O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, defendeu esta sexta-feira que a liberdade e o modo de vida na Europa “não podem nem devem ser limitados” pelo radicalismo dos terroristas e dos que “alegadamente afirmam que os estão a combater”.

“A Europa confronta-se hoje com uma situação muito exigente e que desafia os seus valores de liberdade e de justiça social”, face à crise dos refugiados, o terrorismo, a instabilidade mundial, a crise económica, os conflitos armados, sustentou hoje o autarca, no encerramento da segunda edição das Conferências de Lisboa, que durante dois dias reuniram, na Fundação Calouste Gulbenkian, mais de 30 personalidades nacionais e internacionais a debater “A globalização do desenvolvimento”.

“Torna-se fundamental perceber a importância destes valores e como podemos defendê-los face ao radicalismo e ao extremismo, na Europa e fora desta, daqueles que se opõem aos mais elementares e básicos direitos humanos”, sustentou.

Fernando Medina salientou depois: “Quero ser claro. A nossa liberdade e o nosso modo de vida não podem nem devem ser limitados ou alterados de modo a comportar o radicalismo e oportunismo daqueles que exploram o medo, seja este decorrente da ameaça direta de quem propaga e perpetra o terrorismo, mas também de alguns que alegadamente afirmam que o estão a combater”.

A Europa evidencia uma “incoerência entre a retórica e a prática quanto à crise dos refugiados”, considerou o presidente do município lisboeta, que questionou: “Como podemos defender e impor uma perspetiva sobre os direitos humanos em outras partes do mundo, quando a nossa ação é manifestamente desumana e atentatória da dignidade humana no nosso próprio território europeu?”.

Portugal enfrenta o desafio de defender “o interesse nacional no processo da integração europeia”, sem perder de vista o seu “papel histórico, com uma visão atlantista, universalista e capaz de alargar pontes e horizontes para lá das suas fronteiras europeias”.

Em particular, Lisboa, como “cidade aberta e cosmopolita”, tem “um papel nesta conjuntura e quer desempenhar esse papel”.

Uma proposta que saiu desta edição das Conferências, que devem realizar-se de dois em dois anos, é a criação do Clube de Lisboa, um grupo de reflexão constituído por oradores destes encontros.

No mesmo sentido, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sustentou que Lisboa, “representando o país”, tem “um bom ponto de vista”.

“O nosso ponto de vista é o de quem, historicamente, está treinado no policentrismo, espalhados que nos fomos tornando pelo Mundo. É o de quem está, histórica e contemporaneamente, treinado na ideia de ponte e comunicação entre diferentes espaços”, disse.

Por outro lado, Portugal “tem uma população que é tanto mais cosmopolita quanto mais se aproxima das suas camadas populares”, considerou, mencionando que, “ao contrário do que por vezes acontece, em Portugal, a população é mais cosmopolita do que as suas elites, que costumam ser, aliás, bastante paroquiais”, uma posição que foi recebida com aplausos.

Na sua intervenção, que encerrou o encontro, o governante elogiou a escolha do tema e sustentou que “é evidente que a globalização existe, mas isso não torna obsoleta a temática do desenvolvimento, torna-a ainda mais atual”.

Santos Silva contrariou o que disse ser uma “narrativa hegemónica” que apresenta a globalização como “o substituto do desenvolvimento”.

“Precisamos de olhar para a globalização a partir do ponto de vista do desenvolvimento. A globalização exige mais e não menos ação coletiva”, considerou, destacando ainda a importância “absolutamente crítica” das instituições.

“Grande parte da riqueza e da força dos países que têm sabido encontrar o seu lugar no mundo globalizado depende não da abundância dos seus recursos naturais, não da dotação do seu capital, mas sobretudo da qualidade das suas instituições. Pelo contrário, grande parte dos países que estão à margem, na periferia ou mesmo no exterior da globalização económica, na verdade têm de se queixar de si próprios e da pouca atenção que têm dado à qualidade das respetivas instituições”, considerou.

O presidente da organização, Luís Amado, fez votos que, na próxima edição das Conferências, “o mundo não esteja tão carregado de nuvens”.

O programa do encontro incluiu painéis sobre “Desenvolvimento Sustentável e Globalização”, ” Reconfigurações Geoeconómicas” e “Entre Bilateralismo e Protecionismo”, “Um Norte-Sul de Fronteiras Difusas”, “A Globalização das Ameaças de Segurança” e “A Encruzilhada Europeia”.

As Conferências de Lisboa são uma iniciativa conjunta da Gulbenkian, Câmara Municipal de Lisboa, Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Fundação Portugal-África, ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Sofid e Instituto Marquês de Valle Flôr.