Título: “Uma questão pessoal”
Autor: Lee Child
Editora: Bertrand
Páginas: 400
Preço: 17,70€

lee child

Como o protagonista de uma velha crónica de André Brun – e como o próprio criador de Jack Reacher – o nosso herói é um tipo no género da Alfândega de São Tomé e Príncipe, despacha muito café. Bem-haja. Ao contrário do escritor, no entanto, Reacher não fuma, pelo menos que me lembre, no episódio das suas aventuras mais recentemente publicado em Portugal; é uma concessão aos bons costumes actuais, que toleram a apresentação de toda a espécie de violências e vícios – mas não a exibição desse nosso malfadado hábito.

Uma questão pessoal (Personal) foi o décimo nono romance protagonizado pela criatura de Lee Child. Make me, a vigésima aventura de Jack Reacher sai este mês de Março em edição de capa mole. Está anunciada para o Outono a vigésima primeira: Night School, uma “prequela”, um neologismo que certas séries de filmes tornaram vulgar, por oposição a “sequela”, um termo também vulgarizado que tinha antes uma ressonância mais clínica. Diz a publicidade que as duas dezenas de livros protagonizados pelo ex-polícia militar já venderam 90 milhões de exemplares. É um número mais do que respeitável e muito invejável, é claro, embora longe ainda de chegar aos calcanhares da “rainha do crime”: só um romance de Agatha Christie já vendeu supostamente cerca de 100 milhões de exemplares. Mas os livros dela estão nisto há cem anos – e Lee Child só há pouco mais de vinte.

Foi a 1 de Setembro de 1994 que Jim Grant (nome civil do cidadão britânico que assina Lee Child), desempregado aos 40 anos, “saiu de casa para comprar o papel em que ia começar a escrever, a lápis, o seu primeiro romance: Killing Floor“. É o género de pormenor de que vive Reacher said nothing – Lee Child and the Making of Make Me. Este making of literário é uma curiosa experiência, sem precedentes que eu conheça, em que Andy Martin acompanhou a par e passo a escrita do livro, que começa justamente quando Child ainda está envolvido nas manobras de lançamento de Personal. Nele ficamos a saber, por exemplo, que 100.000 palavras, mais coisa (em geral), menos coisa, é a tabela contratual para os romances que Lee Child publica com uma regularidade pendular, uma vez por ano (em 2010 falhou por excesso: foram dois); começam sempre a ser escritos, faça chuva ou faça sol, nesse mesmo iniciático dia do ano (quem não tem destas manias ou superstições?). Não é a única coisa que lá se fica a saber – mas não vou maçá-los com as abundantes minúcias “técnicas” ou pessoais (estão lá à disposição de quem lhes achar piada, como eu) – só lembrar que a edição de Reacher said nothing tem um “plot spoiler alert” e que escrever, como ali se pode ver de perto, é, muitas vezes, reescrever e, sempre, procurar não só o mot juste mas a justa vírgula e a justa cadência.

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As pequenas coisas

Minúcias são o que faz grande parte da graça de Uma questão pessoal. Todos gostamos de ficar a conhecer – ou ter a ilusão de ficar a conhecer – os segredos da balística, das diferentes espécies de munições e de armas, dos atiradores de precisão ou “de elite” (nesta matéria não se pode deixar de lembrar o dificilmente ultrapassável Point of impact de Stephen Hunter, de que se fez o filme “O Atirador”, com Mark Wahlberg) e, neste exemplo concreto, da extensa topografia de Londres, do seu trânsito e dos seus hotéis, das marcas de automóvel ou do combate corpo a corpo:

A única maneira de lidar com um cotovelo que vem de repente na nossa direcção é rodopiar, avançar, e apanhar com ele na parte mais carnuda do braço, o que é sempre doloroso e às vezes nos deixa trôpegos, mas, por norma, não vamos ao chão” ou “o cotovelo acertou-lhe em cheio na garganta, completamente na horizontal, como uma barra de ferro a deslocar-se quase a cinquenta quilómetros por hora. A velocidade conta…”

Reacher já nos tinha feito cálculos destes a propósito de arrombar portas e há muitas outras explicações de mecânica, física, estatística e anatomia no resto do livro: Reacher nem sempre se contém neste capítulo, o que torna alguns diálogos um tanto forçados – um problema da escrita na primeira pessoa. Quanto ao resto, o livro é escrito no “estilo desarticulado e curto” que o velho Fialho de Almeida recomendava há mais de cem anos “para as narrativas contemporâneas” e não tem concessões ao sensacionalismo – e só duas ou três ao politicamente correcto. Reacher é, evidentemente, um super-homem, sem os poderes especiais do órfão de Krypton, e o resto dos personagens saem todos da galeria habitual de adereços dramáticos do género. A intriga e o seu desenlace – o próprio título é um “plot spoiler” – é “previsível”, um epíteto que o protagonista aplica várias vezes a si próprio. Mas o que interessa aqui não é o destino, é a viagem, por inconsistente que às vezes seja o seu pretexto (é o caso). E esta não desmerece das “melhores práticas” do chamado page turner, tiradas da já antiga receita dos folhetins de aventuras ou dos filmes em episódios dos primórdios do cinema que eram conhecidos por cliffhangers, com heróis ou heroínas sempre à beira do precipício, até à satisfatória e inevitável vitória ou salvação final.

Há em Uma questão pessoal algumas referências ao cinema do tipo “se isto fosse um filme…” – como a atestar por contraste o realismo do livro. É um engodo. Estes romances pertencem ao mundo do “cinema”. Já se fez, aliás, o primeiro “Jack Reacher” (2012), escrito e dirigido por Christopher McQuarrie, argumentista do celebrado “Os suspeitos do costume”, que neste caso não brilhou. Está a caminho o segundo, sempre com Tom Cruise (pouco importa que meça menos vinte e tal centímetros e pese menos trinta ou quarenta quilos do que o Reacher da literatura: é o Tom Cruise); este segundo filme baseia-se em Never Go Back, “Nunca voltes atrás”, que faz parte, por acaso, da meia dúzia de romances desta série já publicados em Portugal. (Nota: num jardim, “urn” é quase de certeza um vaso ou recipiente semelhante, não uma “urna”.)