“É hoje que me dizem o que está a acontecer? Quanto é que me puseram na caixa do correio hoje?” José Perfeito, de 69 anos, é um dos moradores da rua do Ouro, de Évora. Desde quinta-feira que assistia a um cenário invulgar: pessoas vindas de Lisboa a invadirem a sua rua, depositando todos os dias uma nota de 20 euros nas caixas de correio dos moradores. Mais invulgar ainda: ninguém lhe explicava a razão. Diziam-lhe apenas — a ele e aos seus vizinhos — para continuar a ver a caixa do correio, todos os dias, enquanto filmavam as reações dos moradores, na sua maioria desconfiados de que as ofertam “deviam trazer água no bico”.

O mistério foi desvendado este sábado, quando os lisboetas que agitaram a cidade nos dois dias anteriores regressaram a Évora, desta feita acompanhados pelo humorista António Raminhos. Foi a este que coube a tarefa de depositar os últimos 20 euros nas caixas de correio dos moradores da rua do Ouro. E foi também ele o responsável por finalmente os esclarecer porque estavam os habitantes a receber dinheiro todos os dias.

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A (invulgar) campanha publicitária destinava-se a promover uma aplicação: o Quoty, uma app que permite aos utilizadores fazerem listas de compras digitais, verem todos os folhetos promocionais de lojas ou supermercados do seu interesse, que se encontram agregados digitalmente na aplicação, e localizarem as lojas mais próximas de si, entre as que vendem produtos que os utilizadores procurem.

A aplicação inspira-se numa outra aplicação de origem belga, a myShopi, e foi lançada em Portugal a 5 de novembro de 2015. Contudo, só a partir de janeiro deste ano é que a equipa que trabalha a implementação do Quoty no mercado português começou “a desenvolver a app e a comunicar a app ao mercado”, tendo em vista o “aumento do número de utilizadores” nacionais, contou ao Observador o diretor do Quoty em Portugal, Filipe Nery.

Neste momento, a aplicação, que está presente em nove países (para além de Portugal, existe também em Espanha, Itália, Roménia, França, Bélgica, Alemanha, Holanda e Reino Unido) e que soma cerca de cinco milhões de utilizadores por toda a Europa, conta com mais de 20 mil utilizadores portugueses. Mas o objetivo da Quoty é “fazer crescer a base de dados e chegar aos 100 mil utilizadores” portugueses até ao final de 2016. Só a partir desse número, explica Filipe Nery, é que os responsáveis da Mediapost, empresa que, em 2010, adquiriu licença para implementar o Quoty no mercado nacional, definirão com exatidão o modelo de negócio do Quoty e os seus objetivos de faturação.

Dinheiro grátis? Mas se “ninguém dá nada a ninguém”

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Foi esse objetivo, o de aumentar o número de utilizadores do Quoty no país, que levou Filipe Nery a querer promover a aplicação através de uma estratégia pouco habitual: a de dar dinheiro às pessoas sem razão aparente. Surgiu a Free Money [em português, “Dinheiro grátis”], a ação promocional que tentou mostrar aos moradores de uma rua em Évora que, “utilizando a app, podem poupar dinheiro todos os dias”.

Os dois dias anteriores, quinta e sexta-feira, foram mais tumultuosos do que parecem. A equipa que realizou a campanha tanto encontrou reações positivas como adversas, por parte dos moradores da rua do Ouro, escolhida para a campanha devido ao seu nome (ligado à ideia de dinheiro e de poupança) e devido ao facto de se situar numa zona “mais rural”, ao invés de uma zona “mais urbana”, onde “seria mais difícil pôr a nossa ação em prática”, diz Filipe Nery.

Quase todos os moradores ficaram desconfiados. Paula Silva, por exemplo, foi guardando as notas que recebeu, até saber porque é que lhas estavam a dar. “No primeiro dia achei muito estranho, ninguém dá nada a ninguém. Falámos com os vizinhos para perceber o que seria”, contou este sábado ao Observador, que acompanhou a campanha no seu último dia.

As teorias foram muitas. Um dos moradores, João Fernandes, previu que a ação integrava num estudo sociológico, para perceber as reações das pessoas a ofertas como estas. Um dos seus vizinhos sugeriu que a ação deveria ser para os “Apanhados”. Houve quem dissesse que as notas “deviam ser falsas” e quem se recusasse a ficar com o dinheiro. E um dos vizinhos de Lúcia Fernandes, por exemplo, desconfiou tanto das ofertas que “falou em máfia e chamou a polícia”, conta Lúcia. As autoridades estavam ao corrente da campanha e respeitaram o segredo. Mas acorreram mesmo ao local nos primeiros dois dias, como relata José Perfeito.

“Já não há almoços de borla, já ninguém dá nada a ninguém. Pensei: isto deve trazer água no bico. A Rua do Ouro é um bairro pacato. No primeiro dia, tinha ido às compras e fui abordado por um vizinho, que me perguntou se já me tinha saído a sorte grande. (…) Veio a polícia. No segundo dia, vi um aparato. [Primeiro] um carro da polícia, depois uma carrinha com quatro ou cinco polícias”, relata.

Ao terceiro dia, as explicações chegaram e a ação de campanha foi concluída. “No fundo o objetivo foi mostrar ao utilizador que pode poupar uma soma de dinheiro considerável [com o Quoty], dependendo das suas compras, ao utilizar a app”, ex Filipe Nery, que promete ainda mais campanhas de promoção por parte do Quoty, de caráter igualmente surpreendente, para o futuro.