Quando em 1997 Reed Hastings criou a Netflix nunca imaginou que, passados quase 20 anos, teria 75 milhões de subscritores. No mundo inteiro. Da venda de DVDs por correio, o diretor executivo passou para o streaming de filmes na internet – “o futuro”, como lhe chama –, primeiro nos Estados Unidos da América e Canadá e, depois, um pouco por todo o mundo. Atualmente, a plataforma funciona em mais de 190 países, de uma ponta à outra do globo.

Com o crescimento da plataforma vieram também novos investimentos. Em 2013, a Netflix decidiu investir numa produção própria, um trama político intenso com Kevin Spacey – a série que ficaria conhecida por House of Cards. Três anos passados, a Netflix não para de crescer e o número de produções próprias também não. Num evento esta segunda-feira em Paris, a plataforma anunciou mais quatro novidades – duas novas séries e a segunda temporada de Marco Polo.

Para ouvir o que Reed Hastings e outros membros da Netflix tinham para dizer, rumaram a Paris (mais precisamente à Cité du Cinéma, em St. Denis) cerca de 300 jornalistas europeus, oriundos de países como a Hungria, Noruega e, claro, Portugal. “É uma enorme honra estar estar aqui hoje, ver todas as produções, estar na presença de tantos talentos que se entregaram de alma e coração a estes projetos e por ter sido a Netflix a dar vida a estas produções. É algo que nunca poderia ter imaginado”, disse o diretor executivo da empresa no discurso de boas-vindas.

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Reed Hastings estreou o palco da Cité du Cinéma

Ao longo do dia, foram vários os produtores, realizadores e guionistas que se sentaram no mesmo sofá vermelho para falar de cinema, televisão e, acima de tudo, da Netflix (com muitos, muitos elogios à mistura). Para além deles, passaram também por Paris várias estrelas internacionais, como Kevin Spacey, os protagonistas do filme Special Correspondents, Ricky Gervais e Eric Bana, e Ashton Kutcher.

Para além de painéis com atores, produtores e realizadores, os presentes tiveram ainda direito a um almoço servido na cantina da prisão federal da série Orange is a New Black. Felizmente, o puré de batatas roxas tinha melhor aspeto do que a comida do refeitório da cadeia norte-americana.

“Não fomos longe o suficiente”

O primeiro a subir ao palco da Cité du Cinéma foi Kevin Spacey, protagonista da série House of Cards, que só agora chegou a França pela Netflix. Sobre a sua personagem, Francis Underwood, o ator admitiu que foi o maior desafio da sua carreira e que nunca a conseguiria ter interpretado se não tivesse passado mais de dez anos a fazer teatro. “É um desafio interpretar uma personagem tão complexa. Todas as temporadas aprendo mais sobre este homem.”

Em 2003, Spacey, norte-americano de gema, mudou-se para Londres para fundar a sua própria companhia de teatro, a Old Vic., “Queria desafiar-me de uma maneira diferente, como nunca tinha sido desafiado no cinema”, confessou. “Queria tornar-me num ator melhor”. Apesar de ter abandonado os palcos em agosto de 2005, o ator garante que as personagens que interpretou (principalmente o rei Ricardo III da peça homónima de Shakespeare) o mudaram completamente.

Ainda sobre House of Cards, Spacey fez questão de referir a grande popularidade da série, nomeadamente em países como a China (onde é transmitida graças a um acordo firmado entre a Netflix e uma outra empresa de streaming). “A série ultrapassou barreiras. É muito interessante ver o quanto as pessoas se identificam com as personagens independentemente de onde são”, salientou.

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Ted Sarandos, da Netflix, e Kevin Spacey

Questionado sobre a semelhança entre a sua personagem e os candidatos à corrida à Casa Branca, o ator referiu “ele [Francis Underwood] é uma personagem da ficção e alguns candidatos também parecem personagens da ficção”. Ainda sobre a política norte-americana, Spacey contou que “às vezes, depois das gravações, chego ao hotel e penso ‘será que fomos demasiado longe?’ e depois ligo a televisão e chego a uma conclusão simples: ‘não fomos longe o suficiente'”.

Já sobre o formato da Netflix e o respetivo modelo de negócio, o ator foi confrontado com a pergunta: “Alguma vez pensou que iriam vê-lo num ecrã de telemóvel?” Spacey respondeu com uma categoria muito própria: “Só espero conseguir encher o teu ecrã.”

Ainda em França

Entre as novidades divulgadas no evento desta segunda-feira em Paris, conta-se a estreia de duas novas séries originais — Marseille, com estreia marcada para 5 de maio, e The Crown, que irá estrear a 4 de novembro.

Marseille, que conta com Gérard Depardieu no papel principal, segue a história de Robert Taro, presidente da câmara de Marseille que há 20 anos prepara o seu derradeiro golpe – angariar votos suficientes para a construção de um casino no centro histórico da cidade. Prestes a deixar a câmara municipal, Taro já escolheu o seu sucessor, Lucas Barrès, não deixando nada ao acaso. Porém, a ambição desmedida de Barrès torna-se num impedimento aos planos de Taro. A corrida para o cargo torna-se então numa luta de interesses, onde não existem barreiras.

“É a história trágica de uma família, baseada em obras de Shakespeare, que por sua vez se inspirou em tragédias gregas”, admitiu Pascal Breton, produtor de Marseille.

No evento em Paris, Dan Franck, guionista e também produtor executivo de Marseille, explicou que, para escrever a série, passou “várias semanas em Marselha” e que se deixou influenciar pela cidade, que considerou ser o pano de fundo perfeito para “o que estava à procura”.

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Para lá de Depardieu, a série conta também com a participação de atores como Benoît Magimel e Géraldine Pailhas, esta última natural de Marselha, cidade onde o pai morreu há dez anos e com a qual tem uma ligação sentimental muito forte. Paihas, que trabalhou com Depardieu “quando ele tinha mais ou menos a minha idade”, admitiu ser um privilégio voltar a cruzar o caminho do ator francês, de quem já não tem medo. Questionada sobre o que tinha mudado em Depardieu desde a última vez que se encontraram, a atriz disse apenas: “O corpo mudou, mas o seu coração mantém-se o mesmo”.

Das coroas

Escrita por Peter Morgan e produzida por Andy Harries, a equipa responsável pelo filme A Rainha, The Crown segue os primeiros anos do reinado de Isabel II que, aos 25 anos, se vê inesperadamente sentada no trono de Inglaterra, depois da repentina morte do pai, Jorge VI. Ao mesmo tempo que se tenta ajustar no seu novo papel, Isabel procura forjar um relacionamento com o primeiro-ministro Winston Churchill, 50 anos mais velho.

“Quando pensei no Churchill, que tinha 73 anos, e nela, que tinha 20 e poucos anos, pensei que daria uma dinâmica interessante”, disse Peter Morgan, produtor de The Crown. Sobre o motivo de ter voltado ao tema da família real inglesa, Morgan explicou que, quando realizou o filme A Rainha, ele e Harries se aperceberam que “havia público”. “Continua a existir um fascínio pela família real inglesa”, disse o guionista. Para a série, assim como para o filme, Morgan não teve qualquer contacto com a família real, rodeando-se em vez disso de uma equipa de investigadores dedicados que o ajudaram a construir o enredo. “Nem tudo é como aconteceu, porque algumas coisas não sabemos como foram, mas muita coisa é”, acrescentou.

Como uma ida ao Palácio de Buckingham estava fora de questão, para os cenários, a equipa recorreu a edifícios londrinos cujos interiores se assemelham aos da casa da família real. “Há muitas casas que são parecidas, como por exemplo a Lancaster House”, explicou Morgan. Infelizmente, isso fez com que muitas das filmagens fossem feitas ao domingo, porque era o único dia em que os cenários estavam disponíveis (e não estavam abertos ao público em geral).

John Lithgow (o único ator não-britânico do elenco), que interpreta o papel de Winston Churchill, admitiu que leu muitos livros para se preparar para o papel mas que, em momento algum, pensou em criar uma “cópia” de Churchill, mas sim uma versão churchilliana dele próprio. “O que quis foi fazer com que as pessoas se esquecessem do verdadeiro Winston Churchill e que acreditassem momentaneamente em mim.”

A abordagem de Lithgow foi seguida pelos outros atores. Claire Foy, a rainha de The Crown, e Matt Smith, o seu respetivo esposo, também procuraram uma abordagem mais pessoal das personagens. “Tive de esquecer tudo o que sabia e aceitar o facto de que não sou ela. Nunca vou ser uma versão perfeita dela, nem nunca vou agradar toda a gente”, disse a atriz em Paris. “Não estamos a tentar fazer caricaturas, mas a tentar transmitir a essência deles”, referiu por sua vez Matt Smith, que interpreta um jovem príncipe Filipe, recém-casado com Isabel II.

Claire Foy admitiu ainda que a série fez com que ela e Smith “se apaixonassem” pela família real. “A série permite vê-los como pessoas de carne e osso”, disse o ator. Já Peter Morgan, fez questão de frisar que The Crown é uma série “ousada”, mas que “não é sensacionalista”.

No final do painel de The Crown, Peter Morgan deixou a promessa – há material suficiente para outras temporadas. Por enquanto, resta-nos a primeira, que estreia em novembro.

Para além das duas novas séries, a Netflix anunciou ainda a estreia a 1 de julho de uma nova temporada de Marco Polo, a série protagonizada pelo italiano Lorenzo Richelmy que, há pouco menos de um ano, não sabia dizer nem uma palavra em inglês.

A segunda temporada da série sobre as aventuras do explorador na corte do imperador chinês Kublai Kgan, permanece, em grande medida, envolta em mistério. Por enquanto, sabemos apenas que a nova temporada contará com a participação da atriz Michelle Yeoh, que interpretará uma personagem “misteriosa, obscura e perigosa”. Ou, pelo menos, assim o pensa. Lorenzo Richelmy, que também esteve presente no evento em Paris, ajudou a levantar um bocadinho o véu, admitindo que os novos episódios irão mostrar “um lado mais negro” de Marco Polo. Resta esperar para ver.

Correspondentes especiais

É uma das mais recentes novidades da Netflix e também passou pela apresentação de Paris. Trata-se de “Special Correspoendents”, um novo filme original, saído da mente de Ricky Gervais (o homem responsável por, entre outras coisas, “The Office”, na versão original inglesa). Gervais confessou estar deliciado com este novo filme porque permitiu-lhe tudo: “Tive liberdade total para fazer o que queria”, contou, ainda que estivesse a trabalhar para grandes audiências. Ao mesmo tempo, conseguiu “fugir à comédia mais habitual”outro dos seus permanentes objetivos.

O filme conta a história de dois jornalistas (interpretados por Gervais e Eric Bana) que, a partir de um esconderijo em Nova Iorque, fazem a “cobertura” de uma guerra que acontece no Equador. Pelo meio desta farsa surge o anúncio de que ambos foram raptados, um resgate e muitas outras peripécias que nenhum dos repórteres alguma vez desejou.

Ainda sobre a indústria do cinema, especificamente referindo-se aos filmes de comédia, Ricky Gervais falou na falta de “gente que arrisque”, num “valor seguro” que faz com que “a preocupação esteja apenas com as primeiras noites de projeção de um filme, para que não seja retirado das salas e para que o púbico não estranhe”. Acrescentou, como elogio à Netflix, que “com este modelo é possível fazer filmes de autor e fugir ao costume, que é fazer o mesmo filme que vimos no mês passado. Desta forma, os intermediários foram eliminados e conseguimos chegar a mais gente com o produto que realmente queremos fazer.”

O Observador viajou até Paris a convite da Netflix.