Pedro Lacerda é o Lázaro de “Axilas”. E Lázaro é um tipo normal, (quase) sem história para contar. A sua mãe adotiva — a quem na verdade chama avó — é agora uma idosa com dinheiro que nunca vai conseguir gastar, o melhor então é não fazer grandes planos, viver como quem desce a rampa (deixando-se ir) e esperar pelo acerto de contas. Até que conhece Maria Pia (Maria da Rocha), uma violinista que se transforma no alvo do maior fetiche de Lázaro: axilas de mulheres, tal e qual o avô.

É por aqui que vai o filme que adapta um conto de Rubem Fonseca (estreia-se esta quinta feira), o último de José Fonseca e Costa, “um grande homem do cinema português”, diz-nos Pedro Lacerda, “uma figura incontornável de uma Lisboa que vai mudando todos os dias”. E apesar da morte do cineasta, a 1 de novembro do ano passado, o ator assume que o filme foi terminado como tinha de ser e como Fonseca e Costa haveria de querer: “‘Axilas’ é o que podemos ver graças ao trabalho de uma equipa fantástica, que seguiu um princípio de trabalho contínuo e que ganhou a lógica certa para poder ser acabado sem a presença do José Fonseca e Costa”.

[o trailer de “Axilas”]

Lacerda, que é também o anti-herói Lázaro, descreve “Axilas” como “uma comédia sobre os nossos costumes, uma comédia sobre a própria morte e também um filme que junta um leque notável de atores”. Mas afirma que é, além disso, um filme sobre Lisboa, ainda que de forma especial: “A Lisboa deste filme é a de José Fonseca e Costa e esta Lisboa aparece em vários formatos distintos”. Essas revelações são-nos apresentados ao longo do filme, seja pelos caminhos “da rua das tascas dos bilhares e dos marialvas”, pelo meio de uma menos pitoresca mas concreta “Lisboa das figuras da alta finança” ou até bem no centro de uma cidade mais cultural, “a Lisboa dos CCBs e das Gulbenkians”, descreve o ator, que acrescenta ainda: “Há um outro lado do filme, um que dá mais destaque à Lisboa que é a das pessoas que a habitam, porque as cidades são feitas de pessoas”.

axilas rubem

O livro de 2011, de Rubem Fonseca, do qual faz parte o conto “Axilas” (Sextante Editora)

Rubem Fonseca é uma influência fundamental na construção da personagem, porque é dele o conto que dá origem à história do filme. O que está no texto do autor brasileiro está na vida de Lázaro, mas há mais. “A base inicial do filme é a educação desta personagem e as suas peripécias”, aponta Pedro Lacerda. E a este universo juntam-se outras referências: “O Lázaro para mim vem de uma linha que é esquinada de várias coisas que lhe vão acontecendo. Do amor que tem à Maria Pia, do prazer do vinho tinto e das conversas, da poesia da rua tornada literatura, das palavras inventadas e do deslumbre da vida fácil das elites caricaturadas.”