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Pedro Rapoula: “Há um ‘boom’ da literatura portuguesa na Colômbia e deve-se muito à feira de Bogotá”

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O novo diretor da Feira Internacional do Livro de Bogotá é português: Pedro Rapoula. Esta é a segunda maior feira da América Latina, onde os autores portugueses vendem e muito. Mas não é por acaso.

EITAN ABRAMOVICH/AFP/Getty Images

Autor
  • Tiago Palma

A 29.ª edição da Feira Internacional do Livro de Bogotá [FILBo], a segunda mais importante da América Latina (só ultrapassada pela de Guadalajara), abriu esta terça-feira portas no Centro Internacional de Negócios e Exposições — Corferias Bogotá. Prolongar-se-á até 2 de maio.

O novo diretor é português e chama-se Pedro Rapoula. Aos 39 anos, Pedro Rapoula foi até há pouco tempo conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Bogotá. Foi também ele um dos 12 candidatos ao cargo de diretor da FILBo. E foi o primeiro estrangeiro a consegui-lo.

Natural de Leiria, Pedro Rapoula foi assessor para a Cultura do ex-Presidente da República Cavaco Silva entre março de 2006 e janeiro de 2013 — e foi por ele condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Estudou Relações Internacionais na Universidade de Coimbra e, depois de um estágio na UNESCO, em Lisboa, trabalhou em marketing, relações institucionais e imagem no grupo Santander Totta.

Na Colômbia, para lá de conselheiro cultural na Embaixada de Portugal, foi também o responsável pelo Gabinete de Relações Internacionais do Instituto das Artes de Bogotá durante um ano. Retornaria à Embaixada depois de ser pai.

A FILBo é visitada por mais de 600 mil pessoas todos os anos. Colombianos e não só. E inclui um programa que conta com mais de 1.500 eventos culturais, entre conferências com escritores, lançamentos de livros ou encontros de edição. Este ano, entre os autores portugueses presentes na feira, destacam-se João de Melo, Francisco José Viegas, Dulce Maria Cardoso, Isabela Figueiredo e Valter Hugo Mãe. No stand de Portugal far-se-á uma homenagem a Vergílio Ferreira.

Sobre tudo isso, o sucesso dos autores portugueses na Colômbia, mas também a surpresa e os desafios de se ser diretor da FILBo, conversou o Observador com Pedro Rapoula.

Créditos: Pedro Corrêa da Silva

Créditos: Pedro Corrêa da Silva

Como é que o Pedro, que até se licenciou em Relações Internacionais, de repente se vê a trabalhar no setor da Cultura e, sobretudo, como é que vai parar à Colômbia para lá viver?

À Colômbia venho parar por razões pessoais. A minha família mudou-se para aqui. É meramente pessoal essa mudança. Quanto à sua pergunta sobre a Cultura e a gestão cultural, é verdade que eu estudei Relações Internacionais, mas, como é de se imaginar, ao longo da nossa vida profissional as escolhas fazem-se quase sozinhas. Os desafios foram-me aparecendo na vida, um a um, e encaminhando-me nesse sentido, o da gestão cultural.

O cargo de diretor da FILBo não é uma nomeação apenas. Ou seja, há um processo prolongado de candidatura, de entrevistas várias. E o Pedro teve que superar todo esse processo para aqui chegar. Pergunto-lhe: quando é que resolveu candidatar-se ao cargo? E como é que foi esse processo de seleção? Duro, presumo.

O processo de seleção começou há mais ou menos dois meses. Talvez mais — confesso-lhe que perdi um bocadinho a noção do tempo. A atual diretora [Adriana Martínez-Villalba] teve um convite profissional para editar. Ela era editora antes de ser diretora da feira. E resolveu sair. Entretanto, contactaram-me da Câmara Colombiana do Livro, disseram-me que estavam à procura de candidatos para diretor e perguntaram se eu estava interessado em candidatar-me ao cargo. Quando começou o processo de seleção, fui a várias entrevistas, a testes psicotécnicos — mais vocacionados para a área da gestão cultural –, e depois vieram mais entrevistas ainda, até que chegou a decisão final.

Este é sobretudo um ano em que o Pedro vai à feira para observar como se faz. No final da feira, aí sim, ocupará o lugar de diretor.

É exatamente isso. Esta feira começou ontem [terça-feira]. Mas é uma feira que começa a organizar-se durante a própria feira do ano anterior, com um ano de antecedência. Quando cheguei, toda a programação estava definida. Portanto, eu estou aqui para receber o testemunho, para aprender in loco como é que tudo isto se faz. Mas a minha responsabilidade nesta feira não é necessariamente zero. A minha responsabilidade prende-se com os autores portugueses, porque isso resulta do trabalho que eu estava a fazer na Embaixada [de Portugal em Bogotá].

Na embaixada, como conselheiro cultural, qual era exatamente o seu trabalho na ligação entre os autores portugueses e os leitores na Colômbia?

Cheguei à Embaixada em 2013, para apoiar a participação portuguesa no ano em que Portugal foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Bogotá. Estive um bocadinho menos de um ano na embaixada a acompanhar todo este processo, fiz a feira, e é curioso que nessa altura conheci toda esta equipa com quem venho trabalhar agora. Entretanto, na Embaixada começámos a desenvolver mais ainda esta presença intensa de escritores portugueses na Colômbia, porque há uma abertura muita grande dos colombianos à literatura portuguesa.

[Fernando] Pessoa era muito conhecido, era o mais conhecido de todos. Conhecia-se igualmente o Eça de Queirós, [António] Lobo Antunes e [José] Saramago. Depois, com a feira e com esta presença constante de escritores portugueses nela, criou-se um conhecimento maior dos nossos autores. E posso-lhe dizer que, por exemplo, o Afonso Cruz aqui é uma estrela planetária ou quase. O Valter Hugo Mãe também. Este ano já tivemos cá o Nuno Júdice, a Filipa Leal e outros.

Tem havido uma presença constante dos escritores portugueses, não só na Feira Internacional do Livro de Bogotá, mas também em outros eventos literários pelo país, como por exemplo o Hay Fest, em Cartagena das Índias, ou o festival de literatura de Medellin. E a Embaixada de Portugal em Bogotá tem contribuído para essa vinda. Ou ajudado.

Na opinião do Pedro — e conhecendo como conhece os autores portugueses e os leitores colombianos –, o que é que leva os leitores da Colômbia (e os sul americanos em geral) a gostarem tanto dos autores de Portugal. Falámos do Afonso Cruz, de Fernando Pessoa…

Eu acho que o conhecimento que existia de autores portugueses, era um conhecimento mais académico, ou mais de uma elite que lia e que conhecia. Este boom da literatura portuguesa na Colômbia neste momento deve-se muito à feira de Bogotá, ao Portugal país convidado da feira em 2013. Nessa altura foram feiras praticamente 40 traduções locais de autores portugueses. E visitaram a feira cerca de 30 escritores portugueses. Portanto, antes a Colômbia não conhecia Portugal literariamente. E a feira teve essa virtude de abrir portas e de dar a conhecer o nosso país aqui na Colômbia.

O que também foi importante, e seria injusto se não o referisse, foi o trabalho do professor Jerónimo Pizarro, que é hoje em dia um dos maiores especialistas mundiais de Fernando Pessoa e que é colombiano. Muitas das traduções que têm sido feitas, têm-no sido por iniciativa dele. Há, hoje, editoras que têm chancelas só dedicadas a autores portugueses, como é o caso da Tragaluz, que tem editado recorrentemente autores portugueses numa coleção a que chamou de “Lusitânia”.

Há um interesse crescente que tem a ver com essa conjugação de esforços. Não acho que seja o trabalho de uma pessoa só. Para o Instituto Camões a América Latina é uma prioridade neste momento. Tudo isso ajuda a que haja um boom de literatura portuguesa aqui.

É verdade que Portugal foi o país convidado em 2013. Mas o trabalho de divulgação dos autores portugueses na feira não terminou aí. Dos portugueses, e dos colombianos por portugueses. O que é o salão de direitos de autor?

O salão de direitos de autor é um lugar de negócio. Ou seja, é onde chegam as editoras estrangeiras para comprar os direitos de autor de autores nacionais. Tem importância no sentido em que é uma porta de saída — ou de entrada, dependendo da perspetiva — para que a literatura colombiana possa circular pelo mundo. A importância é grande. Este ano é a primeira vez que se faz o salão de direitos de autor, com o apoio da Booktailors, que é portuguesa. A ideia é que isto possa crescer e que nos próximos anos Bogotá se possa transformar num centro importante de compra e venda de direitos de autor.

O Pedro conhece o universo editorial em Portugal. E agora também o conhece na Colômbia e na América Latina. Como é que está o setor do livro na Colômbia, em termos de editoras, em termos de autores, também de vendas? Os colombianos são leitores ávidos?

O facto da Feira Internacional do Livro de Bogotá ter, em duas semanas apenas, mais de meio milhão de visitantes, é significativo da importância que a leitura tem para a Colômbia. É evidente que isto é um país muito grande. Mas o governo tem como meta – ainda ontem [terça-feira] no discurso de inauguração o presidente [Juan Manuel] Santos o dizia — que os colombianos leiam uma média de 3,2 livros por ano. Isto quer dizer que há trabalho a ser feito. Há um investimento muito grande do governo nos planos de leitura. Há também um programa do ministério da Cultura, que se chama “Leer es mi cuento”, e que tem feito um esforço por dotar as bibliotecas públicas de livros atuais, promovendo a leitura.

A partir de 2017 a Feira Internacional do Livro de Bogotá já será organizada pelo Pedro. E vai ser uma feira com dois desafios muito particulares para si. Um deles, o facto de ser uma edição de aniversário. E outro, o facto do país convidado ser a França.

O desafio maior são mesmo os trinta anos da feira. Cabe-me a mim a responsabilidade de fazer um balanço daquilo que foi a feira desde a sua criação. E, recém-chegado que sou, isto parece um trabalho bastante arriscado. Mas eu tenho dedicado estes últimos tempos a conhecer a história da feira. O desafio é revisitar tudo sem deixar nada de fora. Porque são 29 anos até agora, a feira passou por várias fases — estes últimos sete, oito anos são os anos mais pujantes da feira — e é evidente que esse é o grande desafio: tratar essa historia com o destaque que ela merece.

Depois, há a França como país convidado da feira. Acho que é uma sorte enorme para mim, porque a França é um país riquíssimo literariamente, e isso ajuda. Seria mais complicado trabalhar com um país cuja literatura fosse menos conhecida ou dela houvesse menos traduções. E o facto de a França ser esse país, com essa literatura tão rica, com esses autores todos traduzidos para língua espanhola ou quase, ajuda muito naquilo que será a constituição da programação para o ano.

O trabalho do Pedro enquanto diretor da feira não termina com a feira. Há outras feiras pelo mundo, de Guadalajara a Bolonha, em que o trabalho do Pedro é o de levar a literatura colombiana, e os autores colombianos, a esses lugares.

O cargo que eu tenho é o de diretor de feiras da Câmara Colombiana do Livro. E isso implicado não só a organização da feira de Bogotá, como a participação colombiana em feiras internacionais. Este ano, de feiras internacionais, ainda temos Lima, Panamá, Frankfurt e Guadalajara. São quatro.

Mas há, para além dessas, as feiras regionais, que são as que mais me motivam, confesso. São conjunto de feiras um pouco por toda a Colômbia, que a Câmara Colombiana do Livro apoia, e até ao fim do ano tenho pelo menos mais cinco para preparar: Cali, Medellin, Pasto, Cucuta e Bucaramanga. Essas cidades, esses leitores, precisam das feiras, porque têm poucas livrarias locais e, nesse sentido, o acesso aos livros é um bocadinho mais difícil. Estas feiras regionais dão-me imensa satisfação porque vamos fazer a diferença na vida de vários leitores.

Muitos portugueses não conhecem o seu percurso na Cultura. E ficaram surpreendidos ao saber que um português foi nomeado para diretor da segunda maior feira do livro da América Latina. Para si também foi uma surpresa? E quais são desafios que se lhe põem a partir de agora?

Não lhe vou dizer que recebi com surpresa a notícia — porque se estava no processo de seleção, havia sempre a possibilidade de ser eu o escolhido –, mas é evidente que me passou várias vezes pela cabeça que este lugar naturalmente seria entregue a um colombiano e não a um estrangeiro. O facto de terem arriscado ao escolher-me, de terem escolhido um estrangeiro para o lugar, motiva-me e sei que é com esta equipa que quero trabalhar daqui em diante. Até hoje nunca houve um diretor estrangeiro. Eu sou o primeiro diretor estrangeiro. Para o bem ou para o mal e com os riscos todos que isso acarreta.

Os desafios são vários. O primeiro desafio é vencer os obstáculos daqueles que entendem que este lugar não deveria ter sido entregue a um estrangeiro. Também há esse grupo de pessoas. E minha intenção também é provar-lhes que eu sou capaz de fazer isto e o facto de ser português não me incapacita de dirigir uma feira que é maioritariamente dedicada à literatura colombiana.

Depois, como disse no começo, o que quero é conhecer bem a feira e respeitar o seu passado, a sua história, e fazê-la crescer naquilo que for possível crescer. Seria muito ambicioso dizer que gostávamos de ser a primeira feira do livro da América Latina e não a segunda. Mas o caminho faz-se caminhando, não é? E há uns anos a feira de Bogotá era a terceira maior e hoje já é a segunda. Isso significa que houve um trabalho bem feito e que é esse trabalho que tem que ser continuado. E ver se algum dia podemos ser a primeira feira da América Latina. Esse é o desafio.

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