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O soldado suspeito da autoria do crime que vitimou onze pessoas (oito soldados e três civis) num posto militar permanente junto à central de telecomunicações da ilha de Santiago, em Cabo Verde, foi detido, confirmou a Polícia Nacional ao jornal “A Nação”. Manuel António Silva Ribeiro, que estava a monte desde terça-feira, foi encontrado após uma operação da Polícia Nacional no bairro da Fazenda, na Cidade da Praia. O militar de 21 ou 23 anos está neste momento a ser interrogado na esquadra da Achada de Santo António e depois será presente ao Tribunal da Comarca da Praia.

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Esta manhã, o ministro da Administração Interna, Paulo Rocha, já tinha confirmado que as autoridades cabo-verdianas estavam a realizar várias operações policiais em diversas regiões da Cidade da Praia em busca do soldado em fuga, mas escusou-se a dar mais pormenores. Suspeitava-se que Manuel Ribeiro, mais conhecido por “Antany Silva”, estivesse escondido numa residência nesta ilha cabo-verdiana.

As notícias que chegam de Cabo Verde descrevem “Antany Silva” como um jovem soldado com idade entre os 21 e os 23 anos – a informação ainda é contraditória -, natural da Cidade da Praia e filho de pais originários da Ilha do Fogo. A mãe é emigrante nos Estados Unidos. O soldado entrou nas Forças Armadas há um ano. Agora é suspeito de ter morto onze pessoas por “motivos pessoais”, como foi avançado na terça-feira à noite pelo governo de Cabo Verde. As primeiras notícias associavam o massacre às redes de narcotráfico que começam a adensar-se neste país insular africano, mas este dado não foi confirmado, avançando-se então para a tese do suspeito único.

Contornos do crime: uma fotografia e mais duas pessoas na lista do soldado

Os familiares de “Antany Silva” já tinham confessado à Polícia Nacional de Palmarejo que o soldado tinha conversado com eles e confessado o crime, escreve a agência de notícias Oceanpress. Depois de cometer o crime, o homem na casa dirigiu-se para casa de parentes nessa região da Cidade da Praia – que é mesmo ao lado da zona onde acabou por ser encontrado -, mas não explicou quais as motivações por detrás do crime.

Contou, no entanto, que quando acedeu ao destacamento militar no Monte Txota chamou as onze pessoas uma a uma e matou-as com tiros de AKM, uma arma semelhante às kalashnikov. Na casa desses familiares foi encontrada uma dessas armas, apreendidas pelas autoridades. A agência noticiosa cabo-verdiana avança ainda que “Antany Silva” fotografou a cena do crime depois de ter morto os oito soldados e os três civis (dois espanhóis e um cabo-verdiano) presentes no posto militar. O objetivo da fotografia era “provar à família que tinha sido mesmo ele” a matar aquelas pessoas, contaram os familiares à Polícia Nacional. Na lista e alvos que “Antany” queria matar estariam ainda mais duas pessoas, garantiu a família à polícia: um taxista e o padrasto.

O soldado cabo-verdiano terá dormido em casa de domingo para segunda-feira, onde terá sido visto na posse de várias armas e a esconder dinheiro debaixo do colchão de casa, diz a Oceanpress. Os colegas de liceu de “Antany Silva” descrevem-no, contudo, como uma pessoa tranquila: “Era sempre na dele, não mexia com ninguém. Às vezes aprontava alguma travessura, mas isto era normal entre os meninos da nossa época”.

Quem são os civis mortos?

O único cabo-verdiano

Era casado, pai de dois filhos e trabalhava como informático e professor na Universidade Lusófona, em São Vicente. Danielson Monteiro – tratado pelos amigos como Daniel Sorriso – foi o único civil cabo-verdiano encontrado morto esta terça-feira no destacamento militar junto ao mais importante centro de telecomunicações do país.

Residente em Chã de Alecrim, o homem tinha pedido uma licença à universidade para trabalhar em nome de uma empresa num projeto na central de Monte Tchota. Com ele estavam dois trabalhadores de nacionalidade espanhola que também foram mortos.

Os dois espanhóis

As identidades dos dois espanhóis encontrados mortos em Cabo Verde ainda não foram reveladas, mas a comunicação social hispânica já tem algumas informações. Ambos estavam de serviço na central de telecomunicações no Monte Txota, a mais importante daquele país insular, na ilha de Santiago.

Eram funcionários da DF Núcleo, uma empresa explorada pela multinacional asturiana Duro Felguera. Tinham viajado para Cabo Verde, onde se encontraram com o informático cabo-verdiano no âmbito de um projeto de revisão de antenas telefónicas no país. A própria empresa ainda está à espera de mais informações sobre o que aconteceu aos dois funcionários. No entanto, o El Mundo escreve que havia outro trabalhador espanhol no local que conseguiu fugir.

O mais novo dos técnicos de telecomunicações mortos tinha 31 anos, enquanto o outro era vinte anos mais velho.

24 horas para descobrir o crime?

No mesmo dia em que foram encontradas as onze pessoas mortas no Destacamento Militar do Monte Txota, uma viatura branca da marca Terios foi encontrada abandonada na zona da Cidadela, na Cidade da Praia, com uma arma militar no seu interior e mais de mil munições. As autoridades assumiram desde o início que os dois eventos estariam realizados, porque a última vez que o veículo foi intercetado havia sido na segunda-feira às 10h00 em São Domingo.

Várias testemunhas oculares afirmaram à agência Oceanpress que viram um “indivíduo branco, mas que aparentava ser cabo-verdiano” a conduzir a viatura Terios. Mas outros afirmam que viram de facto o soldado suspeito da morte das 11 pessoas a conduzir esse carro. Entretanto, as autoridades descobriram que esse Terios embateu num Toyota Hyace estacionado em São Domingo: o carro, que a polícia descobriu ter sido alugado pelos civis mortos, viajava em excesso de velocidade numa estrada que ligava a vila de São Domingo à Cidade da Praia. Foi precisamente na capital cabo-verdiana que o Terios foi encontrado com sinais de ter tido um acidente no lado direito.

Esse acidente entre o Terios e o Toyota terá acontecido mesmo em frente à agência do Banco Comercial do Atlântico em São Domingo, por isso as autoridades esperam conseguir mais informações – nomeadamente a hora a que o veículo passou naquele local – através da análise das imagens das câmaras de videovigilância. Se os dois eventos estiverem realmente associados, “Antany Silva” terá morto as 11 pessoas e depois fugido no carro dos trabalhadores de telecomunicações ainda no dia anterior, segunda-feira, dia 25 de abril.

O alerta das Forças Armadas foi dado só na terça-feira, dia 26, quando a instituição informou as autoridades que não recebia notícias daquele destacamento de oito elementos desde o dia anterior. A gerência do hotel onde os trabalhadores estavam hospedados também confirmou nessa altura que os técnicos espanhóis não tinham regressado.

Luto nacional

O governo cabo-verdiano decretou dois dias de luto nacional, em vigor desde a meia-noite desta quarta-feira, em homenagem aos onze mortos encontrados no posto militar de Monte Txota, ilha de Santiago em Cabo Verde. “Este é um dos acontecimentos mais dolorosos da História de Cabo Verde”, considerou o executivo na resolução do Conselho de Ministros publicado esta manhã em Boletim Oficial.

As autópsias aos oito soldados e aos três civis encontrados sem vida no departamento, próximo da mais importante central de telecomunicações do país, começaram esta quarta-feira no Hospital Agostinho Neto, na Cidade da Praia. Entre os civis mortos estão dois espanhóis, que trabalhavam nessa central de comunicações na altura do crime. Os seus corpos serão transladados para Espanha assim que as investigações médicas terminarem.

Entretanto, três dos oito militares mortos serão enterrados ainda esta quarta-feira por indicações médico-legais, informou o Governo cabo-verdiano nos concelhos de São Domingos e Santa Cruz, ilha de Santiago. Todos os funerais terão honras militares e atualmente decorre num quartel da Praia uma cerimónia com a presença do Presidente da República e do Primeiro-Ministro de Cabo Verde.

“Sabemos que nenhuma palavra e nenhum ato substitui a dor que os familiares sentem neste momento e em nome do governo de Cabo Verde quero expressar as mais sentidas condolências”, disse o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva numa conferência, conta a agência Lusa. Correia e Silva prometeu ainda “avaliar as medidas que se impõem para que o sistema de segurança e defesa nacional seja aprimorado e melhorado de forma significativa, que na sua expressão interna, quer externa”.