António Costa surge no Parlamento, para o debate quinzenal, no final de duas semanas duras para o Governo, com seis temas, todos polémicos, prontos a disparar pela oposição. O caso do seu amigo e negociador Diogo Lacerda Machado, as mexidas no Governo forçadas por dois pedidos de demissão, a pressão dos militares sobre o ministro da Defesa, a solução para a estabilização do setor financeiro, as dúvidas sobre o Programa de Estabilidade e as previsões em baixa para a economia são assuntos certos numa manhã que se aguarda quente na Assembleia da República.

O debate será aberto pelo Bloco de Esquerda, que apostará nas questões do setor financeiro. Uma questão que o partido tem estado a cruzar com o Programa de Estabilidade, considerando que o Governo tem de incluir no documento que vai apresentar em Bruxelas até ao fim do mês o modelo da solução que está a desenhar para a banca. Aliás, o Bloco já avisou, ontem, que se isso não acontecer, entrará muita areia na engrenagem da geringonça.

Costa falou, numa entrevista ao DN e à TSF, na necessidade de “encontrar um veículo de resolução do crédito malparado” que poderia passar por um banco mau que absorvesse os ativos tóxicos da banca. O Bloco acena com a impossibilidade de deixar passar uma solução que traga encargos para o Estado e salve a banca.

Mas nem só de banca se fará este debate, sobretudo numa semana em que António Costa esteve debaixo de fogo direto, depois de ter escolhido um amigo pessoal, o advogado Diogo Lacerda Machado, para o representar em algumas das negociações mais sensíveis em que o Estado está ou esteve envolvido (lesados do BES, acordo para o BPI, reversão parcial da privatização da TAP).

À esquerda pesará ainda outra questão: as previsões em baixa do crescimento económico. O Governo já informou os partidos que o apoiam no Parlamento (PCP, BE e PEV) que a perspetiva no Programa de Estabilidade terá de ser “prudente”, devido à conjuntura económica internacional.

Outra das polémicas que marcou os últimos dias do Governo socialista foi a demissão do general Carlos Jerónimo de chefe do Estado-Maior do Exército, que tem motivado várias críticas ao ministro da Defesa. Azeredo Lopes vai ser ouvido no parlamento no dia 26, apesar do Conselho de Ministros já ter aprovado a proposta do nome do tenente-general de Rovisco Duarte para chefiar o Exército.

Isto além das demissões das últimas semanas, do ministro da Cultura João Soares e do secretário de Estado da Juventude e do desporto, João Wengorovius Meneses. Duas saída envoltas em polémica com que Costa também deverá ser confrontado no debate desta sexta-feira, já que se trataram das primeiras mexidas no elenco governamental.

O PSD indicou que o tema que escolheu para confrontar o primeiro-ministro foi o das”questões políticas, económicas e sociais”, os mesmos temas colocados pelo PS, do CDS e do PCP. No debate quinzenal de hoje, pelo PS falará a vice-presidente da bancada e secretária-geral adjunta do partido, Ana Catarina Mendes, em substituição do líder parlamentar socialista, Carlos César. Segundo uma fonte da bancada, Carlos César estará ausente do debate devido a “compromissos nos Açores assumidos anteriormente e inadiáveis em representação do partido”.

No último debate quinzenal, realizado a 30 de março, o primeiro-ministro escolheu o Programa Nacional de Reformas como tema da intervenção inicial. Outros temas acabaram, contudo, por também entrar na discussão pela mão dos partidos, nomeadamente a condenação de ativistas angolanos, a nacionalização do Novo Banco e o caso Banif.