A noite em que Hillary Clinton via a sua vida a ser consideravelmente facilitada por uma vitória eleitoral no estado de Nova Iorque foi a mesma em que Trump, apesar de ter tido o seu melhor resultado nestas primárias, percebeu que terá mesmo de fazer contas à vida — e aos delegados — se deseja chegar à Casa Branca.

Clinton está cada vez mais perto de ser a cara dos democratas nas eleições de 8 de novembro, depois de ter vencido Nova Iorque com 57,9% dos votos, contra 42,1% de Sanders (números das 6h00 de Lisboa, com 98,4% dos votos apurados). Para fechar as dúvidas, Clinton terá de chegar ao número mágico de 1.887 delegados até julho — às 4h50 (hora de Lisboa) da madrugada de quarta-feira, faltavam-lhe 496. Por isso, a ex-Secretária de Estado fez questão de referir o seu adversário, Bernie Sanders, durante o seu discurso de vitória, feito a partir do Hyatt Hotel, em Manhattan. Primeiro, para aproximar-se dos eleitores do senador do Vermont: “Acredito que há mais a unir-nos do que a separar-nos”. E, depois, para atacá-lo: “Sob as luzes brilhantes de Nova Iorque nós vimos que não chega diagnosticar os problemas, é preciso explicar como é que resolve esses problemas”.

De resto, Clinton não voltou a mencionar Bernie Sanders, deixando claro que, mentalmente, já está numa outra fase: aquela em que defrontará Donald Trump ou Ted Cruz nas eleições presidenciais de novembro. “Donald Trump e Ted Cruz estão a promover uma visão para a América que é fraturante e francamente perigosa”, disse, criticando as opções dos dois, sem distingui-los, em temas como a economia, o salário mínimo, o aborto, a imigração e os direitos dos muçulmanos. De cada vez que as posições de Cruz e Trump em relação a estes temas eram referidas, a multidão de apoiantes de Clinton lançava um ruidoso “buuuu”. As mesmas pessoas que, noutra ocasião, aplaudiram fortemente a ex-primeira-dama quando esta disse:

“Vamos manter as famílias seguras e o nosso país forte. E vamos defender os nossos direitos. Direitos civis, direitos eleitorais, direitos dos trabalhadores, direitos das mulheres, direitos LGBT e direitos para pessoas com deficiência. Estes são, afinal de contas, ‘valores de Nova Iorque’, são valores americanos, que fizeram parte da nossa e que devemos defender. Durante as eleições presidenciais e todos os dias depois delas!”

E foi também a pensar tanto em Cruz como em Trump que Clinton falou de dificuldades vindouras: “Vamos bater-nos com forças muito poderosas que vão dizer e gastar o que for necessário para nós pararmos. Mas lembrem-se: o que importa não é se nos mandam abaixo, mas sim se nós nos levantamos”. É provável que aqui a candidata democrata se estivesse a referir à investigação do FBI em torno do uso que Clinton fez de um servidor pessoal para envio e receção de e-mails profissionais no tempo em que era Secretária de Estado. Ainda é possível que Clinton venha a ser arguida no caso — e ainda não é certo se manteria a sua candidatura nesse cenário. Em março, confrontada com essa possibilidade, respondeu: “Oh, tenha a bondade, isso não vai acontecer. E eu não vou sequer responder a essa pergunta”.

Se do lado de Clinton houve um discurso de quase 20 minutos com espaço para vários temas, algumas alfinetadas e até lágrimas — a candidata emocionou-se quando falou da filha de uma professora que morreu no massacre na escola primária de Sandy Hook, que estava presente no comício —, do lado de Bernie Sanders praticamente não houve reações.

Talvez já preparado para uma derrota no seu estado-berço de Nova Iorque, Sanders foi para a Pennsylvania antes de a noite começar e não fez nenhum discurso após serem conhecidos os números. Ainda assim, mesmo antes de as urnas fecharem, o senador do Vermont queixou-se dos problemas eleitorais que impediram várias pessoas de votar por questões técnicas. A contribuir para a derrota de Sanders estará o facto de em Nova Iorque o prazo para os eleitores registados independentes (um grupo onde Sanders se dá melhor do que Clinton) se inscreverem no Partido Democrata ter acabado em outubro — mais de seis meses antes das primárias naquele estado.

Depois de Nova Iorque, onde foram disputados 239 delegados, a próxima etapa dos democratas será a 26 de abril e vai dividir-se por cinco estados (Connecticut, Maryland, Delaware, Pennsylvania e Rhode Island) e vai ter em jogo um número ainda maior de delegados: 462. Para já, as sondagens dão a vitória a Clinton pelo menos no Connecticut, Maryland e na Pennsylvania.

Trump: “É muito bom ganhar delegados com votos”

Do lado dos republicanos, Trump foi o claro vencedor, juntando 60,5% dos votos e pelo menos 89 dos 95 delegados a jogo. John Kasich, governador do Ohio e o mais moderado dos republicanos ainda em campanha, juntou 25,1% dos votos. Seguiu-se Ted Cruz, o ultraconservador que é o maior adversário de Trump mas que saiu de Nova Iorque com 14,5% e sem qualquer delegado — algo que terá sido uma consequência natural da sua crítica aos “valores de Nova Iorque” em janeiro deste ano e que não terá caído bem entre nova-iorquinos.

Tudo o que o discurso de Clinton teve, faltou no de Trump — e isso, mais do que uma prova da diferença de estilos entre os dois, é indicativo da fase em que o magnata nova-iorquino entrou. Num discurso de oito minutos aparentemente feito de improviso, o magnata nova-iorquino voltou a lançar críticas ao processo eleitoral das primárias, desta vez a partir da imponente entrada da Trump Tower, em Manhattan.

Isto porque o Partido Republicano terá uma convenção aberta caso nenhum dos candidatos consiga até julho uma maioria absoluta de delegados, isto é, de pelo menos 1 237. Trump sabe que vai à frente — mas também está consciente de que, com 845 delegados nas mãos, ainda lhe faltam 392 para chegar à cada vez mais improvável nomeação direta. Assim, a solução será uma convenção aberta em que, de acordo com as regras do partido, a maior parte dos delegados serão livres para votar nomear outros candidatos que não Trump — mesmo que tenham tido menos voto popular nas primárias ou mesmo até que não tenham participado nelas.

“Apesar de estamos a vencer por muitos e de ninguém nos poder apanhar, é impossível apanharem-nos, ninguém deve aceitar delegados e declarar vitória a não ser que ganhem esses delegados através dos votos e dos eleitores.”

Assim, mais do que criticar Clinton, Trump continuou a fazer questão de lançar farpas aos outros candidatos republicanos. O tom era de lisonja, em benefício próprio. “É como se já não tivéssemos competição. Pelo que entendo, o senador Cruz está matematicamente eliminado. Ganhámos milhões de votos a mais do que Cruz. E mais milhões e milhões de votos contra Kasich.” Ainda assim, garante que não virará a cara a uma convenção aberta: “Vamos à convenção independentemente daquilo que venha a acontecer”.

Trump voltou ainda a insistir nos temas que têm moldado a sua campanha, elencando-os com alguma rapidez, quase como se fosse uma lista de supermercado: falou da necessidade evitar o outsourcing de empregos norte-americanos; referiu o “fortalecimento do exército”, a seguir ao qual “ninguém se vai meter [com os EUA]”; a imigração ilegal e também o plano de saúde pública obra do atual Governo norte-americano pejorativamente referido como Obamacare.

Trump: “É como se já não tivéssemos competição. Pelo que entendo, o senador Cruz está matematicamente eliminado”.

Para fechar um discurso algo atabalhoado — Trump começou a falar quando o microfone ainda não estava ligado e as colunas do comício ainda tocavam a “New York, New York” de Frank Sinatra —, o magnata deixou a promessa de “voltar ao trabalho” logo no dia seguinte. “Amanhã vou voar para o Indiana, vou à Pennsylvania… Vou estar por todo o lado”, disse, hora depois de ter sido noticiado que o seu avião particular, que usa para de deslocar em campanha, não tinha a documentação em dia.

Tal como os democratas, os republicanos vão a votos no dia 26 de abril para conquistar um total de 172 delegados, sendo que a lista de estados a votos nesse dia é igual à dos democratas. Recorde-se: Maryland, Pennsylvania, Rhode Island, Connecticut e Delaware. Nos quatro primeiros, Trump aparece como favorito nas sondagens. No Delaware, os estudos de opinião ainda não são certos — algo que, na verdade, pode ser dito quanto ao futuro do Partido Republicano e do seu nomeado em novembro.