“Geringonça, a máquina complexa com muitos parafusos que funciona. E que vai funcionado.” A descrição é da própria coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, que, no encerramento do primeiro dia das jornadas parlamentares do Bloco de Esquerda, aproveitou para fazer o balanço dos primeiros seis meses da atual maioria parlamentar. Balanço positivo, reconheceu a dirigente bloquista, mas com muito caminho por percorrer. “Cá estamos para a esticar a corda que mantém uma maioria que recupera rendimentos.” Ou seja, o recado é simples: o Bloco quer mais e vai exigir mais do Governo socialista.

Esta parece ser a mensagem que o Bloco vai ensaiar até à próxima convenção do partido, a 25 e 26 de junho. Os bloquistas estão dispostos a apoiar o Executivo de António Costa, mas os socialistas têm de ir mais longe na reposição dos direitos e rendimentos dos portugueses. “Tantas vezes ouvimos que a exigência do Bloco de Esquerda pode ser um qualquer perigo para o país. A exigência do Bloco de Esquerda é o que torna possível uma maioria para a recuperação de rendimentos”, atirou a coordenadora do Bloco de Esquerda.

E se o termo “geringonça” parece já não fazer mossa no Bloco de Esquerda, Catarina Martins fez questão de assumir a responsabilidade do partido na manutenção da estabilidade da aliança de esquerda. “Se o Bloco de Esquerda não tivesse sido exigente, o acordo parlamentar não teria existido. A nossa exigência é o cimento da maioria.”

Sem poupar a direita, que acusou de estar “amarrada à bancarrota porque sem bancarrota a direita não existe”, a porta-voz do Bloco não deixou de dar uma alfinetada aos socialistas. Não fosse o papel do Bloco na construção da atual maioria, diz Catarina Martins, e o país estaria condenado à “austeridade” de PSD e CDS ou à “austeridade soft” do PS.

Com o Bloco de Esquerda no centro das decisões políticas o caminho tem de ter sentido único: “No Bloco de Esquerda não cedemos. Queremos mais”. Dar emprego a quem não tem, aumentar as pensões mais baixas, garantir condições de trabalho e níveis salariais dignos, proteger e reforçar o ensino público e Serviço Nacional de Saúde, investir na cultura e na ciência, foi enumerando Catarina Martins: “[Queremos desenhar] um futuro para o país”.

Mariana Mortágua e as críticas às “lágrimas de crocodilo” de Marques Mendes

Antes de Catarina Martins subir ao púlpito foi a vez de Mariana Mortágua tomar a palavra. Bastante aplaudida, a deputada bloquista não poupou críticas a Luís Marques Mendes que, na véspera, tinha criticado a decisão do Governo de pôr termo aos contratos de associação com colégios privados.

Na SIC, o ex-líder social-democrata tinha dado o exemplo de Santa Maria da Feira, onde o Colégio Liceal de Santa Maria de Lamas (privado) soma mais alunos do que a escola pública de Paços de Brandão. Ora, Mariana Mortágua não ficou convencida com os argumentos de Marques Mendes.

“Aquilo que Marques Mendes e o PSD se esqueceram é que o liceu de Paços Brandão recebeu prémios de qualidade no ano passado”, atirou a bloquista, criticando as “lágrimas de crocodilo” de quem “sempre se esteve marimbando” para a “precariedade que existe nas escolas públicas”. “É a renda. O que Marques Mendes defende é a renda do colégio privado”, criticou, por fim, Mariana Mortágua, perante uma audiência de cerca de cem pessoas.

As jornadas parlamentares do Bloco de Esquerda encerram esta terça-feira, com a apresentação de novas propostas legislativas do partido.