O presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) considerou “estranhas e incompreensíveis” as afirmações do subdiretor do Colégio Militar sobre discriminação dos alunos homossexuais e lamentou a demissão do Chefe do Estado-Maior do Exército.

“Foi uma infelicidade que nos parece estranha e incompreensível a todos os títulos. É fácil de perceber em primeira mão que, sendo nós militares guardiões da Constituição da República Portuguesa, venha um dos seus elementos fazer afirmações tão infelizes, que por uma qualquer razão entendeu fazer”, disse à agência Lusa o coronel Pereira Cracel.

O responsável disse que os elementos da AOFA ficaram “tristes” com a demissão do general Carlos Jerónimo do cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) e que entenderam “isto como algo estranho”. “Temos um militar na efetividade de serviço que faz declarações, que deveriam ter prévia autorização do chefe [não sei se tinha ou se não tinha] e que são no mínimo infelizes, mas errar é humano, e as consequências deveria sofrê-las”, salientou.

José Gonçalves, da Associação Nacional de Sargentos, acrescentou – em declarações à SIC Notícias – que, no início, o Exército teve dificuldade em integrar as mulheres nas fileiras e que, “naturalmente, tem capacidade de integrar outras convicções e outras formas de estar na vida, desde que elas respeitem as liberdades individuais e o espaço próprio de cada um”.

Sobre a demissão do Chefe do Estado-Maior do Exército, José Gonçalves disse que lhe parecia “um bocadinho excessivo” uma razão “desta natureza” ter feito com que se demitisse. Já para o presidente da AOFA, face à gravidade da situação, pedir a demissão foi uma atitude coerente.

“Contudo, o que nós estranhamos é a rapidez com que o pedido foi aceite. O Chefe do Estado-Maior do Exército pede a demissão face a gravidade da situação e admira que o Presidente da República e o ministro da Defesa tenham aceitado a demissão no imediato”, sustentou.

O pedido de demissão do CEME ocorreu dois dias depois de o ministro da Defesa Nacional lhe ter pedido um esclarecimento a propósito de afirmações feitas pelo subdiretor do Colégio Militar sobre discriminação dos alunos homossexuais.

A ILGA Portugal – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero – também já se manifestou. Em declarações à SIC Notícias, o vice-presidente Paulo Côrte-Real elogiou o comportamento do ministro da Defesa e pediu que fosse desenhada uma política clara na área da Defesa, porque a discriminação ainda está a impedir muitas pessoas de exercerem os seus direitos fundamentais.

“Não só no Colégio Militar, mas em qualquer escola, qualquer instituição, a obrigação é ter políticas que proíbam qualquer forma de discriminação e que permitam a inclusão de todas as pessoas”, afirmou.

Sobre a demissão do general Carlos Jerónimo, Paulo Côrte-Real afirmou, neste caso, houve “houve uma consciência da obrigação de garantir que essa discriminação não acontece e que há medidas adequadas para combatê-la”.

O subdiretor do Colégio Militar, tenente-coronel António Grilo, afirmou numa reportagem publicada na sexta-feira, no Observador que “nas situações de afetos [homossexuais], obviamente não podemos fazer transferência de escola. Falamos com o encarregado de educação para que perceba que o filho acabou de perder espaço de convivência interna e a partir daí vai ter grandes dificuldades de relacionamento com os pares. Porque é o que se verifica. São excluídos”.

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Ouvido pelo DN, na sequência destas afirmações, o Ministério da Defesa fez saber que pediu explicações ao CEME e assumiu que “considera absolutamente inaceitável qualquer situação de discriminação, seja por questões de orientação sexual ou quaisquer outras, conforme determinam a Constituição e a Lei”.

Hoje, o ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, anunciou que já iniciou os procedimentos adequados visando a substituição do general Carlos Jerónimo, que pediu a exoneração do cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército.