A divulgação de pedidos de indemnização a um fundo britânico para vítimas do Holocausto tornou público o relato de um sobrevivente que referia que no campo de concentração de Bergen-Belsen havia “canibalismo” entre prisioneiros.

“A lei da selva imperava entre os prisioneiros. À noite, ou se matava ou se era morto. À noite, o canibalismo era comum”, escreveu Harold Osmond Le Druillenec, o único britânico que sobreviveu depois de ser preso naquele campo de concentração no norte da Alemanha. Le Druillenec foi capturado em 1944 pelos nazis em Jersey, uma ilha britânica ao largo de França que foi ocupada pela Alemanha em 1940, por ter escondido prisioneiros de guerra russos.

Espancamentos, afogamentos, crucificações e enforcamentos

O britânico, que morreu em 1985 com 73 anos, sobreviveu à vida em dois campos de concentração nazis: Banter Weg e Bergen Belsen. Sobre o primeiro, um subcampo do campo de concentração de Neuengamme, Le Druillenec escreveu que “as maneiras de matar os prisioneiros incluíam espancamentos, afogamentos, crucificações e enforcamentos de vários tipos”.

Em relação a Bergen Belsen, o britânico disse que “não era tão mau como Banterweg mas infinitamente mais desconfortável, porque não havia comida nem água e era impossível dormir”. “Passei o meu tempo a mandar cadáveres para valas comuns que era cavadas por ‘trabalhadores externos’ porque nós já não tínhamos força para esse tipo de trabalho”, escreveu. “Grande parte dos prisioneiros de Auschwitz tinham sido transferidos para Belsen quando eu cheguei [em 1945] e foi aí que eu ouvi a expressão ‘a única maneira de sair daqui é pela chaminé’.”

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O documento onde Le Druillenec escreveu estas informações data da década de 1960. Em 1964, o Governo da Alemanha Ocidental deu 1 milhão de libras — hoje em dia equivalente a 17 milhões de libras, equivalente a 21,2 milhões de euros — ao Governo de britânico para serem usadas num fundo de indemnizações para vítimas do Holocausto com nacionalidade britânica. As indemnizações também eram atribuídas a familiares de vítimas entretanto falecidas.

Le Druillenec queixava-se de a sua passagem pelos campos de concentração nazi lhe ter afetado a saúde, deixando-o “enfraquecido”, com problemas cardíacos e respiratórios, além de ter perdido a maior parte das suas memórias que remontavam ao período anterior à guerra, que começou em 1939. O britânico recebeu uma compensação de 1 835 libras, hoje em dia equivalente a quase 36 mil euros.

Para terem direito à indemnização, as vítimas tinham de preencher um relatório como o de Le Druillenec, que era entregue ao ministério dos negócios estrangeiros britânico. Segundo o Daily Mail, mais de 4 mil pessoas candidataram-se a esse fundo compensatório, sendo que só 1 015 tiveram uma resposta positiva.

Os relatórios que agora ficaram conhecidos, incluindo o de Le Druillenec, foram tornados públicos pela divisão de National Archives em Kew, um subúrbio de Londres.