Alfred Hitchcock é, hoje em dia, um nome incontornável da história do cinema mundial e a sua genialidade é inquestionável. Mas nem sempre foi assim. A obra do realizador não agradava particularmente à crítica norte-americana que não percebia o reconhecimento que lhe era dado pela crítica europeia. Foi o jovem François Truffaut, no início dos anos sessenta, quem se debateu para que o trabalho de Hitchcock fosse valorizado.

O cineasta francês, admirador confesso do realizador britânico, chegou mesmo a enfrentar a redação dos Cahiers du Cinéma, cujo editor era André Bazin – pai adotivo de Truffaut, para que esta o incluísse “entre os grandes nomes do cinema, no mesmo patamar que Bergman ou Fellini”.

Para mostrar aos norte-americanos que Hitchcock era “o melhor diretor do mundo”, Truffaut escreveu-lhe uma carta em que pedia que lhe concedesse uma longa entrevista. Na carta lia-se “desde que me tornei cineasta, minha admiração pelo senhor nunca fraquejou; ao contrário, aumentou ainda mais e mudou de natureza. Há muitos realizadores que amam o cinema, mas o senhor ama o próprio celuloide”. Hitchcock, que tinha fama de ser distante e frio, respondeu-lhe dizendo: “Prezado senhor Truffaut, a sua carta encheu os meus olhos de lágrimas, e me sentirei honrado em receber essa homenagem de sua parte”.

Encontraram-se em Los Angeles para uma conversa de oito dias, que contou com a presença de uma intérprete e um fotógrafo que registou o mítico encontro. A entrevista acabou por ser editada no livro O cinema segundo Alfred Hitchcock. Em 1993, foram descobertas as gravações na antiga produtora do realizador francês. Estas gravações foram divulgadas numa séria radiofónica de 25 capítulos em 1999.

Agora, o crítico e programador Kent Jones transformou o encontro que mudou a história do cinema num documentário, lançado em dezembro de 2015, que conta com a participação de Martin Scorcese, David Fincher, Wes Anderson, James Gray, Richard Linklater, Peter Bogdanovich, Olivier Assayas e Arnaud Desplechin.

Serge Toubiana, especialista em Truffaut e ex-diretor da Cinemateca Francesa, participou também na produção do documentário e afirma que a “conversa definiu o que era a direção de um filme, o controlo sobre uma obra e a direção de atores. Foi a primeira vez que Hitchcock se entregou a esse tipo de exercício”. Na entrevista, que durou 27 horas, Hitchcock respondeu a 500 perguntas e dissecou a construção de filmes como Vertigo, Psycho e O Homem que Sabia Demais. Toubiana explica que o estilo do mestre do cinema “provinha de sua experiência com o cinema mudo na sua etapa inglesa, que aplicou soluções de dramaturgia que não surgiam do diálogo, mas da própria direção de cena. Truffaut conseguiu fazer com que ele falasse sobre os aspetos formais, mas também sobre questões mais profundas”.

O documentário tem o cuidado de transmitir o registo da entrevista, que não foi bem decalcado no livro. O realizador admite que “muitas coisas se perderam na tradução. O próprio Hitchcock ficou um pouco chateado, porque a sua espontaneidade e sentido de humor acabaram por desaparecer no livro. Descobri, inclusive, uma carta que ele escreveu a seu editor francês para reclamar, embora nunca o tenha dito a Truffaut, por não querer ferir seus sentimentos”.

O livro de Truffaut foi determinante para que a obra de Hitchcock fosse amplamente valorizada, mas o impacto do encontro na história do cinema não ficou por aí. A conversa marcou o início de uma relação entre os dois realizadores que trocaram filmes e guiões durante toda a sua carreira. Truffaut encontrou em Hithcock o reconhecimento de um mestre que sempre procurou.