Um cravo datado de 1785, da autoria de Joaquim José Antunes, vai ser leiloado esta quarta-feira, às 10h00, em Inglaterra. Trata-se de “uma das peças mais importantes do património musical português que chegaram aos nossos dias”, defende José Carlos Araújo.

O cravo, instrumento que esteve na génese do piano mas que funciona através de um mecanismo diferente, com cordas beliscadas como as de uma guitarra, “está à venda por um preço irrisório para o objeto que é”, explica ao Observador o membro do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Na página da leiloeira Dreweatts estima-se que possa ser vendido por pelo menos 50 mil libras (63 mil euros, à taxa de câmbio atual) e 70 mil libras no máximo (88 mil euros).

José Carlos Araújo considera que esta possa ser talvez a única oportunidade para Portugal adquirir “uma peça muito particular, por razões históricas”, e que nunca deveria ter saído de Portugal. Em 1985, ainda o instrumento não tinha a divulgação nacional e internacional que tem hoje, foi adquirido pelo colecionador britânico Richard Burnett, por cerca de 33 mil libras. Restaurou-o e colocou-o no Finchcocks Musical Museum, onde as suas restantes peças estão em exibição pública. José Carlos Araújo explica que ele e a mulher, Katrina, estão a vender alguns objetos por terem uma idade avançada e já não conseguirem tratar do museu como gostariam. Os lucros das vendas vão reverter a favor de missões de caridade.

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No interior da tampa estão duas pinturas. © D.R.

Várias pessoas ligadas à música estão a defender nas redes sociais que o instrumento deveria estar no Museu da Música, ao lado dos outros dois únicos cravos sobreviventes da oficina de Antunes. “Um deles é de 1758, classificado como tesouro nacional, e outro de 1789. Se este voltar a Portugal, estariam reunidos novamente em Lisboa os três”, explica.

Quando soube do leilão, há três meses, alertou o Museu da Música que, no entanto, não tem autonomia para adquirir peças. Ao Observador, o Museu disse que fez tudo o que estava ao seu alcance, incluindo um parecer favorável à vinda do cravo para o acervo. No entanto, uma vez que o cravo vai a leilão, não chegaram respostas favoráveis.

Em esclarecimentos ao Observador, o gabinete do ministro da Cultura afirmou que “através da Direção Geral do Património Cultural teve conhecimento do leilão do cravo construído em 1785 por Joaquim José Antunes, o mesmo construtor de um outro cravo pertença do Museu da Música, Tesouro Nacional, de que muito nos orgulhamos”. O mesmo gabinete esclareceu: “Reconhecemos o manifesto interesse histórico e patrimonial desta peça, mas atendendo ao atual momento económico, a sua aquisição em leilão não se afigura possível“.

Monumentos da cultura musical portuguesa

Num artigo que publicou na revista de música clássica Glosas, José Carlos Araújo escreve que Joaquim José Antunes (1731–1811) é “o maior construtor português de cravos e pianofortes de que temos notícia”. A oficina de onde saiu o cravo ficava no Bairro Alto, em Lisboa, onde trabalhava com o irmão Manuel Antunes (1707-1796).

“Os instrumentos da família Antunes são considerados autênticos monumentos da cultura musical portuguesa e cada um deles um documento único, pela extrema raridade em que as difíceis condições da sua preservação os fizeram chegar aos nossos dias, para a reconstituição da sonoridade da Música Portuguesa anterior a 1800.”

No interior da tampa, com duas pinturas classicizantes, uma das quais de inspiração claramente mitológica representando a deusa Atena, é o mais imponente cravo construído pela oficina Antunes. Vendido pela leiloeira Sotheby’s a 12 de Dezembro de 1985, foi felizmente adquirido, pelo valor tristemente irrisório de £33,000 por um dos mais criteriosos proprietários que poderia ter encontrado, o Dr. Richard Burnett, que o fez restaurar, em 1987,

Saiba como comprar

A única esperança agora é a intervenção de um mecenas. O leilão terá início às 10h00 de quarta-feira, em Donnington, em Berkshire, Inglaterra, sendo o cravo o lote 24. Ao Observador, a leiloeira britânica esclarece que é possível fazer uma compra à distância. Basta estar atento à hora marcada ao site e fazer o registo. Um interessado também se pode registar como “phone bidder” e licitar por telefone, estratégia que a responsável pela leiloeira aconselha.

Recentemente, houve dois casos que vão permitir que duas peças de arte fiquem em Portugal. No início do ano, a pintura “A Sagrada Família com São João Batista, Santa Isabel e Anjos“, de Josefa de Óbidos, foi a leilão em Nova Iorque. O galerista Filipe Mendes lançou um apelo e a Santa Casa da Misericórdia do Porto chegou-se à frente, arrematando a obra por 250 mil dólares (cerca de 228 mil euros). O quadro está neste momento exposto no novo Museu da Misericórdia, na Rua das Flores, no Porto.

A mais recente vitória do mecenato foi a aquisição de uma pintura de Domingos Sequeira, “A Adoração dos Magos“. Os 600 mil euros necessários para a compra foram conseguidos através de doações de várias pessoas e instituições públicas e privadas, respondendo a um apelo do Museu Nacional de Arte Antiga. Vai ser restaurado e regressa a 21 de maio, com uma festa no museu.

“O lugar deste instrumento é em Portugal e esta poderá ser a última ocasião para reparar o crime de lesa-pátria que os responsáveis pelo Património Cultural que exerciam (melhor, que não exerciam) as suas funções em 1985 cometeram”, termina José Carlos Araújo.