O Banco de Portugal recebeu em março de 2014 uma auditoria forense sobre a atuação dos órgãos de gestão do Banif entre 2007 e 2012. Segundo revelou a ata de uma reunião da administração do BdP, esta auditoria detetou “diversas irregularidades” ao nível do controlo de créditos concedidos a partes relacionadas do grupo (acionistas ou empresas), mas também das operações internacionais.

A referência a esta auditoria, realizada pela Deloitte, foi feita pela deputada do PSD, Ana Margarida Mano, na primeira audição realizada pela comissão de inquérito ao Banif que ouviu Joaquim Marques dos Santos. O gestor, que liderou a comissão executiva do banco e foi presidente não executivo até 2012, garantiu não conhecer este documento, nem nunca ter sido questionado pelo Banco de Portugal sobre o tema. O período abrangido inclui ainda a gestão de Horácio Roque, o fundador do banco que faleceu em 2010.

A auditoria, descrita como forense, incide sobre a gestão do Banif e do grupo anterior à entrada em funções da última administração liderada por Jorge Tomé e Luís Amado. Entre as entidades do grupo visadas nesta avaliação da Deloitte estão o Banif Internacional, Banif SGPS e Rentipar Financeira, a holding da família Roque que era a maior acionista do banco.

O PSD e o PS vão pedir ao Banco de Portugal esta auditoria. Já em 2014, a propósito do colapso do Banco Espírito Santo, o governador, Carlos Costa, tinha revelado no parlamento que existiam quatro auditorias forenses a bancos, embora tenha salvaguardado que o nível de gravidade das questões investigadas não seria da dimensão das irregularidades detetadas no BES.

A corretora no Brasil que deu lucro ao Banif e prejuízo à Caixa

Um das operações mais questionadas pelos deputados nesta primeira audição foi a atividade do Banif no Brasil onde foram registadas imparidades relevantes. Este banco foi alvo de um processo de contraordenação por parte do Banco do Brasil por causa da concessão de créditos sem a devida autorização por parte da gestão local.

Ainda sobre os negócios do Brasil, a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, levantou dúvidas sobre a venda à Caixa Geral de Depósitos da corretora online no Brasil. Uma “claramente lucrativa” para o Banif, que teve mais-valias, mas prejudicial para a Caixa que acabou por reconhecer as imparidades da ordem dos 60 milhões de euros nas duas fases desta operação.

Marques dos Santos explicou que a Banif CVC, então considerada uma das principais corretoras online do Brasil, teve um grande sucesso, o que suscitou o interesse da Caixa. O Banif teve de vender, com pena, porque precisava já na altura de reforçar os seus capitais.

O processo de venda arrancou em 2010 e ficou concluído em fevereiro de 2012, e envolveu a participação do lado da Caixa Geral de Depósitos de Jorge Tomé, então administrador do banco do Estado, que assumiu a presidência executiva do Banif desde março de 2012.