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Quase 800 euros distribuídos numa rua de Évora. “É hoje que me dizem o que está a acontecer?”

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De quinta a sábado, os moradores da rua do Ouro, em Évora, receberam 20 euros por dia, na caixa de correio. Só no último dia ficaram a saber porquê: tratava-se de uma campanha de marketing.

António Raminhos participou na campanha promocional da Quoty, que distribuiu quase 800 euros por cerca de 15 moradores da rua do Ouro, em Évora

Imagem cedida pelo Quoty

“É hoje que me dizem o que está a acontecer? Quanto é que me puseram na caixa do correio hoje?” José Perfeito, de 69 anos, é um dos moradores da rua do Ouro, de Évora. Desde quinta-feira que assistia a um cenário invulgar: pessoas vindas de Lisboa a invadirem a sua rua, depositando todos os dias uma nota de 20 euros nas caixas de correio dos moradores. Mais invulgar ainda: ninguém lhe explicava a razão. Diziam-lhe apenas — a ele e aos seus vizinhos — para continuar a ver a caixa do correio, todos os dias, enquanto filmavam as reações dos moradores, na sua maioria desconfiados de que as ofertam “deviam trazer água no bico”.

O mistério foi desvendado este sábado, quando os lisboetas que agitaram a cidade nos dois dias anteriores regressaram a Évora, desta feita acompanhados pelo humorista António Raminhos. Foi a este que coube a tarefa de depositar os últimos 20 euros nas caixas de correio dos moradores da rua do Ouro. E foi também ele o responsável por finalmente os esclarecer porque estavam os habitantes a receber dinheiro todos os dias.

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A (invulgar) campanha publicitária destinava-se a promover uma aplicação: o Quoty, uma app que permite aos utilizadores fazerem listas de compras digitais, verem todos os folhetos promocionais de lojas ou supermercados do seu interesse, que se encontram agregados digitalmente na aplicação, e localizarem as lojas mais próximas de si, entre as que vendem produtos que os utilizadores procurem.

A aplicação inspira-se numa outra aplicação de origem belga, a myShopi, e foi lançada em Portugal a 5 de novembro de 2015. Contudo, só a partir de janeiro deste ano é que a equipa que trabalha a implementação do Quoty no mercado português começou “a desenvolver a app e a comunicar a app ao mercado”, tendo em vista o “aumento do número de utilizadores” nacionais, contou ao Observador o diretor do Quoty em Portugal, Filipe Nery.

Neste momento, a aplicação, que está presente em nove países (para além de Portugal, existe também em Espanha, Itália, Roménia, França, Bélgica, Alemanha, Holanda e Reino Unido) e que soma cerca de cinco milhões de utilizadores por toda a Europa, conta com mais de 20 mil utilizadores portugueses. Mas o objetivo da Quoty é “fazer crescer a base de dados e chegar aos 100 mil utilizadores” portugueses até ao final de 2016. Só a partir desse número, explica Filipe Nery, é que os responsáveis da Mediapost, empresa que, em 2010, adquiriu licença para implementar o Quoty no mercado nacional, definirão com exatidão o modelo de negócio do Quoty e os seus objetivos de faturação.

Dinheiro grátis? Mas se “ninguém dá nada a ninguém”

Foi esse objetivo, o de aumentar o número de utilizadores do Quoty no país, que levou Filipe Nery a querer promover a aplicação através de uma estratégia pouco habitual: a de dar dinheiro às pessoas sem razão aparente. Surgiu a Free Money [em português, “Dinheiro grátis”], a ação promocional que tentou mostrar aos moradores de uma rua em Évora que, “utilizando a app, podem poupar dinheiro todos os dias”.

Os dois dias anteriores, quinta e sexta-feira, foram mais tumultuosos do que parecem. A equipa que realizou a campanha tanto encontrou reações positivas como adversas, por parte dos moradores da rua do Ouro, escolhida para a campanha devido ao seu nome (ligado à ideia de dinheiro e de poupança) e devido ao facto de se situar numa zona “mais rural”, ao invés de uma zona “mais urbana”, onde “seria mais difícil pôr a nossa ação em prática”, diz Filipe Nery.

Quase todos os moradores ficaram desconfiados. Paula Silva, por exemplo, foi guardando as notas que recebeu, até saber porque é que lhas estavam a dar. “No primeiro dia achei muito estranho, ninguém dá nada a ninguém. Falámos com os vizinhos para perceber o que seria”, contou este sábado ao Observador, que acompanhou a campanha no seu último dia.

As teorias foram muitas. Um dos moradores, João Fernandes, previu que a ação integrava num estudo sociológico, para perceber as reações das pessoas a ofertas como estas. Um dos seus vizinhos sugeriu que a ação deveria ser para os “Apanhados”. Houve quem dissesse que as notas “deviam ser falsas” e quem se recusasse a ficar com o dinheiro. E um dos vizinhos de Lúcia Fernandes, por exemplo, desconfiou tanto das ofertas que “falou em máfia e chamou a polícia”, conta Lúcia. As autoridades estavam ao corrente da campanha e respeitaram o segredo. Mas acorreram mesmo ao local nos primeiros dois dias, como relata José Perfeito.

Já não há almoços de borla, já ninguém dá nada a ninguém. Pensei: isto deve trazer água no bico. A Rua do Ouro é um bairro pacato. No primeiro dia, tinha ido às compras e fui abordado por um vizinho, que me perguntou se já me tinha saído a sorte grande. (…) Veio a polícia. No segundo dia, vi um aparato. [Primeiro] um carro da polícia, depois uma carrinha com quatro ou cinco polícias”, relata.

Ao terceiro dia, as explicações chegaram e a ação de campanha foi concluída. “No fundo o objetivo foi mostrar ao utilizador que pode poupar uma soma de dinheiro considerável [com o Quoty], dependendo das suas compras, ao utilizar a app”, ex Filipe Nery, que promete ainda mais campanhas de promoção por parte do Quoty, de caráter igualmente surpreendente, para o futuro.

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Editado por João Cândido da Silva
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