Casamento, maternidade e vida doméstica eram os lugares que a ideologia da ditadura do general Franco — que vigorou em Espanha de 1936
a 1975 — destinava às mulheres.

As mulheres espanholas deveriam submeter-se a um modelo feminino de submissão e docilidade, mas este modelo foi amplamente contestado pela cultura popular, principalmente pelas mulheres de Hollywood que apareciam nos ecrãs do cinema em filmes exibidos com permissão da censura, conclui a historiadora de arte María Rosón, segundo o jornal El Español.

A sociedade de consumo foi responsável pela introdução de alguma sensualidade na imagem feminina, mas sempre sob o controlo do regime, analisa ainda a investigadora,no livro “Género, memoria y cultura visual en el primer franquismo“, que abrange o período de 1938 a 1953.

O modelo ideológico rígido de feminilidade defendido pela ditadura foi construído com recurso à Igreja Católica, à legislação e também à Secção Feminina do partido Falange Espanhola.

Esta secção do partido único funcionava no Castillo de la Mota, em Medina de Campo (Valladolid), um dos lugares mais assustadores da memória da ditadura de Franco. A casa da Secção Feminina, também conhecida como a casa da “grande família falangista” funcionava como um local onde as mulheres eram educadas segundo a ideologia da domesticidade e de onde saíam para ir pelas aldeias a passar a mensagem ideológica da “Nova Espanha”.

O interior do Castillo de la Mota foi projetado segundo o desenho moderno que “remetia para um ‘glorioso’ passado imperial, com um design “funcionalista”. Para Pilar Primo de Rivera — condessa do Castillo de la Mota, irmã do líder do partido falangista e dirigente da Secção Feminina durante toda a sua vigência — era “um projeto belíssimo, que respeitava as linhas primitivas, mas não esquecia as exigências modernas para que fosse um local onde fosse possível viver e trabalhar.”

O castelo — e a Secção Feminina que aí funcionava — tornou-se símbolo das virtudes femininas defendidas pelo franquismo. “A mera contemplação dos seus muros e torres, a paisagem circundante, é a maior lição sobre as virtudes cristãs e espanholas da austeridade, abnegação e ternura nas quais era tão rica a alma da grande rainha”, disse o general Franco referindo-se à rainha Isabel, a Católica, no dia da inauguração do seu funcionamento a 19 de maio de 1949.