A ter de escolher o que é mais marcante no recém-editado livro de Luís Filipe Castro Mendes, Outro Ulisses Regressa a Casa (Assírio & Alvim, 2016), escolheria a primeira parte. Os poemas, agrupados como amigos à volta de uma mesa, são feitos de uma relação maturada e sóbria com a vida e com a poesia, aqui e ali definida a propósito de um regresso de alguém que andou por fora. É um voltar, com a “vida resumida” em “caixas de cartão”, sem excessos nem de melancolia nem de esperança ao lugar de onde se partiu.

lfcm

“Outro Ulisses Regressa a Casa”, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim, 80 páginas; preço: 11€)

“Casas da Noite”, o sétimo poema, traz uma hipótese de definição do gesto poético: “(…) A poesia é mais uma forma de desconversar (….). Outro, “A Porta Fechada”, vai noutro sentido: “(…) a poesia é uma conversa/ que só tem lugar quando ninguém está a ouvir (…)”. E não se julgue que é através da escrita de versos que se cumpre qualquer urgência literária: “Escrever poemas o que é senão fugir à poesia (…)”. O retorno a casa também é feito de alguma hesitação (“Porque ficas/à entrada da casa, perdido no olhar/ e na memória do que nunca chegou a ser?”, escreve-se em “Regresso”) mas igualmente de um sentimento de dever perante o lugar primeiro (em “A Nossa Terra” alude-se a uma “dívida à terra,/ desta consciência brusca de amanhecer um dia (…)”).

A sombra da morte, tema recorrente na melhor literatura, atravessa quase toda estas páginas (“(…) Viajar é tão-só aprender/ a mais devagar saber morrer (…)”. E para a morte não há um chão que se possa reconhecer como seguro. No entendimento do poeta, há apenas um território frágil onde desaparecemos um dia, no caso sem fé, uma “falta que não dói” nomeada em versos nos quais, apesar de uma apaziguada descrença, sobrevoam “anjos” e onde “o silêncio de Deus é como um telefone a tocar no vazio”..

Luis Filipe Castro Mendes and Alexander Spachis in Srinagar

Luís Filipe Castro Mendes

Tudo é provisório e só há quinze leitores à espera, “(…) quinze leitores, meus irmãos, meus hipócritas como eu” (“Insónia de um Velho”). É assumida, de um modo divertido, a condição de “rapaz da província”, onde “toda a má língua” é coalhada “no cimo do leite da ternura humana”. E são ainda feitas homenagens a cúmplices como Vasco Graça Moura e Dom Fernando de Mascarenhas.

Depois vem a mestria técnica dos sonetos, da “Boca do Inferno” à “Crise do Verso”, os diálogos com Pessoa, Camões e Ruy Belo, e um elegante confronto, feito de inspiradas notas de humor e de reflexões várias sobre as possibilidades e impossibilidades da poesia, entre o o Senhor Poeta, “híbrido paródico de Rilke e Pessoa” e um Senhor Kappus, antigo oficial do Império Austro-Húngaro que trocou cartas com o canónico autor e que acabou por escrever romances, peças de teatro e letras de canções. Uma conversa feita de muitas desconversas sobre o “trabalho sério” e precário de escrever poemas.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.