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Igreja Católica

Morreu ex-arcebispo da Beira, mediador do acordo de paz em Moçambique

O arcebispo emérito da Beira e mediador católico do Acordo Geral de Paz em Moçambique, Jaime Gonçalves, morreu na madrugada de hoje, disse à Lusa o vice-reitor da Universidade Católica.

"Estão todos os dias enchendo a boca a dizer paz, paz, paz! Qual paz? Paz de vergonha? Onde está a paz?", questionara recentemente, comentando a situação em Moçambique

Henrique Botequilha/LUSA

Rafael Sapato afirmou que Jaime Pedro Gonçalves, 79 anos, “partiu hoje para o Pai”, na cidade da Beira, vítima de doença, e que o funeral está previsto para sábado.

Jaime Gonçalves foi o mediador da Igreja Católica moçambicana e do Vaticano no Acordo Geral de Paz, assinado a 04 de outubro de 1992, em Roma, e que encerrou 16 anos de guerra civil entre o Governo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana).

Na sua última entrevista, divulgada pela Lusa a 18 de fevereiro, defendeu que o entendimento de Roma ainda é a solução para os conflitos no país e deve ser revisitado pela Igreja, quando Moçambique vive uma nova crise política e militar.

“O documento do Acordo Geral de Paz continua a ser o mais atual e ainda é a luz para a solução dos conflitos em Moçambique”, sustentou o autor do livro “A Paz dos Moçambicanos”.

A Renamo não reconhece os resultados das eleições de outubro de 2014, ganhas pela Frelimo, no poder desde a independência, e ameaça tomar pela força seis províncias onde reivindica vitória, tendo pedido mediação da África do Sul, União Europeia e Igreja.

Na entrevista à Lusa, o arcebispo emérito da Beira afirmou que povo espera um novo diálogo mas também questiona “onde estão aqueles que fizeram a reconciliação”, assinalando que os acordos de Roma “foram obra da Igreja Católica”.

Para Jaime Gonçalves, os acontecimentos recentes em Moçambique deixaram claro que “o Acordo de Paz não está a ser praticado pela Frelimo”, argumentando que a linha dura do partido se recusou a integrar os homens armados da Renamo, que ficou um “movimento descamisado”, e que há um plano para eliminar o seu líder, Afonso Dhlakama.

“Para mim foi uma humilhação terrível o Presidente da República [Filipe Nyusi], o mais alto magistrado da nação, ir a Angola aprender como mataram Savimbi”, afirmou.

Recuando aos tempos de Roma, o mediador católico do Acordo de Paz atribuiu ao ex-Presidente norte-americano George Bush influência decisiva junto do Governo moçambicano para aceitar um diálogo direto, e que até então parecia recusar, com a oposição em 1992: “Quem tinha esse poder era Bush”.

Antes das negociações, num período em que Moçambique ainda vivia sob regime de partido único e falar da Renamo era potencialmente crime contra a segurança do Estado, Jaime Gonçalves recordou como foi levado de avioneta por um jovem piloto português até uma pista sinalizada por militares da Renamo de fachos na mão, e o próprio Dhlakama apareceu de moto para transportar o religioso e, “admiravelmente, aceitar o diálogo”.

Os dirigentes católicos, observou, precisaram de “muita imaginação, muito trabalho e muito risco” e os grandes êxitos desses esforços foram levar a Frelimo às negociações em Roma e o Vaticano aparecer como mediador no entendimento histórico.

Jaime Pedro Gonçalves nasceu em Nova Sofala a 26 de novembro de 1936, tendo frequentado o seminário em Zobué, província de Tete, e prosseguido os estudos em Maputo, Namaacha, Canadá e Roma.

Após os estudos superiores em Educação, Ciências Sociais e Teologia, assumiu a diocese da Beira em março de 1976, menos de um ano após a independência de Moçambique.

Condecorado pelo Estado moçambicano, em 2014, voltou a juntar-se a Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama num evento da Universidade Católica, em setembro de 2015, na Beira, acusando os políticos de ameaçarem a paz com seu “orgulho e medo” e de promoverem uma democracia de ódio.

“Estão todos os dias enchendo a boca a dizer paz, paz, paz! Qual paz? Paz de vergonha? Onde está a paz?”, questionou.

Jaime Gonçalves sofria de uma doença renal crónica, e, segundo o vice-reitor da Universidade Católica, não recebia tratamento de hemodiálise.

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