Hoje é dia de cinema português nestas escolhas do Indie 2016, representado pelo documentário de João Botelho “O Cinema, Manoel de Oliveira, e Eu” (Sessões Especiais, Culturgest-Grande Auditório, 18h00). É uma homenagem do realizador de “Os Maias” e um panegírico emocionado a Oliveira e ao seu cinema, que abre com uma foto com quase 40 anos, em que um jovem João Botelho aparece ao lado do autor de “Francisca”, que tinha tido uma pequena participação na sua primeira longa-metragem, “Conversa Acabada” (1980) — formalmente, bastante devedora do cinema deste –, interpretando o padre que dá a extrema-unção a Fernando Pessoa (Luiz Pacheco, na sua única participação num filme).

Após fazer uma rápida e sintética apreciação da obra de Oliveira, em que refere várias das coisas que aprendeu com ele, e frisa a absoluta singularidade do seu idioma cinematográfico, tudo ilustrado com imagens de uma série das suas fitas, Botelho preenche a segunda parte de “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu” com a adaptação de uma história que o realizador planeou filmar mas nunca conseguiu, “A Rapariga das Luvas”. Trata-se de um rasgado melodrama de prostituição com fumos sociais, ambientado no Porto das décadas de 20/30, e que se teria chamado “Prostituição”, se Oliveira o tivesse chegado a fazer.

Esta história inédita escrita por Manoel de Oliveira é rodada por João Botelho como um filme mudo, a preto e branco, com uma estética e uma atmosfera muito próximas das de algumas das fitas que assinou nos anos 80, caso de “Um Adeus Português” e “Tempos Difíceis”, embora vários dos planos pareçam ser deliberadamente “oliveirescos”. Entre os intérpretes, encontramos Leonor Silveira, no papel da dona do bordel onde a protagonista acaba por ir trabalhar. “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu” é, assim, um documentário que desagua numa ficção, direta ou indiretamente sempre sob o signo das imagens e das palavras de Oliveira.