcar foi Ivelin Popov — não confundir com o outro Popov da Bulgária, o Strahil, que é lateral direito e teve uma noite desassossegada com Ronaldo e Nani pela frente. E rematou em força, Popov, na direção do poste contrário. Esticou-se Anthony Lopes, voou — em Lyon apelidam-no “le chat” (o gato) –, e defendeu para longe.

Primeiro a ameaça, depois a consumação. Nem um minuto mais tarde, Marcelinho (um brasileiro de Manacapuru que hoje se estreou pela Bulgária) desmarcou-se na esquerda do ataque, mas tinha Vierinha e Pepe à sua frente. Avançou para cima deles, meio atabalhoadamente, e atabalhoadamente passou entre eles. Rematou em desequilíbrio, mas até aí teve sorte de estreante: conseguiu surpreender Anthony Lopes e desviar a bola do guarda-redes do Sporting.

Com Fernando Santos como selecionador, Portugal já conseguiu vencer numa reviravolta: foi em junho de 2015, na Arménia (3-2), mas o guarda-redes arménio não era Vladislav Stoyanov.

27′

Não são muitos os guarda-redes que podem dizer que defenderam um dos “tomahawk” de Ronaldo. Mais a mais quando estes vão puxadinhos ao ângulo. Mas Stoyanov defendeu mesmo, depois de um livre de Ronaldo, à entrada da área e ligeiramente descaído para a direita. Como Ronaldo gosta, portanto. E Stoyanov também.

36′

I-na-cre-di-tá-vel! Nani consegue, mesmo sem Stoyanov na baliza, errar por duas vezes (seguidas!) o desvio para golo. João Mário bateu um canto à direita, encontrou Pepe no primeiro poste e o luso-brasileiro desviou para o segundo. Quem lá estava era Nani, fez-se à bola, mas ao invés de a encaminhar para baliza (Stoyanov ficou a apanhar papeis), “devolveu-a” ao primeiro poste. Rafa estava lá e voltou a insistir, num remate cruzado. Mas estava visto que Nani não queria nada com o golo. E desviou, Nani, o remate de Rafa… por cima da barra. Stoyanov continuava de volta da “papelada” e a baliza sem rei nem roque. Até quando não defendia, tinha sorte, o búlgaro.

Acabava a primeira parte. A segunda seria mais do mesmo. E entenda-se o “mesmo” como “Stoyanov a defender tudo”.

52′

Nani não estava só, mas despachou Strahil Popov em três tempos, acelerou pela esquerda fora e cruzou para o segundo poste, onde Ronaldo se preparava para desviar para o empate. Não desviou porque Stoyanov desviou primeiro que ele, a punhos.

53′

O Tomahawk de Ronaldo – Parte II. Até tem título de blockbuster, mas se o fosse, seria de terror. Para Portugal, entenda-se. O remate saiu a meia altura do pé direito de Cristiano Ronaldo, com o chamado efeito de “banana” (todo enviusado) e a bater mesmo à frente do guarda-redes. Ou seja, difícil. Stoyanov fez o que tinha feito até aqui, defendendo a custo, mas defendendo. A bola acabou por ressaltar para Bruno Alves, que rematou muito por cima na recarga. Que noite, a do guarda-redes búlgaro!

59′

Ora adivinhe lá o que aconteceu? Sim, Vladislav Stoyanov defendeu mais um remate de Portugal. Rafa, veloz como só ele, fintou o central Aleksandar Aleksandrov à entrada da área, fugiu para a esquerda e rematou forte e rasteiro. Stoyanov aninhou a bola junto ao peito. Esta quase que se escapava, Ronaldo estava prontinho a desviar, mas nesta noite de Leiria nada escaparia ao guarda-redes búlgaro.

66′

Pepe cruzou de trivela desde a esquerda, Nikolay Bodurov desviou com a mão. Penálti! Ronaldo ajeitou, a precisos 11 metros da baliza. E Ronaldo não é de falhar penáltis pela seleção. Falhou dois, contra a Dinamarca em 2006 e a Turquia em 2012. Hoje falhou mais um. Escolheu o lado direito, o guarda-redes da Bulgária Stoyanov, e defendeu o remate do capitão português… com o corpo tombado na relva e só com a luva esquerda no ar. Na recarga, Ronaldo desviou para fora — tinha Zhivko Milanov a mordiscar-lhe os calcanhares.

70′

E defende, defende, defende… Quando for velhinho, lá na Bulgária, Stoyanov pode mostrar o DVD desta noite aos netinhos stoyanoves. Só assim eles vão acreditar que o avô não endoideceu. Quaresma, que entrou entretando de cabelo descolorado, desmarcou Ronaldo nas costas dos centrais búlgaros. Golo? Não. O remate de Ronaldo é feito nas barbas de Vladislav Stoyanov — mas só o foi porque o búlgaro foi velocíssimo a sair dos postes. E Stoyanov levou a melhor. Novamente.

81′

Quando não defedia Stoyanov, falhava alguém de Portugal. Quase sempre Nani — na primeira parte foram dois falhanços de rajada. Eliseu cruzou desde a esquerda, encontrou a bota direita de Nani ao primeiro poste, o golo era mais do que cantado, mas Nani não quis as gargantas em Leira se alegrassem. A bola saiu por cima da barra. Muito por cima. É o que dá não ter um ponta-de-lança fixo (a escolha também é confrangedora no banco: somente Éder, que em 15 jogos no Swansea nunca acertou com a baliza; no Lille, onde é suplente, marcou dois em seis jogos) e pôr Nani na área, como avançado-centro móvel.

85′

Stoyanov. É sinónimo (pelo menos em Leiria, esta noite) de defesa. Quaresma bateu um canto à esquerda, encontrou Ronaldo sozinho no segundo poste, Ronaldo saltou, cabeceou com força e o guarda-redes búlgaro, uma vez mais, desegonçado mas prático, defendeu para canto. Ronaldo sorriu. Um sorriso amarelo, claro.

O jogo acabaria pouco depois. E é caso para dizer: se o guarda-redes da Islândia (um tal de Hannes Halldórsson) for como Vladislav Stoyanov, Portugal vai ter uma terça-feira, 14 de junho, para esquecer em Saint-Étienne. É que Fernando Santos confidenciou na conferência de imprensa de antevisão do jogo desta noite que escolheu a Búlgaria por adversário por esta seleção de leste ter um futebol em tudo semelhante ao dos nórdicos. Ofensivamente, são uma nulidade. Na defesa, é tudo um trouxe-mouxe. Mas a baliza está entaipada. Portugal fez 40 ataques no jogo. Oportunidades de golo ultrapassaram a dezena. O resto é história. Que é como quem diz, Stoyanov.