Miguel Barbosa, o administrador que tinha sido nomeado pelo Estado para acompanhar o Banif, garantiu esta terça-feira que a proposta de compra que veio da China não passou de uma “manifestação de interesses” e nem chegou a ser apresentada ao conselho de administração, nem à comissão executiva. A proposta, garante, foi “direta aos acionistas privados”.

As acusações não são diretas, mas estão implícitas. Nem Jorge Tomé, o presidente executivo do Banif entre 2012 e 2015, nomeou o administrador público que terá “travado” a venda do Banif; nem Miguel Barbosa nomeia agora Jorge Tomé quando garante que não havia nenhuma proposta. Mas, mesmo sem nomes, o diálogo entre os ouvidos na comissão de inquérito acontece.

Esta terça-feira, Miguel Barbosa, que está a ser ouvido pelos deputados, começou por desvalorizar eventuais propostas de compra não solicitadas do Banif, apresentadas ao longo de 2015:

As manifestações de interesse de que o Banif foi alvo ao longo de 2015 nunca se transformaram em propostas vinculativas.”

Contudo, acabou por dar como exemplo um potencial comprador chinês. Lembrou mesmo que Jorge Tomé, que era na altura o líder da instituição financeira, se deslocou à China nesse âmbito. Miguel Barbosa não quis confirmar o nome do potencial comprador, mas deixou implícito que estaria a falar da Ample Harvest Investment Capital – um fundo de Hong Kong que, segundo o Público, terá oferecido 700 milhões de euros pelo banco na primavera do ano passado.

O ex-administrador do Estado no Banif sacudiu ainda quaisquer responsabilidades pelo facto de esta manifestação de interesse não se ter concretizado:

A proposta foi diretamente apresentada aos acionistas privados. Nunca foi apresentada em conselho de administração nem à comissão executiva.”

Segundo Miguel Barbosa, a proposta viria mesmo a ser retirada, tendo em conta a crise do mercado de capitais chinês.

As afirmações do ex-representante do Estado no Banif contradizem o que foi explicado por Jorge Tomé quando foi ouvido na comissão de inquérito. De acordo com o ex-líder do banco, terá havido uma proposta de um investidor estrangeiro cujo conhecimento foi dado ao Ministério das Finanças.

Contudo, garantiu Tomé, teria sido preciso abrir “um processo estruturado” de venda para permitir a avaliação da instituição financeira. Acontece que um administrador do Estado, que Tomé não identifica, defendeu que o banco devia antes apresentar o plano de reestruturação exigido por Bruxelas, avançando com a separação de ativos, por estar convicto de que o Banif seria mais atrativo já limpo.

Daí que não se tenha avançado com a due diligence (o processo estruturado necessário para que o banco fosse avaliado e comprado). Em declarações ao Observador, à margem da comissão de inquérito, Issuf Ahmad, também ex-administrador nomeado pelo Estado para o Banif, garante: “Se tivesse havido uma proposta, punha o pé no acelerador.” Miguel Barbosa acrescenta ainda que a prova de que nunca tentou travar nenhuma tentativa de compra do Banif foi ter considerado uma boa ideia Jorge Tomé deslocar-se à China, para “ir atrás da proposta”.

O desfecho já é conhecido: as condições do banco foram-se degradando progressivamente até que a única solução considerada viável pelos vários intervenientes foi uma resolução da instituição, com custos superiores a dois mil milhões de euros para os cofres públicos.

Oitante: primeira venda de activos recupera entre 10% a 12% do valor

A Oitante, o veículo criado na dependência do Fundo de Resolução para vender os activos do Banif com que o Santander não quis ficar, já tem a primeira operação de venda quase concluída: dos 560 milhões de euros de crédito não securizado vão ser recuperados, no global, menos de 70 milhões de euros.

Miguel Barbosa, o ex-administrador do Estado no Banif, está hoje à frente da Oitante. Ainda durante a comissão parlamentar de inquérito fez um primeiro balanço dos cerca de três meses de actividade deste veículo.

O responsável explicou que da carteira de crédito que a Oitante recebeu, cerca de 560 milhões de euros não estava titularizado. Esta parte da carteira está já na fase final das negociações de venda e o preço rondará os 4% do valor do activo inscrito nos livros quando transitou para a Oitante.

À margem da comissão, Miguel Barbosa garantiu ao Observador que este “é um valor normal neste tipo de crédito não securizado”. Segundo o responsável, as primeiras propostas, não vinculativas, foram ligeiramente superiores, mas na fase vinculativa desceram.

Contudo, em termos globais a Oitante conseguirá recuperar mais do que os 4% (cerca de 22 milhões de euros) dos 560 milhões de euros. É que houve uma parte desta carteira de crédito que a Oitante não vendeu e que conseguiu recuperar. As contas globais apontam para a recuperação de um valor entre 10% e 12%. “É um valor considerado positivo”, defende.

Além desta carteira de crédito, a Oitante tem ainda cerca de 200 milhões de euros de crédito securizado e cerca de 1,4 mil milhões de euros de activos imobiliários.

Miguel Barbosa assume que há pressão para fazer descontos aos activos, tendo em conta o haircut “administrativo” que foi imposto no momento da resolução do Banif e da venda de parte da sua actividade ao Santander. Contudo, garante que o modo de actuação da Oitante não será esse e frisa que foi por isso mesmo que recusou já ofertas de compra de parte da carteira.

Sobre os direitos dos 425 trabalhadores da Oitante, a maioria ex-bancários do Banif e afectos á prestação de serviços centrais agora ao Santander, Miguel Barbosa confirma que mantêm os direitos previstos para profissão, mas deixa escapar que esta garantia, dada pelo Ministério das Finanças, tem a validade de um ano. Depois desta data, antecipa que os direitos se mantenham enquanto os trabalhadores continuarem a prestar serviços enquanto bancários, ao Santander.