Já não sabia o que lhes havia de dizer, ensinar, ou pedir. Queria uma camisola limpa, imaculada de nódoas. Era o que lhes pedia antes de qualquer jogo: “Vamos lá, rapazes. Uma clean sheet hoje, vá lá”. Nada feito. Estava farto de ver os seus a terem de marcar muitos golos para se ficarem a rir no final dos jogos. Diz que tentou todas as formas possíveis de motivação, mas a bola abanava sempre as redes. Mais de dois meses passaram até que o italiano se lembrou da coisa que todos os italianos gostam, pizza. “Vamos lá rapazes, vamos lá. Ofereço-vos uma pizza se hoje tivermos uma clean sheet”, garantiu, como quem já não sabe o que há de dizer mais.

No final, um a zero. A ideia de comerem um pedaço de massa cozinhada no forno, com ingredientes por cima, ajudou a que os jogadores do Leicester City vencessem o Crystal Palace sem sofrerem golos pelo meio. Quem andou a correr atrás da bola não se esqueceu do combinado e cobrou a refeição prometida. O treinador cumpriu a sua parte e levou-os a uma pizzaria na cidade, arrastando quem achava que se ia sentar à mesa, pedir, comer e, no fim, ver alguém a tratar da conta sozinho. Nada disso. “Tinha uma pequena surpresa para eles quando lá chegámos. Disse-lhes: ‘Têm de trabalhar por tudo. E pela vossa pizza, também. Vamos fazer as nossas próprias pizzas”, recorda o homem que pregou a partida.

Claudio Ranieri abriu a porta da cozinha a Jamie Vardy, Rihad Mahrez, N’Golo Kanté, Kasper Schmeichel e a restante companhia que, na altura, ficavam no quinto lugar da Premier League. Hoje, vinte e duas jornadas depois, estão em primeiro, a esticarem a surpresa do futebol europeu como quem alonga a massa fina de uma pizza antes de a levar ao forno. “Fomos para a cozinha com a massa, o queijo e o molho. Atirámos para o ar as nossas próprias pizzas. Provei muitas fatias. Agora ficamos muito mais jogos com a nossa baliza em branco. Uma dúzia de clean sheets depois dessa pizza. Acho que isto não é nenhuma coincidência”, contou, através da ponta dos dedos, no texto que escreveu para o Players’ Tribune (deviam existir mais sites como este).

Leicester City's Austrian defender Christian Fuchs (C) and Leicester City's Argentinian striker Leonardo Ulloa applaud fans after winning the English Premier League football match between Leicester City and Southampton at King Power Stadium in Leicester, central England on April 3, 2016. / AFP / BEN STANSALL / RESTRICTED TO EDITORIAL USE. No use with unauthorized audio, video, data, fixture lists, club/league logos or 'live' services. Online in-match use limited to 75 images, no video emulation. No use in betting, games or single club/league/player publications. / (Photo credit should read BEN STANSALL/AFP/Getty Images)

Foto: BEN STANSALL/AFP/Getty Images

O treinador talvez tenha razão, porque depois de abrir a carteira na pizzaria, o Leicester conseguiu não sofrer golos em 13 jogos. “O treinador comprou-nos uma rodada de pizzas, acho que agora nos deve mais uma”, disse Jamie Vardy, a meio de março, no final do vitória por 1-0 contra o Newcastle. Prova de que a brincadeira de Claudio Ranieri teve e tem tido efeito na forma como a equipa tem jogado — nas últimas quatro partidas, aliás, o Leicester venceu sempre por 1-0. Mamma mia, já não tem de marcar muitos golos para ganhar. “Nos primeiros nove jogos estávamos a ganhar, mas sofríamos muitos golos. Tínhamos de marcar dois ou três para vencer. Isso preocupava-me muito”, confessou o italiano.

Algo mais o preocupava. Por vezes, no balneário, enquanto estava a falar e a tentar explicar coisas aos jogadores, Ranieri notava que o que dizia não passava. Via alguns distraídos, a dormir. Mal reparava que a sua conversa ia bater em ouvidos moucos, dizia “dilidin, dilidon”, recorrendo à onomatopeia mais parecida com o som do badalar de um sino. “Desde o início, quando via que algo estava errado, dizia ‘hey, dilidin, dilidon! Acordem!’. Às vezes até o dizia durante os treinos”, admitiu, durante uma conferência de imprensa em que os jornalistas ingleses ofereceram um sino ao italiano. Porquê? Outra brincadeira. “No dia de Natal, ofereci um pequeno sino aos jogadores e membros do staff”, explicou, sereno e risonho.

Estas duas histórias podem encantar porque o Leicester de Claudio Ranieri também encanta. E encantador é o texto que o italiano escreveu, abrindo o livro do que vai sendo uma época inesquecível para o clube. A mesma que está a quatro vitórias de ser tornar lendária. Faltam seis jornadas para o fim da Premier League e a equipa está na liderança do campeonato, com mais sete pontos que o Tottenham. Antes de a época arrancar, Vichai Srivaddhanaprabha, o senhor de apelido complicado que é presidente do Leicester, apenas pediu que o treinador aguentasse o clube na primeira divisão do futebol inglês. “Quarenta pontos, era esse o objetivo, o total que precisávamos para dar aos adeptos outra época na Premier League”, lembra.

Hoje, a equipa está com 69 e nenhum outro líder dos principais campeonatos europeus tem tantos pontos a mais que o segundo classificado — o Barcelona vai com mais seis que o Real Madrid, em Espanha, o Borussia Dortmund tem cinco a menos que o Bayern de Munique, na Alemanha, e a Juventus vê o Nápoles a meia dúzia de pontos de distância, em Itália. “Não sonhava que, a 4 de abril, ia abrir o jornal e ver o Leicester City no topo. O ano passado, no mesmo dia, o clube estava no fundo da tabela”, resumiu Claudio Ranieri. É inacreditável, e não somos nós a escrevê-lo, foi ele que o fez.

LEICESTER, ENGLAND - APRIL 03: Leicester City fans show their emotions as they celebrate victory after the Barclays Premier League match between Leicester City and Southampton at The King Power Stadium on April 3, 2016 in Leicester, England. (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Ranieri sabia que tinha hipóteses de ficar com o Leicester na Premier League. Não demorou muitos treinos a percebê-lo. Bastava-lhe observador, com aquele ar calmo, como o conta-quilómetros de N’golo Kanté não parava quieto — “Deve ter um pacote de pilhas escondido nos calções” –, ou como Jamie Vardy, avançado que há uns anos trabalhava numa fábrica para jogava à bola no tempo que lhe sobrava, apenas precisava de liberdade para correr para começar a marcar golos — “É um cavalo fantástico. Tem a necessidade de ser livre no campo”. E correr, muito e sempre mais que os outros, é o que o italiano nunca parou de pedir à equipa: “Não me importa o nome do adversário. Só quero que vocês lutem. Se eles forem melhores, ok, parabéns. Mas eles têm que nos mostrar que o são”.

Os jogadores têm-no levado a sério, muito. Vardy tem 19 golos marcados e até há pouco tempo era o melhor marcador do campeonato (Harry Kane, do Tottenham, já marcou 22); N’Golo Kanté é o jogador que mais roubos de bola fez (100) no futebol europeu, segundo o Squawka; E não há equipa na Premier League que intercete mais passes por jogo (23.1) do que o Leicester. “Os adeptos que conheço na rua dizem-me que estão a sonhar. Eu respondo-lhes: ‘Ok, sonhem por nós. Porque nós não sonhamos. Simplesmente trabalhamos no duro”, garante Ranieri.

É a única forma de treinar que o italiano sempre conheceu. Mas nunca conseguiu colher frutos maduros. Aos 64 anos, Claudio Ranieri já passou por muitos e bons clubes, dos que são grandes o suficiente para vencerem títulos e exigirem a qualquer treinador que os vença. Em 19 anos de carreira, contudo, o italiano apenas tem em casa as medalhas de uma Super Taça Europeia (Valência, em 2005), uma Taça de Inglaterra (Chelsea, em 2001), uma Taça e uma Super Taça de Itália (ambas com Fiorentina, em 1996 e 1997) e uma Taça de Espanha (Valência, em 1999). Campeonatos, nunca, se nas contas não entrar a segunda divisão francesa que conquistou com o AS Monaco, em 2013, ou a Série B italiana, com a Fiorentina. Além destas equipas, Ranieri ainda treinou o Atlético Madrid, a Juventus, a Roma, o Inter de Milão e a seleção da Grécia, com a qual perdeu três jogos e empatou um, durante 2015.

BIRMINGHAM, ENGLAND - JANUARY 16: (Editors notes: This image has been converted to black and white.) Claudio Ranieri of Leicester City looks on during the Barclays Premier League match between Aston Villa and Leicester City at The King Power Stadium on January 16, 2016 in Birmingham, England. (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Foi por isso que muito se duvidou quando o Leicester, no último verão, contratou o italiano. As reputações, quando pegam, são difíceis de descolar e Claudio Ranieri tinha há anos o rótulo de ser um técnico de “quases”. Em 2010, ninguém conquistou mais pontos que ele na Série A, mas foi o Inter de José Mourinho a ser campeão, porque a Roma perdera nas duas primeiras jornadas, antes de Ranieri chegar. Em 2014, o Monaco treinado pelo italiano acabou o campeonato com 80 pontos, mas no segundo lugar — nunca uma equipa não fora campeã em França depois de amealhar tantos pontos. Em 2004, na primeira época em que Roman Abramovich brincou aos ricos com o Chelsea, acabou em segundo porque coincidiu com uma equipa do Arsenal que ficou conhecida como “Os Invencíveis” (não perdeu qualquer jogo).

Foram muitos quase, demasiados até, para um homem tão tranquilo quanto a pacatez que dá ao seu dia-a-dia. “Tenho 64 anos, por isso não saio muito. A minha mulher está comigo há 40 anos, por isso tenho ficar perto dela nos meus dias de folga. Vamos passear junto ao lago ou, se nos sentirmos aventureiros, vamos ver um filme”, confidenciou. É este o tipo de treinador e de pessoa que está a uma nesga de fazer história com um clube que, há nove meses, apenas lhe pediu para tentar os possíveis para passar despercebido e aguentar-se na Premier League. Mas as coisas não são tão simples como uma receita de pizza.