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“Querem uma dica? Perguntem-lhe coisas que os outros ainda não perguntaram sobre direitos humanos e animais. Ele adora animais.” João Barbado, o diretor da Barbado Gallery, a galeria em Lisboa onde a partir de sábado, 9 de abril, pode ser vista a exposição “India”, de Steve McCurry, aconselha-nos a falar sobre outros assuntos.

Com um copo de vinho à frente e um boné pousado na mesa, o fotógrafo norte-americano já teve uma dose matinal das mesmas perguntas sobre a Índia, onde esteve dezenas e dezenas de vezes, e sobre a fotografia que o tornou famoso nos anos 80. Ainda assim tentamos abordar o assunto “Rapariga Afegã”, que nunca é de mais. “Isso é uma coisa que podes encontrar na internet”, desarma-nos. Previsível.

A foto da capa da National Geographic de junho de 1984, uma das imagens mais icónicas da fotografia contemporânea, motivou várias reportagens e até um documentário para tentar encontrar o paradeiro da rapariga que perdera os pais durante um bombardeio soviético no Afeganistão. O próprio fotógrafo procurou-a sem sucesso nos anos 90 e na década seguinte finalmente conseguiu localizar Sharbat Gula, já com 30 anos.

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National Geographic de junho de 1985

Uma imagem que será sempre associada ao fotógrafo, mesmo quando não está presente nas várias exposições que vai inaugurando pelo mundo, como esta em Lisboa, a sua primeira a solo no país – e que motiva a sua terceira visita, “a primeira para um workshop, outra para uma exposição coletiva”. “India”, até 9 de junho na Barbado Gallery, reúne 20 fotografias tiradas por McCurry no país entre 1983 e 2010, e algumas das suas mais conhecidas, como a mulher com uma rapariga ao colo que espreita por um vidro do carro para pedir dinheiro, “Beggar Girl”, tirada em Mumbai em 1993. “Olho para elas como um todo, não tenho nenhuma favorita”, continua.

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As imagens da exposição, a propósito do livro com o mesmo nome lançado o ano passado pela Phaidon, foram escolhidas pelo dono da galeria, João Barbado, e são “um olhar mais poético” sobre o trabalho de McCurry “na Índia tradicional”. “A maior parte das fotografias foram tiradas há 30 anos. Fui pela primeira vez à Índia em 78 numa altura em que queria ir a todo o lado. Estava curioso.”

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Steve McCurry fotografado por Hugo Amaral

A melhor câmara do mundo

Hugo, o fotógrafo do Observador que coincidentemente usa a mesma câmara e a mesma lente que McCurry, uma Nikon D800 e segundo o norte-americano “a melhor câmara do mundo”, pergunta-lhe sobre Varanasi, nas margens do Ganges, cidade mítica indiana. “Fui lá muitas vezes, umas dez. É um dos sítios mais interessantes do mundo, cheio de gente, sujo, com muita espiritualidade. É fascinante.”

Desde que foi à Índia pela primeira vez, muita coisa mudou e o destino tornou-se mais popular que nunca – e evoluiu muito:

Toda a gente tem internet, um telemóvel, as pessoas podem ver tudo, viajar é mais fácil e barato, o mundo mudou muito desde que fui lá pela primeira vez. O que de alguma maneira pode ser bom, de outras vezes torna-se mau. O mundo está a tornar-se uma só cultura. Estamos a perder a individualidade, mas provavelmente os cuidados de saúde e a educação, estão a melhorar. Coisas que eram, por exemplo, unicamente portuguesas estão a desaparecer, mas ganham-se outras.”

Em relação à evolução e democratização da fotografia, e ao facto de toda a gente ter uma câmara, McCurry não vê isso como uma ameaça ao fotojornalismo. “Com isto [pega num iPhone] podes escrever, mandar mensagens, escrever um conto, um romance, um ensaio. Quando é que foi a última vez que escreveste uma música aqui? Nunca. As pessoas podem tirar biliões de fotografias e escrever biliões de mensagens. Mas quantas pessoas podem escrever com isto músicas das quais te vais lembrar para o resto da tua vida? Gosto de selfies, acho bem que as pessoas tirem essas fotografias, mas isso não é arte, não está ligado com esse mundo, da comunicação ou da fotografia.

O mundo digital não é uma ameaça. Pelo contrário, pode ser uma vantagem. “Uma vantagem que tu tens e que eu nunca tive. Hoje podes pôr as tuas fotos na internet de graça e as fotos andam à volta do mundo instantaneamente. Quando comecei, até serem publicadas por um jornal ou revista não eram vistas.”

Com tantas viagens e histórias para contar – embora nem sempre seja fácil arrancar-lhe uma – há um sítio onde gostava de ir nos próximos tempos: o Irão. “Nunca lá fui. Acho que seria interessante, é um sítio em transição. Quero ir lá ver isso, passar alguns dias, ver a história, a cultura e as pessoas.” E fotografar, claro. Aliás, é uma coisa que não consegue deixar de fazer. “É como comer, respirar ou dormir, não me posso ‘reformar’ de comer, ou de dormir, ou de respirar. Tu escreves ou fotografas porque é o que gostas de fazer, não consegues parar com isso.”

“India”, de Steve McCurry, pode ser vista até ao dia 9 de Junho na Barbado Gallery, em Lisboa