Moçambique

Moçambique: Comunidade portuguesa está a desaparecer

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A comunidade portuguesa em Moçambique, estimada em 23 mil pessoas, está a registar uma tendência de queda, acompanhando os sinais de crise económica, política e social em Moçambique.

Embora não haja números fiáveis, as autoridades consulares em Moçambique confirmam essa perceção

LUSA

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  • Agência Lusa

A comunidade portuguesa em Moçambique, estimada em 23 mil pessoas, está a registar uma tendência de queda, acompanhando os sinais de crise económica em Moçambique, instabilidade política e militar no centro do país, e ainda a ameaça de raptos.

Embora não haja números fiáveis, as autoridades consulares em Moçambique confirmam a perceção que se generalizou de uma redução do contingente de portugueses em Moçambique, a maioria dos quais residentes em Maputo e arredores.

“Vários portugueses estão a deixar os negócios que tinham em Moçambique, porque o país não está a conseguir o crescimento que se esperava e em Portugal, ainda que moderado, está a registar-se algum”, disse à Lusa fonte diplomática, a poucos dias de uma visita ao país do Presidente da República Portuguesa.

A mesma fonte observou que não há causas isoladas para esta diminuição, marcada pelos raptos que já não se fazem sentir na mesma quantidade em relação há dois anos — embora um português continue em cativeiro há várias semanas -, numa questão que “desgastou a imagem do país”.

Além disso, prosseguiu, a economia vive uma conjuntura adversa, a par da instabilidade política e militar no centro do país e que afeta os cerca de oito mil portugueses que o consulado na Beira estima existirem na sua área de ação.

“São muitas crises juntas e todas inimigas dos negócios”, comentou fonte diplomática, lembrando que a 133.ª posição de Moçambique no “ranking” do Banco Mundial “Doing Business” sugere a urgência de reformas na atração de investimento.

A perceção da diminuição do número de portugueses em Moçambique é partilhada por Fernando Rodrigues, chegado a Maputo há três anos e meio, e que nos últimos tempos tem assistido à partida de amigos e nenhum regresso.

Também sente a deterioração da economia na sua atividade de diretor-geral da Icelegend, uma empresa de Mozelos, Santa Maria da Feira, dedicada a estruturas especiais para hotelaria e cujos clientes estão agora mais interessadas em manutenção dos aparelhos do que em novas compras.

Apesar da tendência de redução da comunidade portuguesa e das várias crises com que Moçambique se depara, incluindo uma inflação crescente, Fernando Rodrigues, 32 anos, tenciona permanecer no país.

“Quem aguentar este período difícil vai sair-se bem, porque este país vai dar a volta por algum lado e depois já não volta para trás”, prevê.

Também Elsa Santos, 57 anos, residente em Maputo há mais de duas décadas e empresária no setor imobiliário, sente o forte abalo na economia, traduzida pela forte desvalorização do metical, subida de preços, descida das exportações, além da diminuição da ajuda externa e do investimento estrangeiro, que, no caso de Portugal representou menos 73,7% em 2015 face ao ano anterior.

A maioria do investimento português em Moçambique assenta nas pequenas e médias empresas, o que leva a que seja também que seja o que mais emprego cria, acima da média dos postos de trabalho gerados pelos restantes países.

Mas também é aquele que está mais exposto ao mau momento que o país atravessa, levando a que muitos pequenos investidores não consigam manter os seus negócios e acabem por ir embora, ou que prefiram apostar na ligeira recuperação económica de Portugal.

A motivação para partir acaba por estar “mais lá do que cá”, defende Elsa Santos, nascida há 57 anos na capital moçambicana e que mantém dupla nacionalidade, à semelhança de 30% da comunidade portuguesa na área consular de Maputo.

A empresária sente os preços do mercado de arrendamento a cair na capital, sinalizando a partida de empresas e expatriados, embora na gama alta, dada a escassez de oferta, se mantenham altos.

Com uma carteira de 200 clientes no setor imobiliário, Elsa Santos mantém dois centros de negócios no centro de Maputo, pensados para multinacionais e outras empresas, mas um deles reduziu a sua ocupação para metade. E um terceiro que tenciona abrir em Pemba está ainda de portas fechadas porque os megainvestimentos no gás natural da bacia do Rovuma se encontram atrasados e, com eles, todo um país.

Apesar disso, a empresária acredita que a situação de Moçambique “é transitória” e, assim que o preço do petróleo começar a subir, “o país vai voltar a crescer”.

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