É uma frase feita, sim senhor, e também se tornou um lugar-comum de tanto uso que foi tendo. Dizer que uma omelete não se faz sem os ovos é tão difícil como provar que um mais um são dois. Na frigideira tem de estar o ingrediente fundamental para a receita sair como deve ser. Sem ovos, nada se faz, e não há cozinheiro que consiga dar a volta a isto. Mesmo quando o homem com o chapéu de culinária na cabeça tem “Jorge Jesus” escrito no avental. Os ovos têm que lá estar e esta lógica da omelete serve para ajudar a perceber metade da história que o treinador tem com a casa do FC Porto.

Começou a ir lá cozinhar há 20 anos. Menos rugas na cara, mas cabelo já um pouco grisalho, é treinador do Felgueiras que vai às Antas ser recebido com um 6-2. O jogo serve-lhe uma derrota e Jesus tem que a comer em 1996, como tem de digerir as outras que lhe dão nas seis vezes seguintes que visita os dragões. É a tal história das omeletes, ou da coisa que o Felgueiras tinha em comum com o Estrela da Amadora, o Vitória de Setúbal, o Vitória de Guimarães, o União de Leiria e o Belenenses — a falta de ovos. A lei do futebol não é exata, mas, com estas equipas, era normal Jorge Jesus ficar a ver o FC Porto a fazer omeletes no próprio fogão.

Só que a história muda, porque chegou uma altura em que decidiram dar-lhe ovos. À segunda temporada com o Belenenses já teve alguns (1-1, em 2007), não tantos quanto os que chocou em Braga (outro 1-1, em 2008), e muito menos dos que tinha guardados no frigorífico do Benfica. O treinador chega a um grande em 2009 e aí a lógica muda. Porque, a partir daí, já é preciso saber escolher os muitos ovos que se tem. Mas nem por isso Jorge Jesus consegue mudar a sorte quando tem de disputar uma refeição no Estádio do Dragão. Os encarnados que o digam.

Nas seis vezes que o treinador lá jogou um clássico, apenas encheu a barriga de contentamento no ano passado. Os dois golos que Lima marca em 2015 dão a segunda vitória ao Benfica em casa do FC Porto, neste século, e a primeira a Jesus. Na meia dúzia de partidas que faz com o clube da Luz no Dragão, o treinador sofre 16 golos e marca sete. Sempre foi uma refeição que Jesus não digeriu bem, muito menos com as outras coisas que se passam pelo meio: em 2013 deixa-se cair de joelhos com o golo de Kelvin que o impede (2-1) de conseguir o empate que lhe daria o campeonato; antes, na primeira época de Benfica, pode garantir o título no Dragão, mas perde (3-1) e adiam-lhe a festa por uma semana.

Foto: FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Agora é diferente. Jorge Jesus está no Sporting, continua com muitos ovos e vai ao Dragão para tentar perseguir o título até ao fim. Ganhar nunca foi tão obrigatório, só assim garante que a omelete que tem cozinhado com os leões continua a intrometer-se na ementa que Rui Vitória já estará a imaginar para apresentar o tricampeonato do Benfica. O cozinhado de JJ em Alvalade já lhe assegurou a entrada direta na Liga dos Campeões e o recorde de vitórias (33 em 48 jogos) numa época. O Sporting precisa que a 34.ª apareça em casa dos dragões e não depois. Só assim se conseguirá manter colado aos encarnados.

Uma vitória será sempre histórica, não apenas pelo registo de Jesus no Dragão. O Sporting só soma duas vitórias em casa do FC Porto, para o campeonato, nos últimos 20 anos. Uma aconteceu em 1997, quando Octávio Machado treinava os lisboetas e António Oliveira os portistas (1-2), a outra viu-se em 2007, quando um livre de Rodrigo Tello aproximou (0-1) os leões dos dragões. É tão raro Jorge Jesus vencer por lá como o Sporting, quase tanto como ver-se o FC Porto a ser anfitrião com menos pontos no campeonato que os leões. Neste século, tal pendor na balança apenas se viu em 2001/02 e 2003/04.

Agora volta-se à história das omeletes e dos ovos. Tanto o Sporting como o FC Porto têm caixas recheadas deles, mas os leões têm-nos cozinhado bem melhor. A equipa de Jesus tem um Slimani com 24 golos no campeonato, um João Mário a segurar no volante da equipa e um Adrien a correr para manter o motor a altas rotações. Mas a equipa que agora é de José Peseiro já foi de Julen Lopetegui e perdeu muitos pontos enquanto vários jogadores não rendiam o que era suposto, como Aboubakar, Brahimi ou Herrera. Os dragões já não têm hipótese de chegar ao segundo lugar e, além do orgulho, vão jogar para ganhar. Só que a vitória pode ser um dois em um que poderá não agradar a todos os adeptos — vai descolar o Sporting do primeiro lugar e servir o título numa bandeja ao Benfica.