Foi um dos mais importantes ceramistas portugueses além de ter feito várias obras dentro do desenho, pintura, escultura, gravura ou azulejo. Morreu esta segunda-feira, tinha 90 anos.

Nascido em 1925 em Portimão, Querubim criou vários painéis cerâmicos, com destaque para o painel na Reitoria da Universidade de Lisboa, o revestimento exterior e interior da Casa da Sorte, também em Lisboa, dois painéis na Pastelaria Mexicana, o revestimento da estação do metro da Bela Vista e o painel As Meninas e os Meninos na escola com o seu nome, em Campolide. Está representado em diversos museus como o Museu de Arte Moderna de Tóquio ou o Museu do Chiado.

Foi um dos artistas mais influentes do século XX, não só através da obra mas também pela atitude que sempre demonstrou, que permanente inconformismo com a ordem estabelecida e de contínua visão além do mais óbvio dos dias.

Em 1942 ruma a Lisboa onde se matricula na Escola de Artes Decorativas António Arroio e expõe pela primeira vez obras da sua autoria. Em entrevista à publicação Up Magazine, Querubim contava: “O movimento neorrealista saiu da António Arroio. Íamos visitar os salões do SNI [Secretariado Nacional de Informação, organismo de propaganda do Estado Novo] em Alcântara, onde expunham os modernistas da geração do António Ferro [diretor do SNI], um modernismo que para nós já era um bocado decadente. O neorrealismo foi uma reação tanto política como artística, porque todos nós éramos um bocado de esquerda”.

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Soube assimilar o que de fundamental o academismo e o formalismo de professores mais agarrados às tradições tinham para lhe ensinar, querendo sempre descobrir mais, pelo espírito próprio de um curioso destemido mas também graças à companhia de gente que, ao mesmo tempo, com ele quebrava barreiras, casos de Marcelino Vespeira ou Júlio Pomar.

Frequentou a Faculdade de Belas-Artes e teve ao longo da sua vida vários professores conhecidos no mundo das artes como Salvador Barata Feyo ou Leopoldo de Almeida. A escultura levou-o até ali, apesar da eterna paixão pela pintura. Depois de sair, entre dificuldades permanentes com o regime de então e a PIDE, regressa à António Arroio, onde se faz professor e de dedica à cerâmica, para nunca mais a abandonar – tal como não deixou as outras expressões artísticas que tanto o inspiravam.

Tornou-se professor e expôs a sua primeira exposição individual em 1960 e dedicou-se quase em exclusividade à cerâmica durante os anos 1960. Em 1986 ganhou o Prémio de Azulejaria da Câmara Municipal de Lisboa pelo painel Banco de Portugal. Entretanto, a sua visão já tinha passado pelo Hotel do Mar, em Sesimbra, ou o Hotel Ritz, em Lisboa.

Lisboa, aliás, que haveria de tornar-se quase como uma galeria para as suas obras, dando-lhe espaço e uso urbano, partindo da presença quotidiana que o artista procurava imprimir nas suas criações. Ao mesmo tempo, essas obras foram inevitavelmente incluídas num roteiro turístico com a arte como objetivo maior.

Uma das suas últimas exposições foi em 2015 na galeria Objectismo, no Príncipe Real, onde mostrou várias peças de cerâmica feitas nos primeiros anos da sua carreira (1954-1974). No inicio do mês de abril deste ano, o “mestre” Querubim deu uma aula aberta na Escola Superior de Educação de Lisboa onde falou de uma carreira com mais de 45 anos.

Apenas duas provas para os recordar o espírito incansável e a permanente atividade artística de Querubim Lapa. Na mesma entrevista à Up, o artista falava nos primeiros tempos, nos dias em que começou a “rabiscar”, “sozinho, deitado no chão do meu quarto, um bocado para fugir às minhas quatro irmãs”. Depois, fez a sua história, não mais parando.

Editado por Tiago Pereira