O euro está a subir há sete sessões consecutivas face ao dólar, acima de 1,16 dólares, e está muito próximo dos máximos fixados em agosto de 2015. Se esses máximos, na casa dos 1,17 dólares, forem superados isso significará que o euro estará a valer mais do que no início de 2015, antes de Mario Draghi e o Banco Central Europeu (BCE) terem embarcado nos estímulos monetários inéditos — que têm um objetivo não declarado de baixar o valor do euro e estimular as exportadoras.

Sinais menos animadores sobre a economia norte-americana estão a alimentar a expectativa de que a Reserva Federal dos EUA não irá subir as taxas de juro tão rapidamente quanto se previa em dezembro, quando houve a primeira subida da taxa de juro desde 2006. Juros baixos por mais tempo nos EUA tendem a levar a uma redução do valor do dólar e a torná-lo menos valioso em relação às outras moedas. O euro sobe mais de 10% desde a cotação registada em dezembro.

Para a zona euro, um euro mais forte tende a ser penalizador para o crescimento económico porque torna as exportadoras europeias menos competitivas no mercado global. Ou, em alternativa, se as empresas mantiverem os preços de venda em dólares, as receitas diminuem quando passadas para euros. A descida do euro tem sido apontada como uma das três principais muletas para a retoma europeia, a par do petróleo baratoque já esteve mais barato — e os juros baixos (esses, sim, continuam em mínimos).

Escalada do euro quase apaga efeito dos estímulos do BCE

EURUSD Curncy (EUR-USD X-RATE) 2016-05-03 09-27-19

A trajetória do dólar e as expectativas em relação à política monetária nos EUA são o efeito mais importante para a evolução do euro-dólar. Mas a moeda única, por seu lado, também tem vindo a ser impulsionada por alguns indicadores económicos que saíram acima do esperado, designadamente o crescimento económico e alguns indicadores sobre a atividade no setor industrial. Além disso, a taxa de desemprego está em mínimos de 2011. Esses dados tornam mais provável que o BCE não irá reforçar os estímulos monetários, que deprimem o valor da moeda.

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Do outro lado do Atlântico, desde a reunião da Fed da semana passada que os investidores passaram a acreditar com maior firmeza na possibilidade de a Reserva Federal não promover tantas subidas da taxa de juro quanto se previa há alguns meses. O ING afirmou, numa nota enviada esta terça-feira aos clientes, que uma recessão económica nos EUA é uma possibilidade. “A nossa maior preocupação é com o investimento empresarial, algo em que a incerteza política está a pesar de forma clara“, dizem os economistas do banco holandês, numa alusão às eleições presidenciais de novembro.

A subida do euro-dólar não deixará, contudo, de ser uma dor de cabeça para Mario Draghi, dizem os analistas. Citado pela Bloomberg, Shaun Osborne, do Bank of Nova Scotia, diz que este movimento do mercado “complica o cenário para o BCE, em certa medida. Eles [o Conselho de Governadores] têm parecido globalmente tranquilos em relação ao valor do euro nos últimos meses — mas isso pode mudar se o euro continuar a fortalecer-se“.

O BCE não reconhece que a evolução do euro-dólar é um “objetivo de política monetária”, mas reconhece que está “atento” à cotação no mercado porque esse é um fator que tem influência para a taxa de inflação — essa, sim, uma métrica que cabe ao BCE controlar.