Os músicos escreveram apelos, o Museu da Música fez um parecer mas o Ministério da Cultura decidiu não adquirir o cravo de 1785, “uma das peças mais importantes do património musical português que chegaram aos nossos dias”, de acordo com o representante do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, José Carlos Araújo. Houve, no entanto, um interessado no cravo feito por Joaquim José Antunes, já que a peça foi arrematada esta quarta-feira de manhã no leilão, em Berkshire, na Inglaterra, por 80 mil libras.

São 101 mil euros, à taxa de câmbio atual. A leiloeira Dreweatts disse ao Observador que este foi o “preço de martelo”, ao qual ainda serão acrescentadas 19.200 libras de comissões. Total: 99.200 libras, o equivalente a 125 mil euros. A Dreweatts não pode, no entanto, revelar a identidade do comprador.

Na página da leiloeira Dreweatts estimava-se que poderia ser vendido por um valor situado entre as 50 mil e as 70 mil libras, mas o valor final foi superior.

Num artigo publicado esta madrugada, a britânica BBC destacava quatro dos 70 artigos da coleção de Richard Burnett que integravam o lote do leilão. Um era precisamente o cravo português.

Só existem no mundo mais dois cravos saídos da oficina de Antunes e ambos estão no Museu da Música, em Lisboa. Um deles, de 1758, classificado como tesouro nacional.

Quando soube do leilão, há três meses, José Carlos Araújo alertou o Museu da Música que, no entanto, não tem autonomia para adquirir peças. Ao Observador, o Museu disse que fez tudo o que estava ao seu alcance, incluindo um parecer favorável à vinda do cravo para o acervo. No entanto, uma vez que o cravo vai a leilão, não chegaram respostas favoráveis.

Ao final da tarde, o Ministério da Cultura informou o Observador de que reconhecia “o manifesto interesse histórico e patrimonial desta peça”. No entanto, “atendendo ao atual momento económico, a sua aquisição em leilão não se afigura possível“.