Diz-se que as mulheres que têm período durante menos tempo têm menor probabilidade de desenvolver cancro do ovário. Uma equipa norte-americana decidiu confirmar se ter menos ovulações está realmente relacionado com a diminuição deste tipo de risco. Parece que não. Pelo menos segundo um estudo publicado pela revista científica International Journal of Cancer.

“Ao contrário das expectativas, as mulheres com um ciclo menstrual irregular tinham um maior risco de cancro do ovário e de mortalidade [relacionada com esse cancro] nos 50 anos de acompanhamento”, escrevem os autores no artigo. E o risco será maior com a idade. As mulheres com períodos irregulares têm o dobro do risco de incidência e mortalidade até aos 70 anos e o triplo de risco com 77 anos.

O estudo contou com os dados de 15.528 mulheres californianas seguidas ao longo de 50 anos. Todas as mulheres foram recrutadas pela Fundação Kaiser entre 1959 e 1966, num estudo sobre gravidez, para o qual se registou também a irregularidade da menstruação aos 26 anos. Cerca de 13% das mulheres incluídas no estudo tinha períodos irregulares, como ciclos mais longos do que 35 dias ou períodos em falta.

“Este estudo é certamente curioso, porque contradiz o que sabíamos sobre o cancro do ovário e a ovulação contínua”, disse, citado pela Science Magazine, Mitchell Maiman, obstetra e ginecologista do Hospital Universitário Staten Island (Nova Iorque), que não participou no estudo. A ideia generalizada era que a pílula contracetiva, a gravidez e a laqueação das trompas reduziriam o risco de cancro do ovário, provavelmente por diminuírem a frequência das ovulações.

Apesar de o cancro do ovário só representar cerca de 3% dos cancros nas mulheres, é a principal causa de morte por cancro ginecológico, refere a Science Magazine. Menos de metade das mulheres diagnosticadas com cancro do ovário sobrevivem mais do que cinco anos. Por um lado, os sintomas da doença passam facilmente despercebidos. Por outro, não existem programas de rastreio estabelecidos. A confirmar-se os resultados agora publicados, as mulheres com ciclos menstruais irregulares, podem ser um público-alvo para este tipo de rastreios.

Os principais fatores de risco conhecidos para o cancro do ovário eram a idade e a predisposição genética. Os resultados agora divulgados colocam a menstruação irregular como um fator de risco tão grande como o historial familiar, segundo as conclusões da equipa de Barbara Cohn, investigadora no centro de Estudos de Saúde e Desenvolvimento da Criança no Instituto de Saúde Pública (Berkeley).

Os inquéritos iniciais às mulheres que fizeram parte deste estudo foram feitos há 50 anos, hoje em dia as perguntas poderiam ser diferentes ou incluir outros diagnósticos que na altura não estavam disponíveis, como a deteção da síndrome do ovário poliquístico. Esta síndrome está relacionada com períodos irregulares ou ausentes e sabe-se que é um fator de risco para o cancro do endométrico, mas, por enquanto, os estudos feitos sobre a relação com o cancro do ovário são ainda inconclusivos.

O trabalho agora publicado não desacredita nem contraria verdadeiramente o conhecimento anterior, mas o facto de apresentar resultados inesperados pode abrir a porta a novos caminhos de investigação e a uma maior preocupação com o diagnóstico da doença.