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Objetivo de Pinto da Costa: ir a votos para não deixar o FC Porto ir de mal a pior

Às 19h deste domingo, as urnas vão estar a fechar no Estádio do Dragão. Hora e meia depois, a equipa entra em campo. Há três anos, Pinto da Costa venceu com 99% dos votos. Agora poderá ser diferente.

Jorge Nuno Pinto da Costa vai acabar o 13.º mandato na presidência do FC Porto a 13 pontos do Benfica e a 10 do Sporting. E apenas com um título conquistado (Super Taça de Portugal) desde agosto de 2013

MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images

Autor
  • Diogo Pombo

Começara um negócio há seis anos. Funda uma agência de viagens e monta a sede no Porto. A empresa é saudável, ainda existe, e é nela que Martins Soares se foca. Pouco mais se consegue despistar acerca do homem que, hoje, está com 66 anos, e permanece talvez tão desconhecido como era em 1988. Foi nesse ano que decidiu chegar-se à frente e animar algo que, no FC Porto, apenas conheceu novidades por duas vezes nos últimos 36 anos. Jorge Nuno Pinto da Costa, o líder que já era a cola que unia os dragões contra quem não o era, tinha um adversário na corrida à presidência do clube. Mas esta talvez não seja a melhor palavra.

Martins Soares não se “elevou contra outro para lhe disputar a posse de uma coisa”, como diz o dicionário. Foi mais um concorrente, alguém com intenção de alcançar algo tendo apenas a ínfima hipótese de o fazer. O empresário recebeu 535 votos contra os 10.196 que deixaram Pinto da Costa seguir, confortável, ao volante do clube. O presidente estava há seis anos no FC Porto e continuaria mais outros três, até em 1991 se submeter a outro sufrágio. O ato só não foi igual a todos os que lhe sucederam até hoje porque Martins Soares, de novo, tentou o que era difícil. Saiu-se melhor: aí já conseguiu 20,14% dos votos, talvez fruto do avião que, um dia, fez sobrevoar o Estádio das Antas, para deixar cair panfletos da sua campanha sobre as cabeças dos adeptos.

Desde aí, nada. Há 25 anos que as eleições presidenciais no FC Porto são como o almoço e o jantar para Pinto da Costa: uma formalidade. Apenas Martins Soares tentou, por duas vezes, mexer nos talheres da refeição de quem, este domingo, contará o 10.º ato eleitoral em que se recandidata à presidência dos dragões. Uma vez mais, não terá adversários ou concorrentes. O Observador quis perguntar porquê ao único homem que o desafiou, mas ninguém da sua agência de viagens nos conseguiu indicar um contacto. Talvez por se recordarem que Martins Soares, em 2007, garantiu que não se voltaria a candidatar enquanto Pinto da Costa for candidato. “Será presidente enquanto quiser e não será ninguém que o convencerá do contrário”, disse, na altura, ao jornal Record.

A última vez que alguém quis dar um novo presidente ao FC Porto foi, portanto, há 25 anos. Martins dos Santos teve uma percentagem de votos, embora insuficiente, mais animadora em 1991, porque o clube não conseguira ser campeão nacional nessa temporada — e, dois anos antes, terminara a época sem títulos. O museu ganhou pó, os adeptos não gostaram, um empresário chegou-se à frente e Pinto da Costa não foi o único candidato como desde então tem sido. Como será este domingo, quando ficar à espera que os votos entrem nas urnas e que, mais hora, menos hora, o reconduzam no cargo. Só que, pela terceira vez consecutiva, os dragões podem terminar a época sem o título de campeão nacional. E isto é coisa que nunca se viu.

O FC Porto perdeu sete jogos, incluindo uma derrota (0-1) em casa com o Tondela, último classificado, seguida de outra em Paços de Ferreira. A equipa tem sofrido muitos golos (19 em 16 partidas), marcado os insuficientes (22) e jogado cada vez menos, apenas de ter conseguido o apuramento para a final da Taça de Portugal entre a eliminação da Liga Europa e da Taça da Liga. José Peseiro pegou numa equipa montada por outro treinador, que já estava a tremer, mas nem isso o desculpou aos olhos dos adeptos. Já ouviu assobios, viu lenços brancos e, em parte, fez escalar a contestação a si, aos jogadores, aos dirigentes e a quem nunca antes estivera tanto na mira de fogo das críticas.

Pinto da Costa começou a ser contestado. A falta de títulos, as dezenas de jogadores contratados em três anos, as apostas falhadas nos treinadores e os resultados abanaram-lhe a armadura. O escudo do presidente que tornou o FC Porto mandão em Portugal, ganhador na Europa e sedento por ganhar sempre. A polémica com as alegadas comissões de transferências pagas ao filho Alexandre — terão sido 500 mil euros em 2013, disse o site Football Leaks, pelo regresso de Ricardo Quaresma ao clube, na altura um jogador livre — arrancaram essa proteção.

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A gota de água caiu na madrugada de 7 de abril, quando um grupo de adeptos lançou petardos à porta de casa do líder portista, além de exibir duas tarjas, nas quais se lia: “Je suis… Comissionista!!!” e “Desculpa mestre Pedroto, o presidente anda cego com as comissões”. Antes de o dia acabar, o presidente deu uma entrevista ao canal do clube, reagindo e dando resposta a quase tudo. Criticou quem levou a turbulência até à sua porta — “Não confundo a contestação dos adeptos com terrorismo às três e meia da manhã” –, garantiu que Peseiro é para manter na próxima época, apertou com os jogadores — “A época acabou. Quem não tiver caráter saíra do FC Porto” — e admitiu que o clube está mal: “Batemos no fundo”. Mas mostrou-se determinado a não o deixar ficar pior.

Vamos apostar numa equipa de qualidade, mas sobretudo de caráter e de identidade fortes. Não queremos jogadores que, quando entram, já estão a perguntar onde é a porta de saída.”

Quando falou já sabia que, este domingo, iria ser eleito para o 14.º mandato como presidente do clube. Só não sabia como iria sê-lo. Há três anos, Pinto da Costa foi reconduzido no cargo com 99% de votos a favor. Na passada semana, o Expresso já dava conta que muitos sócios estariam a regularizar as quotas para conseguirem ir votar. Ou protestar. Porque ver Pinto da Costa a não vencer um sufrágio portista com mais de 90% dos votos será novidade. “Candidatei-me porque verifiquei que as coisas estão mal e é preciso voltar a pôr as coisas como eram”, explicou, na semana passada. Estaria a referir-se ao pré-2013, com certeza.

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