A cabeça é que manda. E quando ela não quer, nada feito. Por vezes, quando o cansaço é mais do que muito, quando o adversário é melhor, se a cabeça quer, as pernas não querem saber das cãibras, correm que se desalmam, e a desvantagem (teórica) faz-se vantagem. Mas o contrário também é verdade. Sobretudo quando não há razão aparente para correr. Quando assim é, por tanta que seja a frescura física, por tanto que o adversário seja inferior na valia, se a cabeça não quer, as pernas pesam uma tonelada — ou talvez mais –, e o que era fácil complica-se.

Hoje foi assim em Vila do Conde. O FC Porto, antes do jogo com o Sporting no Dragão, já tinha dado o título por entregue a um dos rivais (Pinto da Costa “prefere” os verde-e-brancos ao Benfica). Perdeu. E perdendo, a motivação ainda seria menor para o jogo com o Rio Ave. O FC Porto tem um título por disputar ainda, a final da Taça de Portugal no Jamor, e a maioria dos jogadores já parece ter a cabeça lá. O problema (para muitos deles, entenda-se) é que ainda faltam dois jogos por disputar num campeonato que foi mais de oitos do que oitentas, a imagem que deixaram foi pálida, e são poucos os que têm garantida a presença no plantel do próximo ano. Ou dão à perna enquanto há jogos para dar, ou Pinto da Costa puxa do cheque e da vassoura depois da final contra o Sp. Braga e recambia uns quantos.

Mas vamos ao jogo desta tarde. A primeira parte conta-se rápido. E conta-se pelos golos que houve, pouco mais. Tudo o mais foi como as bancadas do estádio dos Arcos: um vazio. E uma carga de água diluviana.

Nunca foi um bem-amado, nem no FC Porto nem no Sporting. Mas Hélder Postiga, ao longo da sua carreira, fez uns quantos golos de antologias para guardar em DVD e mostrar um dia aos netos. O de hoje, aos 6′, estará logo nos primeiros a exibir aos postiguinhas. O golo foi um golão. E a atitude de Brahimi displicente. O argelino, no seu meio-campo defensivo, tentou sair em dribles para o ataque. Mas quando se tem pela frente um “muro” como Wakaso, a coisa pode correr mal. E correu. O médio-defensivo do Rio Ave recuperou a bola, Brahimi mal reagiu à perda, assarapantado, e deixou Wakaso avançar para a área. Depois, o ganês entregou a bola a Postiga à entrada desta, o ponta-de-lança estava de costas, rodopiou, encheu o pé e meteu a bola no canto superior direito da baliza do FC Porto, mesmo na “gaveta”. Que remate foi, sem hipótese de defesa para Helton. Hélder Postiga marcou pela primeira vez (em oito encontros) ao clube que o formou.

O melhor é avançar no cronómetro até ao 18′. Aí, Layún cruzou para a área desde a esquerda do ataque, André Silva atacou a bola no centro desta, mas foi agarrado (ostensiva e despropositadamente) por Edimar. Penálti, apitou Bruno Paixão. O lateral brasileiro viu o cartão amarelo. Quem se dirigiu para a marca dos 11 metros foi o senhor do cruzamento tenso: Layún. Cássio ainda adivinhou o lado, o direito, mas o remate do mexicano foi tão forte e colocado, que nem com asas o guarda-redes brasileiro do Rio Ave lá chegaria. O Rio Ave marcou no primeiro remate que fez; o FC Porto também.

Enfim, tudo ao primeiro toque. Enfim, um remate para defesa de Cássio após o empate. Aos 38′, Sérgio Oliveira serve André Silva na área, o ponta-de-lança, ligeiramente descaído para a direita e de costas para a baliza, segura a bola, espera o apoio, passa-a a Maxi que ia subindo pelo flanco, este cruza para fora da área, onde apareceu Sérgio Oliveira (o tal que iniciou a jogada) a rematar de canhota. Cássio teve que ir à relva para segurar. O intervalo chegaria pouco depois. Se a partida terminasse ali, só Sérgio Oliveira teria contrato a partir de maio.

Foi sempre ele, Sérgio, a remar contra a maré, a circular a bola com velocidade e certeza, a desmarcar os extremos (mas Varela e Brahimi raramente desequilibravam no ataque), a carregar o FC Porto às costas para a frente. Assim terminou a primeira parte, Sérgio, assim a recomeçou: a rematar. Foi dele a primeira ocasião de golo depois do intervalo, aos 48′. Com poucas (ou nenhumas) linhas de passe, viu-se de frente para a baliza de Cássio, encheu o pé e cá vai disto! Errou o alvo, saindo a bola torta e ao lado do poste direito dos da casa. O remate não foi grande espingarda, mas mexeu com o jogo. A favor do FC Porto.

E o golo da reviravolta chegaria aos 57′. Sérgio Oliveira ameaçou mal se deu o recomeço, ameaçou novamente aos 56′ num remate que Cássio defendeu por reflexo para canto, e foi na sequência desse canto que Sérgio, à terceira, marcou mesmo. O canto é batido por Layún, Roderick salta mais alto que André Silva ao primeiro poste e afasta a bola para fora da área, mas afastou-a para a zona do “13” do FC Porto. Depois, saiu-lhe da bota direita um tiraço tal, que Cássio nem a viu e a baliza, carregadinha de água, ficou enxuta. Sérgio Oliveira marcou o terceiro golo pelo FC Porto esta época; e fê-lo sempre fora de casa: Gil Vicente, V. Setúbal e Rio Ave.

O FC Porto estava mais perigoso do que na primeira parte. O Rio Ave totalmente ausente. Com 63′, André André desmarcou Brahimi na esquerda do ataque, o argelino ziguezagueou para a área e rematou, um remate que esbarrou em cheio no lateral Pedrinho. Teimosa que só ela, a bola acabou à entrada da área do Rio Ave, estava aos pulinhos e a pedir um remate, coisa à qual Maxi não se fez rogado e rematou mesmo. O remate ainda desviou em Marcelo e quase enganava Cássio. Acabou em canto. Um canto que não deu em nada.

A terminar, aos 87′, o FC Porto fez o 3-1. O empate ao intervalo era justo. O 3-1 no final é pesado (também não produziu tantas ocasiões quanto isso), mas a vitória não tem contestação. O Rio Ave só não perdeu por falta de comparência na segunda parte porque as camisolas listadas de verde-e-branco estavam lá. Molhadas, mas não do que suaram; só de chuva. Quanto ao golo, foi tudo simples — como se pede: Maxi recebeu a bola à direita, ainda no começo do meio-campo defensivo do Rio Ave, viu Varela a esgueirar-se entre Marcelo e Edimar, e foi mesmo lá que meteu a bola. O extremo português, com uma receção orientada, ficou só dentro da área e rematou cruzado, com a bola a passa entre as pernas de Cássio e a entrar. Foi o quinquagésimo golo de Varela pelo FC Porto.

Contas feitas, tudo na mesma. Para o FC Porto seria sempre assim: do terceiro lugar não passa, para baixo dele não cai. Mas o Rio Ave perdeu aqui uma boa oportunidade de roubar o sexto lugar ao Paços de Ferreira (que ontem perdeu em casa com Tondela), o último que dá acesso à Liga Europa. Pode ser que o Sp. Braga, já apurado para as competições europeias, dê uma mãozinha, vença o FC Porto na final da Taça, e abra uma vaga para o sétimo classificado. A jogar o FC Porto como jogou na primeira parte, talvez não seja utópico pensar-se nisso em Vila do Conde.