Peçamos de empréstimo a Rui Reininho a inspiração para começar a crónica. Caetano e Gilberto sozinhos em palco, só eles e os violões, uma mesinha ao meio com qualquer coisa que se beba e o público diante deles. “Dois Amigos, um Século de Música” é o nome da digressão que os tem levado pelo mundo desde 2015, com cinco paragens entre nós: uma no verão passado, a fechar o EDP Cool Jazz, duas no início da semana, no Porto, e estas duas, ontem e hoje, em Lisboa. Não é só a parte do século de música que interessa; é a parte dos dois amigos. É ela que está em todos os silêncios e entrelinhas do concerto de ontem, no Coliseu. É ela, certamente, em todos os silêncios e entrelinhas desde há muito tempo.

Caetano e Gil. Os irmãos de pais diferentes e cores diferentes que nasceram no mesmo verão, na mesma Bahia. Que estudaram juntos, compuseram juntos, tocaram juntos, foram presos e exilados juntos e regressaram juntos a um Brasil que, sem eles, seria outra coisa qualquer. Não é o século de música que interessa – a soma dos 50 anos de carreira de cada um; são os quase 150 anos que, somados, já levam desta vida.

caetano veloso, gilberto gil,

Caetano abre a noite cantando “Back in Bahia” de Gil; Gil devolve com o “Coração Vagabundo” de Caetano. Seguem-se “Tropicália”, com uma falha técnica no micro ao longo de toda a canção que Caetano não comenta (e que os ouvidos de alguém devem ter pagado caro no fim da noite) e a “tropical melancolia” de que falam “Marginália 2”, as rugas e cabelos brancos dos cantores. Gil dá então as boas noites à Lisboa que, a seguir, se derrete na primeira ovação a propósito de “É Luxo Só”, evocação desse outro notável bahiano: João Gilberto. Caetano pousa a guitarra e concentra-se na voz para se entregar àquele extraordinário casamento da sua doçura aguda com a quente rouquidão de Gil.

Quem chega a esta tournée, são estes dois homens que não precisam de falar, que se entendem de olhos fechados. E embora qualquer um deles já tenha subido ao palco suportado pela maior parafernália musical, desta vez será assim, só um e outro, mais nada. Mas desengane-se quem pense que a circunstância poderia convidar ao sentimentalismo. É tudo imaculadamente profissional, a perfeição escrita em roteiro. 30 músicas para duas horas de concerto, quase sem pausas, quase sem uma palavra entre canções, geometricamente divididas entre a obra de um e outro. Aquele espetador mais sentimental podia estar a precisar de uma coisa um nadinha mais calorosa? Podia. Mas Caetano e Gil já têm muitas vidas e muitas voltas ao mundo. A contenção recorta-lhes a aura da história e deixa falar o que se impõe à evidência: que estes septuagenários permanecem dois assombrosos virtuosos da voz e do violão.

Os tropicalistas embalam-nos então para a melhor fase da noite: “Sampa”, “Terra”, “Eu Vim da Bahia”, “Super-Homem, A Canção” e, antes disso tudo, “É de Manhã” e “As Camélias do Quilombo do Leblon” – respetivamente, o primeiro e o último tema que escreveram para cantarem juntos: “É de Manhã” e o seu galo que “cocorocô” em 1963, “máximo, início de 64”, e “As Camélias…”, “capoeiras das ruas do Rio”, já durante esta tour. É o próprio Caetano quem no-lo explica, na primeira e única vez em que conversa com a plateia durante todo o serão.

Gil, que, numa primeira fase do concerto, serve mais de suporte a Caetano, assume, então, protagonismo destacado. Faz do doce “Come Prima”, que até é de Caetano, coisa mais pungente e um dos momentos mais belos da noite. Leva, com os primeiros versos de “Esotérico”, a sala de regresso a 76 e à digressão de “Doces Bárbaros”, mesmo que não fosse viva, mesmo que não estivesse lá (“Não adianta nem me abandonar / Porque mistério sempre há de pintar por aí”). Surpreende com “El Triunfo del Amor”, tema do meloso Luis Miguel, e segue, com Caetano literalmente na sombra puxando aplausos para o amigo, por “Drão”, “Não Tenho Medo da Morte”, “Expresso 2222” e “Toda a Menina Baiana”. Pelo meio, um momento sintomático: pára, sem uma palavra e durante largos instantes, para afinar serenamente a guitarra – e o público, depois de aguardar de forma não menos serena, aplaude educadamente. Terá o Coliseu achado que se tratava duma interessante composição experimental de uma nova fase da carreira de Gil? Ou quis simplesmente saudar o à-vontade com que o artista, decerto sentindo-se em casa, deixou três mil pessoas a vê-lo rodar cravelhas durante um minuto sem uma explicação? Sabe-se lá. Nem importa. Às vezes, parece que não são só Gil e Caetano que se conhecem há mais de 50 anos; somos nós todos.

caetano veloso, gilberto gil,

Caetano regressa – embora nunca tenha deixado o palco – para meia dúzia de temas mais festivos, incluindo “Nossa Gente” (Agora todos aí em casa: “Avisa lá, avisa lá, avisa lá, ô-ô, Avisa lá que eu vou”), que fecha a parte “regular” do concerto. Depois, saindo e voltando em elegante passo de dança e com todo o Coliseu de pé, os irmãos fecham a noite com dois encores exemplares. O primeiro faz-se de “Desde que o Samba é Samba”, “Domingo no Parque” e “A Luz de Tieta” (nota para a sala afinadinha e subtil, que só cantou – e em voz baixa – quando explicitamente convocada pelos artistas); o segundo, de “Leãozinho” e “Three Little Birds”.

Sim. O “Three Little Birds” de Bob Marley. Uma cançãozinha em território neutro para fechar. E na voz de Gil – também na de Caetano, mas sobretudo na de Gil, enfim, na voz destes dois homens e velhos amigos que já viram muita coisa – numa noite sem salamaleques, aquela promessa tão simples e rodada soou subitamente a ternura maior, com certificado de garantia: “Don’t worry about a thing / Every little thing gonna be all right”.

Vai correr tudo bem, espetador tropicalmente só. Vai correr tudo bem.