Depois da desgraça causada pelo Tondela deve ter havido uma reunião. Inaceitável, tal coisa não podia acontecer, quanto mais voltar a ver-se. Treinador e presidente terão falado para acertarem as agulhas no que o segundo queria e no que o primeiro teria que fazer. Uns dias passaram até quem ordena dizer, em entrevista, que os jogadores teriam que provar que mereciam ficar por ali na próxima temporada. Como é a mesma pessoa que dá os treinos e decide quem, depois, joga no fim de semana, isto passava a depender muito de José Peseiro. Ou talvez não, pois quer goste ou não do que veja os jogadores fazerem, o treinador pode apenas seguir o guião escrito pelo presidente e ficar à espera do que ele lhe vai dando.

Só que, das duas, uma. 1. Ou o presidente e o treinador já imaginam com quem contam e, desde então, passaram a querer jogar sempre com esses jogadores; 2. Ou ainda não descortinaram quem é para cortar e quem é para manter e, por isso, estão a dar minutos a quem ainda tinha poucos. Para tirarem dúvidas. Se for a segunda hipótese, deduz-se que Layún, Brahimi e Aboubakar têm ficado no banco ou em casa por estarem seguros para a próxima época. Mas, se for a primeira, os três que pesos que pareciam ser pesados nos dragões poderão já não contar para o que Peseiro e Pinto da Costa querem para o FC Porto.

Sem eles, a equipa vencera o Nacional (4-0) no Dragão e foi sem eles que começou a perder em Coimbra. A bola andava quase sempre em pés portistas, ia de um lado ao outro rápido e eles até precisavam de lhe tocar poucas vezes para a fazerem rodar, mas bastou um contra-ataque. À segunda vez que a Académica se aproximou da área, Maxi deixou Rafael Lopes escapar-lhe nas costas e dar-lhe uma razão para uruguaio o agarrar. A falta deu em livre e a bola parada acabou no golaço que Pedro Nuno fez entrar pela gaveta superior direita da baliza de Helton. O mesmo miúdo que marcara primeiro ao Benfica abria o marcador na receção a outro grande.

I Liga : Acedemica vs FC Porto

Foto: Ivan Del Val/Global Imagens

A causa do golo resumia o eram os dragões: uma equipa a divertir-se com a bola, a arriscar q.b. e a fazê-la chegar com facilidade à área contrária, mas a ser lenta quando era preciso correr para trás ou pressionar os adversários quando perdia a bola. Mas isso passou a contar pouco quando, oito minutos depois, tudo o que há de feio num lançamento lateral longo para a área deu outra coisa bonita ao jogo. Maxi lançou na direita, alguém da Académica cortou para a entrada da área e Sérgio Oliveira aproveitou o ressalto para, de cabeça, tocar a bola para Rúben Neves. Não estava a mais de dois metros um do outro e o médio teve pouco tempo e espaço para pensar.

Pensou em rematar a bola como tantas vezes a passa — com a parte de dentro do pé direito –, sem a deixar bater na relva, e fê-la sobrevoar Pedro Trigueira e deixar o guarda-redes a vê-la entrar na baliza. Um golaço respondia ao outro (até Layún, a ver o jogo no sofá, vibrou) e a equipa que só atacava ia para o intervalo empatada com a que apenas conseguia defender. Na segunda parte a Académica quis dar a volta a esta lógica e as faltas, roubos de bola e ataques que duravam pouco sucederam-se. Os estudantes queriam bater mais o pé aos dragões e aí se viu como Varela, Sérgio Oliveira, André Silva ou José Ángel têm jogado pouco esta época. Não tinham a bola com calma, não se decidiam pelo melhor e não mantinham o ritmo da primeira parte.

Peseiro viu isto e foram os dois homens que muitos minutos já tiveram a fabricar uma situação. André André precisou de dois toques na bola para lhe fazer a escala da direita para a esquerda e Brahimi esperou até Ángel lhe passar nas costas e arrastar o lateral. Depois houve a sorte de a bola desviar no corpo de Hugo Seco e a falta de pontaria do pé direito de André Silva, que não acertou na bola. O cruzamento de trivela de Brahimi entrava na baliza da Académica. O desviou enganou o guarda-redes e o resultado, que se manteve até ao fim, pode enganar quem não viu o jogo.

Porque, nos 25 minutos que ainda se jogaram — e mesmo que André Silva e Corona quase tenham marcado –, Pedro Nuno teve dois remates à entrada da área que mostraram como se põe a jeito como não pode por. Que é ter os médios a recuarem no campo a passo ou os extremos a deixarem os laterais a defenderem sozinhos. E mostraram o que tinha conseguido esconder no 4-0 da semana anterior: que os jogadores que menos minutos tinham até à derrota com o Tondela ainda têm de fazer mais para José Peseiro e Pinto da Costa ficarem sem dúvidas. Isto se for a segunda hipótese. Se for a primeira, esses jogadores têm de jogar mais. Qualquer que ela seja, o FC Porto garantiu que, na pior das hipóteses, chegará com menos 10 pontos que o Sporting ao clássico do próximo fim de semana, no Estádio do Dragão. Vamos ver quem joga aí.