Tinha de acontecer. Era uma questão de tempo, nesta visita de Estado. Aconteceu ao longo do segundo dia de viagem a Moçambique (o primeiro da visita de Estado): a explosão dos afetos do Presidente Marcelo, na sua “segunda pátria”. E contagiou até o Presidente Nyusi, que terminou o dia a reconhecer o poder da proximidade. O moçambicano acabou por ouvir o presidente português condenar a violência no país.

“Os afetos não bastam, mas se existem, então criam uma vizinhança que vai além da geografia e circunstâncias do momento”. Não, a frase não é de Marcelo, mas de Filipe Nyusi, no banquete que ofereceu em honra do Presidente português. No Palácio da Ponta Vermelha, o moçambicano recordou até os outros tempos — que ambos os países querem ver ultrapassados –, mas foram aqueles em que se forjou a relação afetiva de Marcelo a Moçambique. O português passou férias naquele palácio, onde vivia o pai, o governador-geral de Moçambique entre 1968 e 1970.

Antes do jantar, Nyusi levou Marcelo a passear pelo Palácio que este conhece bem e só o contou depois. “Sei que guarda lembrança deste edifício em que nos encontramos. Não quis lhe [sic] levar ao quarto [onde Marcelo ficava quando ia a Maputo], que está muito bonito agora”. Mas falaram disso. Depois de Nyusi discursar, interveio Marcelo “muito emocionado” com as palavras que acabara de ouvir. Disparou em juras de amor descrevendo o “estado soberano a 9 mil quilómetros de Portugal” que sente “como segunda pátria”: “Amo profundamente, festejo cada vitória e entristece-me a dor de cada revés que o povo moçambicano vive”. O PR português acrescentou: “Nunca pouparei esforço algum para promover e valorizar este país e o seu povo”.

Moçambique terá em mim mais do que um grande amigo. Terá um filho devotado, um advogado empenhado, um parceiro estratégico, um irmão solidário”. Foi uma garantia de Marcelo.

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Mas Rebelo de Sousa vinha com uma mensagem preparada. Por isso, pôs para trás a nostalgia: “É verdade que é a minha segunda pátria. É verdade que recordo muito do que foi a vida do adolescente, mas estou aqui para reforçar a relação do presente e contribuir para a criação de um novo dia na relação dos dois países, assente na soberania, no respeito mútuo”. Depois do encontro matinal entre os dois presidentes de manhã, uniu-se mesmo a Nyusi na condenação da violência. “Apesar da insuficiente resposta da Renamo, o diálogo continua a ser o caminho por nós preferido”, dissera Nyusi.

Com um conflito armado a decorrer no norte e centro do país, Marcelo quis deixar em Maputo a sua posição:

“Portugal condena inequivocamente que numa democracia, na sua como noutras, se recorra a violência para defender posições políticas divergentes ou de pontos de vista. “Condenamos a violência e a perda de vidas humanas por divergência de opinião”.

Minutos antes, na sua intervenção, Nyusi atirara à Renamo: “A paz verdadeira implica mais do que o simples canal das armas, não se constrói com cobardia”.

“Boas vindas de Sousa”

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O dia começou forte em afetos. Marcelo esteve numa cerimónia cheia de simbolismo, na Praça dos Heróis Moçambicanos, onde depositou uma coroa de flores no monumento aos combatentes pela independência do país. “Aos heróis da luta de libertação nacional de Moçambique”, diz a placa descerrada por Samora Machel em 1978. Entrou no monumento, ouviu a breve explicação sobre as pedras com os nomes dos heróis moçambicanos, entre eles Eduardo Mondlane, o líder da Frelimo que em 1969 foi morto pela PIDE, era o seu pai governador.

As ironias da história levaram o filho do ex-governador a Maputo, agora como Presidente da República do antigo império colonizador. Ambos quiserem deitar para trás das costas esse pedaço de História, preferindo sublinhar que ambos os países estão unidos pelos mesmos anos de vida em democracia.

Boas vindas ‘de Sousa’/à nossa Moçambique/Como está em Portugal?/Nós estamos bem de saúde”

Mas a ligação à terra existe. Havia ali, na praça dos heróis moçambicanos, muita gente a receber o “patrão” (todos os presidentes são assim chamados) de Portugal. “Foi emocionante” para o “emocionado” Marcelo Rebelo de Sousa. A palavra saía, em várias fórmulas, enquanto ele se detinha, com tempo, em frente da atuação de cada um dos vários grupos culturais na Praça. Faziam fila para receber Marcelo, ou “de Sousa”, como se ouvia num dos cânticos de boas vindas.

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A cara franzida em várias linhas de deleite absoluto e até algum contágio (ligeiro, mas viu-se o Presidente a abanar-se) com o ritmo local. Batuques, vozes, dança de pisada sonora do pé descalço no alcatrão. Marcelo viu tudo, abraçou, cumprimentou quase sempre com mais do que um aperto de mão. Há sempre mais qualquer coisa, ou mesmo um beijo na testa de quem ali o esperava havia horas.

A receção é típica nas visitas de Estado e é promovida pela Frelimo. E aí não há dúvidas, tal a quantidade de t-shirts com a cara de Nyusi estampada, não fossem passar despercebidas as capulanas com as cores e símbolo do partido de poder, enroladas à volta da cintura com manifesto orgulho. “O nosso patrão sabe que o vosso vem e o nosso maior comunica para virmos aqui”. O vosso “patrão”? E aponta a fotografia de Nyusi. Nada a esconder.