Os equipamentos culturais de Lisboa e do Porto tornaram-se termo de comparação para quase tudo o que é feito em outras cidades portugueses. O Convento de São Francisco, em Coimbra, com abertura oficial agendada para sexta-feira, dia 8, não escapa à moda.

“Em termos de dimensão, é comparável ao Centro Cultural de Belém”, sublinha Carina Gomes, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Coimbra. “O projeto tem três componentes: a antiga igreja, os claustros do convento e um novo auditório com 1225 lugares, além de várias salas polivalentes até 100 lugares”, explica a autarca (o grande auditório do CCB, em Lisboa, tem 1429 lugares). “Em plena utilização, o Convento pode ter à volta de cinco mil pessoas em simultâneo”, acrescenta.

São estes alguns do argumentos que levam a Câmara de Coimbra a falar em “mega-equipamento cultural”, cujo orçamento anual ronda dois milhões de euros, provenientes do orçamento do município: metade para programação, metade para gestão corrente.

Em conversa com o Observador, a vereadora diz que o Convento de São Francisco será capaz de atrair pessoas da cidade e da região centro, mas também do resto do país e até mesmo de Espanha. Perante críticas de algumas figuras da cultura de Coimbra, responde que está a trabalhar “em estreita colaboração com todos os agentes culturais”.

Por enquanto, a programação cultural não está entregue a uma direção artística ou a curadores. “Nesse aspeto, quem toma as decisões é o executivo: o presidente da Câmara, eu, o diretor de departamento e os nossos consultores”, pormenoriza a Carina Gomes, adiantando as linguagens artísticas que serão contempladas: circo contemporâneo, jazz e blues, música clássica e contemporânea, artes digitais, música eletrónica, pop e rock.

Sem festa de inauguração e com o objetivo de testar o espaço e o público, o programa dos primeiros três meses está quase fechado. Custa 250 mil euros, segundo a vereadora. A primeira proposta é apresentada esta sexta-feira: o espetáculo Dos Bichos, da companhia de teatro O Bando, baseado na obra de Miguel Torga e encenado por João Brites – com a particularidade de a peça ter sido apresentada neste mesmo espaço há 26 anos, no âmbito da Bienal Universitária de Coimbra.

Ainda este mês, a peça António e Maria, do Teatro Meridional; o espetáculo de dança Cara, de Aldara Bizarro; Mão Morta em dupla com a orquestra clássica Remix Ensemble; JP Simões; Pedro Burmester e Mário Laginha; e uma Mostra Internacional de Novo Circo.

O pianista Michael Nyman atua em maio, Maria Rita canta em junho. Também em junho vai acontecer um Festival de Música Eletrónica e Artes Visuais Digitais.

Alguns espetáculos não vinham a Coimbra por não haver condições de acolhimento”, reflete a vereadora Carina Gomes. “A cidade passa a estar posicionada nestas rotas internacionais e os artistas ou espetáculos que só podem estar em Portugal em duas ou três datas passam a vir também a Coimbra.”

Da fábrica aos congressos

Situado na margem esquerda do rio Mondego, junto ao parque temático Portugal dos Pequenitos, o Convento de São Francisco data de início dos século XVII e em 1888 passou a funcionar como fábrica de lanifícios, que ali se manteve até aos anos 1980.

O edifício seria comprado pela Câmara de Coimbra em 1995 e conheceu vários projetos de reabilitação que nunca avançaram. O mais recente, lançado em 2010, sofreu atrasos devido à descoberta de ossadas no subsolo e a inundações durante a empreitada. Só agora as obras se aproximam do fim.

O arquiteto Carrilho da Graça fez uma intervenção nos claustros do convento, dando origem a um grande auditório que será inaugurado esta semana. O custo da obra ascendeu a 40 milhões de euros, de acordo com a autarquia, e foi paga com verbas da União Europeia.

Nos próximos meses deverão estar prontas as obras na igreja do convento e na zona envolvente, que incluirá um parque de estacionamento. Esta componente ficou a cargo do arquiteto Gonçalo Byrne.

À semelhança do que aconteceu, por exemplo, em ano recentes no Teatro Virgínia, em Torres Novas, a vereadora da cultura de Coimbra quer envolver a população local em alguns do espetáculos a apresentar no Convento.

O nosso desejo é que as pessoas se apropriem do espaço e o sintam como seu. Sempre que haja possibilidade, vamos acolher residências artísticas e envolver os agentes culturais da região, profissionais ou amadores, nas produções que vierem de fora”, explica. Exemplo disso é a participação da banda filarmónica da freguesia de Taveiro na peça Dos Bichos.

Esta filosofia é também uma forma de rebater as críticas de que a Câmara tem sido alvo por parte de artistas e programadores da cidade, incluindo Abílio Hernandez, que presidiu à iniciativa Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003. Em declarações à agência Lusa, o antigo professor universitário diz que “há uma recusa do presidente da Câmara [Manuel Machado] em proceder a uma discussão aberta do projeto”.

A vereadora da cultura vê as críticas como “normais e saudáveis”, mas reconhece a “relativa sensação de desconhecimento” dos coimbrões. Garante, no entanto, que o novo equipamento “não vem fazer qualquer tipo de concorrência” à oferta já existente. “Estamos a trabalhar em estreita colaboração com os agentes culturais, seja com o Teatro Gil Vicente, seja o Jazz ao Centro ou a Escola da Noite”, afirma.

A atualização tecnológica do espaço é uma das características que Carina Gomes mais destaca. “Passamos a ter aqui um equipamento com tecnologia de ponta, do grande auditório à mais pequena sala.”

Além da programação cultural, a Câmara quer que o Convento de São Francisco ganhe protagonismo como centro de congressos e palco de eventos, o que implica o setor do turismo e poderá beneficiar os negócios locais. É também uma forma de financiar o espaço.

“Naquele grande grande auditório é possível ter um quinteto de cordas num dia e a apresentação de um modelo de automóvel no outro”, resume a vereadora.