O filme “Cartas de guerra”, de Ivo M. Ferreira, que teve estreia mundial em fevereiro, em Berlim, é exibido hoje, em Lisboa, nos 42 anos da Revolução de Abril, numa sessão especial na Culturgest, no âmbito do festival IndieLisboa.

“Cartas de guerra” inspirou-se no livro “D’este viver aqui neste papel descripto – Cartas de guerra”, que inclui as cartas que o escritor António Lobo Antunes escreveu à primeira mulher, de 1971 a 1973, durante o tempo em que esteve em Angola, a servir o exército, na guerra colonial.

“É sobretudo uma história de amor e isolamento e de como um Estado pode privar mais de um décimo da população das suas vidas, contaminando um país inteiro. É uma declaração de amor e uma questão de sobrevivência”, explicou o realizador à agência Lusa, em fevereiro, quando o filme passou em Berlim.

O cineasta referiu que, apesar de se focar num tema importante da História de Portugal, como é o caso da Guerra do Ultramar, o filme não deve ser entendido como “didático”.

“Não é um filme didático mas o facto de tratar os assuntos e tirá-los das prateleiras é positivo para gerar conversas à volta do assunto, que ainda é tabu. Depois do 25 de Abril, foi atirado para o caixote das histórias más. Em 1971, no período em que o filme se passa, já toda a gente tinha consciência política de que aquilo era um disparate e uma agonia”, declarou o cineasta em Berlim.

A voz narrativa de Margarida Vila-Nova, atriz que interpreta Maria José, está presente em grande parte da película, uma vez que lê os aerogramas escritos por António Lobo Antunes, que serviram de inspiração a esta longa-metragem rodada a preto e branco.

“A minha vontade de fazer o filme surgiu quando a Margarida [casada com o realizador] estava grávida e, ao chegar a casa, vejo-a a ler as cartas para a barriga. Houve uma ressonância bastante forte”, lembrou então Ivo M. Ferreira à Lusa.

A terceira longa-metragem de Ivo M. Ferreira conta com um elenco com mais de quarenta atores, entre os quais Miguel Nunes, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz e Simão Cayatte, além de Margarida Vila-Nova.

Miguel Nunes, no papel de António, quando da estreia do filme em Berlim, disse à Lusa que gravar em Angola foi um “confronto com a realidade e um choque de culturas”, quer a nível profissional, quer pessoal.

“A minha família nasceu em Angola e mudou-se para Portugal com o 25 de Abril. Por um lado, achei que aquela terra também me pertencia de alguma forma, como eu ouvia falar de Luanda e de Sá da Bandeira. Chegar lá e perceber que nada daquilo é o que me tinha sido contado foi uma perceção imediata”, referiu o ator.

Miguel Nunes afirmou que interpretar o papel do alferes médico António Lobo Antunes foi “um grande desafio”, servindo-se “de um retrato emocional de Angola muito bem descrito no livro” para se aproximar da personagem.

“Não tive encontros com ele, porque António decidiu assim. Foi uma postura muito cordial, a qual respeito muito, porque ele não desejava que eu, de alguma forma, me sentisse vigiado”, adicionou o ator.

Depois da estreia mundial em Berlim, “Cartas da Guerra”, produzido por O Som e a Fúria, foi exibido no Festival Literário de Macau, em março, e deverá estrear-se nos cinemas portugueses no segundo semestre deste ano.

O festival IndieLisboa teve início na passada quarta-feira, 20 de abril, e encerra a 01 de maio, com a exibição de “L’avenir”, filme que valeu este ano a Mia Hansen-Love o prémio de melhor realização, no Festival de Berlim.