Ainda me lembro do dia em que, no meio de um grupo de frequentadores da Cinemateca, admiradores empedernidos de Kaurismaki, Kiarostami e Kubrick (só para falarmos de cineastas com apelido começado por K), proclamei o meu amor por Paul Verhoeven e disse que Robocop era uma obra-prima absoluta. A primeira reacção foi de indiferença, mas quando perceberam que eu estava mesmo a falar a sério, mostraram-se indignados como se eu tivesse dito que Danielle Steel devia ganhar o Nobel da literatura. Houve logo uns, mais sabidos, que fizeram a distinção entre a fase holandesa (muito interessante, iconoclasta, blá, blá, blá) e a fase comercialóide hollywoodesca. Concordei: “é preciso distinguir as duas fases porque a segunda é muito melhor” (na verdade, da fase holandesa eu só tinha visto o delírio homo-erótico de O Quarto Homem, mas a frase soou-me bem).

[o trailer do “Robocop” original]

Da sua fase americana, há três filmes que, juntos, formam uma espécie de trilogia de ficção científica: Robocop, Desafio Total e Starship Troopers. A esta distância, estes filmes já foram interpretados e sobre-interpretados, naquele gesto crítico que dá primazia ao conteúdo em detrimento da forma e que, no fundo, é uma forma de o crítico chamar a atenção para a sua própria perspicácia. Falarão de fascismo, violência estatal e empresarial, consumismo, manipulação dos cidadãos (e cidadãs) através das imagens, a propaganda política e comercial, o homem comum como carne para canhão, o corpo como moeda de troca, as alusões crísticas (Verhoeven faz parte do Jesus Seminar, um grupo de estudos bíblicos, e publicou um livro muito razoável sobre Jesus, editado em Portugal pela Guerra & Paz). E a verdade é que todos estes temas são explorados naqueles filmes, além de outros mais filosóficos, como a identidade e a memória (de uma forma muito marcada em Robocop e Desafio Total), mas o que os une verdadeiramente é o olhar satírico de Verhoeven, a coerência visual e o grande tema que percorre toda a sua obra, holandesa e americana, e que é o corpo, melhor, tudo o que pode acontecer a um corpo, toda a violência a que se pode submeter o corpo.

As segundas leituras são bem-vindas, mas o que importa, em primeira análise, é o realismo brutal e a carnalidade crua e ostensiva daqueles filmes. Basta ver a pobreza dos remakes de Robocop e Desafio Total para perceber o abismo que separa Verhoeven de quase totalidade dos realizadores contemporâneos de filmes de acção. Talvez porque o realizador holandês tenha uma consciência muito aguda de que a filosofia dos filmes de acção está mais na acção do que na filosofia. Hoje, sobretudo nos filmes de super-heróis, vemos como os “temas importantes” são trazidos para primeiro plano e as cenas de acção são reduzidas a mero espectáculo pirotécnico, ruidoso e redundante. Querem o estatuto de filmes de acção com cérebro. Para Verhoeven, nestes filmes, o lugar do cérebro é no chão e nas paredes, espalhado em mil pedacinhos.

TORONTO - SEPTEMBER 15: Director Paul Verhoeven of the film "Black Book" poses for portraits in the Chanel Celebrity Suite at the Four Season hotel during the Toronto International Film Festival on September 15, 2006 in Toronto, Canada. (Photo by Carlo Allegri/Getty Images)

Paul Verhoeven nasceu em Amesterdão em 1938. Tem 77 anos

Aqueles filmes são bons porque são de Verhoeven, têm o seu despudor, a brutalidade, a falta de subtileza, a afirmação da primazia do movimento, do choque, da velocidade e da morte sobre a lentidão, a imobilidade, a reflexão e a contemplação. Ou seja, cinema em estado puro. Podia ser mostrado de outra forma? Podia, mas Verhoeven sempre preferiu mostrar o que outros preferem esconder ou disfarçar sob camadas de bom gosto. Esse gesto, além de ousado e corajoso, é profundamente artístico porque indomável e pessoalíssimo. Pense-se, por exemplo, nos maneirismos insuportáveis de Brian De Palma, as assinaturas que tornam imediatamente reconhecível um filme dele mas pelos piores motivos: não está ao serviço de nada de substancial. É puro pretensiosismo.

[trailer de “Desafio Total”]

Compare-se a célebre citação que De Palma fez de Eisenstein, em Os Intocáveis – uma cena pomposa, de um suspense balofo, a abarrotar de significado para que ao espectador não lhe escape a referência cinéfila – e as suas constantes homenagens ao cinema de Hitchcock, com as alusões hitchcockianas em Instinto Fatal (Vertigo com cocaína), a sugestão riefensthaliana em Starship Troopers ou o Dirty Harry futurista que é Robocop. Acusado, e com razão, de falta de subtileza, Verhoeven mostra tudo a sua subtileza na forma como cita e se apropria de material alheio e o transforma em objectos pessoais e inconfundíveis. Enquanto De Palma copia, Verhoeven rouba.

A resistência de Verhoeven a esconder os seus filmes num embrulho arty foi a causa da resistência aos seus filmes por parte do público do cinema de autor para quem tudo o que seja atmosférico e vago é necessariamente cheio de sentido e profundidade. Verhoeven é o menos atmosférico dos realizadores, é o mais carnal. Tudo é carne, tudo é corpo: as personagens, os edifícios e os veículos são corpos que, cedo ou tarde, terão de chocar entre si e a única maneira de uma personagem aguentar o embate é tendo um corpo indestrutível: seja a armadura de Robocop, seja a massa muscular de Schwarzenegger. Nos seus filmes, os corpos são baleados, desfeitos, esventrados, mutilados, amputados, apunhalados, crucificados, chicoteados, desintegrados, despressurizados, horrivelmente transformados (a morte de um dos vilões em Robocop ou os corpos dos mutantes em Desafio Total), violados e e tudo isso é mostrado sem véus, de uma forma clínica e pornográfica, contra a corrente da violência asséptica de Hollywood que raramente é capaz de mostrar o efeito real de uma bala num corpo.

[trailer de “Starship Troopers”]

Só há outro realizador contemporâneo, entre Hollywood e as margens, a explorar o tema do corpo de forma tão substancial, coerente e assídua: David Cronenberg. A diferença é que o cinema de Cronenberg é mais reflexivo, mais cerebral (lá está, com os miolos no lugar), mesmo quando fisicamente tão chocante e brutal quanto o de Verhoeven. Diríamos que a sua abordagem da violência sobre o corpo caminha para uma metafísica enquanto a de Verhoeven é inequivocamente e cirurgicamente física. O realizador canadiano esteve mesmo para dirigir Desafio Total e é um exercício interessante imaginar alguns dos seus filmes, como A Mosca, Crash, Existenz ou Uma História de Violência (um título conceptual e anti-Verhoeviano, cujo título mais programático da sua obra será Flesh + Blood, o seu primeiro filme nos EUA), nas mãos de Verhoeven.

Verhoeven pode ter muitos defeitos (há quem diga que é bom mas não é Kurosawa, outro começado por K, como se alguém fosse Kurosawa), mas ninguém lhe pode negar a integridade artística e a vontade de, em quaisquer circunstâncias, na Europa, onde sempre gozou de total liberdade ou em Hollywood, no exercício da liberdade condicionada pelo sistema, ter procurado impor a sua visão, de querer fazer os seus filmes. Talvez o maior exemplo dessa tenacidade, dessa irredutível independência, seja Instinto Fatal.

[trailer de “Instinto Fatal”]

Durante a rodagem em San Francisco, a comunidade LGBT tentou interromper e boicotar as filmagens, argumentando que o filme alimentava estereótipos negativos sobre os homossexuais, e acusando Verhoeven e o argumentista, Joe Eszterhas, de fazerem um filme misógino e homofóbico. Eszterhas estava disponível para introduzir algumas alterações, nomeadamente a de pôr Nick Curran (Michael Douglas) a pedir autorização a Beth (Jeanne Tripplehorn) para a penetrar brutalmente e de acrescentar uma frase em que Curran diria que algumas das pessoas mais simpáticas que conhecia eram homossexuais. Mesmo sob enorme pressão, Verhoeven rejeitou qualquer suavização do argumento. Em resposta aos militantes que iam para a porta dos cinemas e revelavam o final aos espectadores, o realizador holandês disse: “Não é o facto de gritarem que faz de vocês fascistas, é a vossa recusa em aceitar que vos digam ‘não’”. Não é Kurosawa, mas é Verhoeven e é muito bom. (programação do IndieLisboa aqui)

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor do romance As Primeiras Coisas, vencedor do prémio José Saramago em 2015