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Emiliano Fittipaldi: “No Vaticano não existe liberdade de imprensa”

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O jornalista italiano Emiliano Fittipaldi demorou um ano e meio a escrever um livro sobre corrupção na Santa Sé que agora o pode condenar à prisão. Entrevistámos o autor.

O autor de "Avareza" está a ser julgado com base numa lei criada em 2013 pelo papa Francisco

OSSERVATORE ROMANO / HANDOUT/EPA

O autor assegura que tudo o que está no livro é verdade. São 250 páginas sobre corrupção, má gestão, despesas astronómicas e mentiras no coração da fé católica. Quem o escreveu foi Emiliano Fittipaldi, de 42 anos, jornalista de investigação na revista italiana L’Espresso.

O livro intitula-se Avareza e saiu em novembro do ano passado, em Itália. O Vaticano não contestou os factos expostos, mas incriminou o autor.

“O Papa ficou zangado com a publicação do livro, queria esconder a roupa suja, preferia que ficasse tudo dentro dos muros do Vaticano”, sustenta Fittipaldi, em entrevista ao Observador. “Sou acusado de ter divulgado ilegalmente informação reservada que põe em perigo os interesses da Santa Sé”, conta, ao mesmo tempo que reconhece isso mesmo.

É verdade, publiquei documentos com informações económicas e financeiras que a Santa Sé não queria que fossem conhecidos, e há uma lei no Vaticano, promulgada pelo Papa Francisco em 2013, que define como crime a publicação destas ou de quaisquer informações confidenciais.”

Algumas partes do livro saíram em 2015 sob a forma de reportagem no L’Espresso e por isso a investigação da Santa Sé ao jornalista começou logo em junho do ano passado, por parte da gendarmeria do Vaticano.

Avareza

“Avareza”, de Emiliano Fittipaldi; Ed: Saída de Emergência; 256 páginas; 16,90€

Em rigor, o processo contra Fittipaldi é o mesmo de Gianluigi Nuzzi, autor de um outro livro, Via Crucis, também publicado em novembro último e igualmente sobre corrupção na Santa Sé. Um e outro não se conheciam e têm até alguma animosidade pessoal.

Na sequência das investigações da gendarmeria, foram presos um alto funcionário, o padre espanhol Lucio Vallejo Balda, e a relações públicas Francesca Chaouqui, presumíveis fontes de Fittipaldi e Nuzzi.

Eis alguns dos factos descritos no livro.

  • O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano entre 2006 e 2013, vive numa casa com 300 metros quadrados e em 2012 alugou um helicóptero por mais de 23 mil euros para fazer uma viagem de 400 quilómetros entre o Vaticano e um hospital que ia inaugurar em Basilicata.
  • O mesmo Bertone viu as obras de remodelação da sua casa, no valor de 200 mil euros, serem pagas pela Fundação Menino Jesus, que se dedicada a recolher fundos para ações humanitárias.
  • Através do controlo financeiro de várias empresas, o Vaticano possui centenas de prédios de escritórios e habitação na Europa.
  • Em Roma, a Administração do Património da Sede Apostólica (APSA) é proprietária de cinco mil apartamentos. As propriedades em Inglaterra valem 25,6 milhões, as da Suíça ascendem aos 27,7 milhões e o imobiliário em Itália e França chega aos 342 milhões. “Mas no Vaticano sabem bem que se trata de um valor inferior ao real”, escreve Fittipaldi.
  • O Banco do Vaticano, ou Instituto para as Obras de Religião, continua permeável à lavagem de dinheiro, apesar das reformas introduzidas pelo papa Francisco.
  • A Santa Sé “possui ações, liquidez, obrigações, suas e por conta de terceiros, e ativos financeiros que valem um total entre oito e nove mil milhões de euros”.
  • O Óbolo de São Pedro, uma obra de caridade cuja coleta começou em fins do século VIII, parece ser fachada de outros interesses. “O dinheiro do Óbolo, quando não é conservado debaixo do colchão ou investido nos mercados financeiros, é usado para as necessidades económicas dos ministérios e dos cardeais romanos, e não em obras de caridade”, lê-se.

Emiliano Fittipaldi esteve esta semana em Lisboa para promover Avareza, prestes a chegar às livrarias portuguesas numa tradução de Carlos Aboim de Brito para a editora Saída de Emergência. O encontro com o Observador é a meio da manhã de segunda-feira, num hotel da Baixa. O jornalista e autor italiano, descontraído, diz-nos que é a primeira vez que visita a capital portuguesa. Sem sinal de zanga ou medo, explica porque é que o livro o deixou a contas com a justiça do Vaticano. Como não fala bem inglês, prefere dar a entrevista em italiano, com tradutora ao lado, para assim controlar o que diz.

Emiliano Fittipaldi, one of two Italian journalists facing a criminal probe over leaks from the Vatican, gives a press conference on November 17, 2015 in Rome, a day after a hearing at the Vatican. AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS (Photo credit should read GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images)

Emiliano Fittipaldi

As fontes, não as revela. Diz que foram 13 os leigos e eclesiásticos que lhe deram acesso a documentos nunca antes publicados, alguns deles secretos. A saber: cartas e orçamentos dos ministérios do Vaticano, papéis da Administração do Património da Sede Apostólica (APSA), pareceres da comissão criada pelo papa Francisco para organizar a estrutura económica do Vaticano — a COSEA — e relatórios de empresas de auditoria, como a KPMG e a PwC.

Fittipaldi nasceu em Nápoles, vive em Roma, é casado e tem filhos. Iniciou-se na profissão em 2004 e já recebeu vários prémios em Itália pelas suas reportagens de investigação. “Trabalho sozinho, não gosto de trabalhar em equipa, sou muito meticuloso e maníaco no trabalho, não confio em mais ninguém”, sublinha. “Se trabalhar com colegas, tenho de estar sempre a rever o que eles escrevem, prefiro o meu método.”

Em casa, frente ao computador, demorou um ano e meio a escrever Avareza. Teve muitos encontros e reuniões com fontes, incluindo em restaurantes. Como não podia deixar de cumprir horário no L’Espresso, e está obrigado a apresentar quase todas as semanas notícias que sejam manchete, passou todo aquele período a trabalhar quase 17 horas por dia. Mas essa não terá sido a parte mais difícil. “O difícil é convencer as pessoas a entregarem-nos documentos”, explica.

Há fontes que chegam e dão logo os documentos todos, mas depois há informações que sabemos estarem escondidas noutros lugares e é preciso arranjar maneira de chegar lá.” Como conseguiu? “Com muita paciência, tive de explicar que não estava a fazer um livro contra à fé, mas contra a corrupção dentro da igreja.”

“Quem dá informações de forma voluntária a um jornalista fá-lo por duas razões: porque as informações se converteram num peso para a própria pessoa e porque tem um interesse pessoal”, analisa. “Há sempre um interesse pessoal, claro, as fontes procuram vingança, querem destruir um grupo de poder para o substituírem ou acham que o lugar de poder que alguém ocupa deveria ser deles. Seríamos hipócritas, como jornalistas, se não reconhecêssemos isso.”

Pecado capital

Mas será que Fittipaldi se sente, de alguma forma, instrumentalizado pelas suas fontes? “Como jornalista, nem me coloco essa questão, caso contrário, deixaria de escrever notícias”, responde de imediato, adotando um discurso de rajada, que parece já ter repetido muitas vezes. “Quando um jornalista tem uma informação importante, tem de tentar perceber três coisas: se a informação é verdadeira, se a fonte é credível e se a notícia tem interesse público. Se for esse o caso, temos o direito e o dever de publicar. E para nos aproximarmos da verdade não podemos ter apenas uma fonte, mas múltiplas, muitas vezes contraditórias ou mesmo adversárias umas das outras.”

O autor constata que o livro não descreve propriamente práticas ilegais, mas factos considerados imorais ou desonestos. Para ele, tratando-se do Vaticano, não há diferença. “Os aspetos imorais são contrários aos evangelhos, por isso escolhi para título o nome de um pecado mortal”, justifica. “Para os fiéis, os pecados capitais são mais graves do que os pequenos crimes. É escandaloso que se considere aceitável que um cardeal como Bertone tenha feito obras em casa com milhares de euros de um fundo de caridade.”

O julgamento de Fittipaldi decorre no Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano e está na fase final, mas não se sabe quando sairá uma sentença. Um acordo entre Itália e o Vaticano permite a aplicação, fora da Santa Sé, da lei de 2013 que tipifica o alegado crime cometido pelo jornalista, assim como da pena que lhe venha a ser aplicada. “No Vaticano não existe liberdade de imprensa”, acusa. “Se quiserem condenar-me por causa deste livro, do ponto de vista técnico, é automático.”

A defesa do jornalista não pode, por isso, alegar os princípios da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa ou do interesse público. “Essas coisas não são sequer consideradas pelo tribunal do Vaticano”, desabafa, notando que tinha a possibilidade de recusar comparecer em tribunal, por ser cidadão italiano. Se assim fosse, o processo seguiria o seu curso e o julgamento teria lugar à revelia. “Foi preferível ir a julgamento defender-me das acusações.”

É a primeira vez que dois jornalistas estão a ser julgados pela Santa Sé. Fittipaldi espera não ser condenado, mas se for, acha que não ficará a perder. “Se o Vaticano me absolver, toda a gente pensará que são loucos e o meu livro torna-se uma bíblia; se me condenarem, a igreja arrisca um escândalo mundial, por ter condenado dois jornalistas a penas prisão”, analisa. Daí que considera o processo “um erro”.

Com este julgamento querem transmitir uma dupla mensagem: a quem vive no Vaticano, para não ajudar jornalistas; aos jornalistas, para perceberem que correm o risco de serem destruídos. Além disso, conseguiram que se deixasse de discutir o conteúdo do livro para se passar a discutir o meu processo. Foi uma forma de desviar as atenções para os escândalos que a minha investigação encontrou.”

Fittipaldi critica alguma imprensa vaticanista por esta ser “muito hábil na transformação de Francisco em herói contemporâneo”, em vez de confrontar o líder espiritual da igreja católica com os factos descritos no livro.

“Quando publiquei, houve grande escândalo, mas depois comecei a ser ameaçado. O diretor da Rádio Maria [estação de inspiração católica] disse no ar que eu deveria ser enforcado como Judas e houve jornalistas italianos que me chamaram ladrão”, diz. “A igreja tem um enorme poder sobre a comunicação social e a política. Ninguém quer ir contra a igreja, preferem manter-se neutros perante a violação dos direitos dos jornalistas.”

Ao fim de quase uma hora de conversa, o Observador pergunta a Fittipaldi se tem mais documentos e está preparar outro livro? O jornalista sorri. “Não posso responder, todos os documentos importantes que tinha até novembro estão neste livro.”

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