Uma historiadora alemã divulgou uma investigação onde fica demonstrado que a agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP) colaborou com o regime de Hitler na década de 1930. O esquema acordado entre as duas partes consistia na colocação de notícias e outros conteúdos jornalísticos na “linha” da AP que eram produzidos e escolhidos a dedo pelo ministério da propaganda nazi, dirigido por Joseph Goebbels.

A investigação da historiadora Harriet Scharnberg explica que a AP foi complacente com as leis impostas pelo regime nazi, comprometendo-se a não publicar nada que pudesse “diminuir a força do Reich dentro e fora do país” e também a empregar jornalistas que que trabalhavam no departamento de propaganda do partido nacional-socialista. Entre estes está Franz Roth, um fotojornalista que fazia propaganda para as SS. Roth fotografou a invasão da cidade de ucraniana de Lviv (então parte da União Soviética) em 1941 e, segundo a investigação agora divulgada, o conjunto das suas imagens foram analisadas por ordens pessoal de Hitler antes de serem enviadas para a “linha” da AP. Assim, não foram publicadas fotografias que demonstravam os pogroms [massacres] contra a população judaica de Lviv, mas foram enviadas para o estrangeiro, sobretudo para a imprensa norte-americana.

“Em vez de divulgarem imagens dos pogroms que duraram dias contra a população de milhares de judeus de Lviv, a imprensa norte-americana só recebeu fotografias que mostravam as vítimas da polícia soviética e dos ‘selvagens’ criminosos de guerra do exército vermelho”, disse a historiadora Scharnberg em declarações ao The Guardian. “Dessa forma, é justo dizermos que estas fotografias tiveram um papel no disfarce do verdadeiro carácter da guerra feita pelos alemães”, refere, acrescentando que “os acontecimentos que eram expostos e os que eram escondidos no fornecimento de fotografias da AP eram decididos consoante os interesses da Alemanha e a narrativa alemã da guerra”.

Associated Press rejeita “sugestões” mas está a investigar arquivos

Em comunicado, a AP reagiu a este estudo dizendo que “rejeita as sugestões de que colaborou com o regime nazi em qualquer altura” e diz que até à sua publicação “não sabia de nenhuma acusação de que havia material que podia ter sido diretamente produzido ou selecionado” pela máquina de propaganda nazi.

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Pelo contrário, a AP defendeu-se em relação a esta polémica, dizendo que também esta agência noticiosa foi uma vitima da ditadura nazi: “A AP foi sujeita a pressão por parte do regime nazi desde o período em que Hitler subiu ao poder em 1932 até à expulsão da AP da Alemanha em 1941. Os trabalhadores da AP resistiu à pressão enquanto fazia o seu melhor para recolher notícias certeiras, vitais e objetivas para o resto do mundo num tempo tenebroso e perigoso”, lê-se na mesma nota.

A AP referiu ainda que, depois de ter sido abordada por Scharnberg em fevereiro, “tem estado a rever documentos e outros ficheiros dentro e fora dos arquiivos da AP, nos EUA e na Europa, para melhor perceber aquele período”.